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João Gilberto Noll: o escritor do duplo mundo*

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Wilson Nogueira**

O gaúcho João Gilberto Noll (1946-2017) fala sem pressa sobre literatura. Entre uma frase e outra há sempre um silêncio reflexivo.

Noll dialoga com a alma dele e com a do interlocutor, como se assumisse a personalidade de algum habitante ainda aprisionado na sua mente atribulada pela força criativa.

“As minhas personagens vivem um duplo mundo: o de dentro e o fora”, explica.

Em 1980, Noll estreou na literatura e nunca mais parou de escrever. O escritor revela que o texto ficcional o tirou da loucura de hospício.

Wilson Nogueira – O senhor é jornalista e atuou por muito em jornais. Havia, antes, essa ideia de se dedicar inteiramente à literatura?

João Gilberto Noll – Trabalhei em jornais na década de 1970, mas o meu objetivo era a literatura. Sempre soube, desde criança, que seria um artista.

Só não sabia em que área. Eu queria transfigurar um pouco a realidade. Só documentá-la, como acontece no jornalismo, não me bastava.

Eu precisava transfigurá-la, eu tenho uma literatura bastante transfigurante. Não tenho uma literatura documental.

É isso: a realidade, mais a sua transfiguração. Escrevo por isso.

Quero essa transfiguração, essa dança, essa música, essa embriaguez mental.

Realmente, eu trate mais de espectros e fantasmas do que de gente de carne e osso.

WN – Seus personagens não têm nomes…

Não têm nomes porque eles podem incorporar as mais diversas manifestações humanas sem ter que pedir licença da psicologia realista.

Preciso um pouco de embriaguez na literatura e tenho conseguido encontrá-la. Esse meu último livro, Acenos e afagos, por exemplo, acompanha a mudança de gênero de um homem até ele se tornar mulher.

E isso vai começar a acontecer na selva, entre essa fuga interminável.

O amor desse cara é um amor que nasceu na infância e chega até esse ponto da selva onde os dois vão ser enterrados juntos.

Só que eu vou lá pra baixo da cova deles e, como escritor, sinto que ainda há certo fervor que não quer morrer.

É a minha utopia desmerecer essa morte, a extinção completa.

Há até um tesão lá embaixo, como se eles estivessem virando as costas para a morte.

É interessante porque esse que se transforma em mulher vai se incorporar, aos poucos, à imagem arcaica da mulher: a serviçal do lar. Talvez para segurar esse homem (o parceiro). É isso aí cara!

Onde o senhor encontrou essa estética que domina os seus livros?

Ah! Bastante em Clarice Lispector.

Não que eu me ache muito parecido com ela, mas os livros dela foram uma leitura mágica para mim.

Foi a partir dessa leitura que eu passei a perceber que a literatura poderia ser muito além do que eu imaginava lendo autores mais realistas, mais convencionais em termos estéticos.

O livro A Paixão segundo G.H, onde a personagem central põe na boca uma barata, é impressionante.

Não uso barata, mas gostei de auscultar a impossibilidade.

Kafka também… Aquele estranhamento, pra mim, é aquela a fonte do estranhamento…

WN – O senhor se refere então ao acordar para o pesadelo da estética kafkakiana?

JJN – Acho que é por aí. Acho que esse pesadelo é muito lúcido.

Por isso que esse acordar para o pesadelo passa um sentido muito especial para mim.

Tento escrever justamente para isso: para poder acolher o pesadelo.

Acho que faço uma literatura meio esquizóide.

As minhas personagens vivem um duplo mundo: o de dentro e o fora. O mundo de dentro é muito forte. Tão forte quanto o de fora, certo?

É um desespero, é um tentar fugir do autismo inclusive.

Não é muito confortável essa sua tendência de ter sempre duas possibilidades de vivência.

Em Acenos e afagos o amor que salva esse cara de um dentro hiperatrofiado, que é a loucura, é a loucura, a palavra hiperatrofiado é a loucura.

É quase como passar um apagador sobre a vida.

WN – Nesse caso, escrever seria uma busca ou uma fuga desses fantasmas?

Talvez não seja uma coisa nem outra, mas um sentimento que se impõe de uma forma tão drástica, tão radical, é uma imposição realmente radical.

Eu pensei que, quando fosse escritor, falaria de coisas muito solares.

Mas não é isso que apareceu pra mim. O que apareceu pra mim foram esses fantasmas dúbios, melancólicos também, trevosos muitas vezes.

Às vezes, nos meus livros, a lucidez solar ou iluminista eu passo um pouco de escanteio. Depois que lanço um livro em passou quatro, cinco meses ou mais pensando e elaborando a questão dele.

Não tenho tempo de escrever e, ao mesmo tempo, saber a significação deles, das personagens. A significação é a posteriori, vem depois.

WN – É uma reflexão?

É. Trabalho muito com o consciente. Nem quero, digamos, ter o controle total dessas imagens.

Quero é que elas me arrastem.

Depois eu começo a pensar sobre o significado dessas imagens que me saíram da mente.

A literatura para mim – vou te dizer uma coisa, cara! – é uma espécie de salvação.

A Clarice falava muito disso. Acho que se não elaborasse a minha loucura na literatura eu estaria realmente louco de hospício.

WN – O senhor chega a se surpreender esses seus questionamentos?

Claro que sim. A cada livro é uma nova surpresa. Não resta dúvida. Não sou um escritor realista.

Acho até que na literatura brasileira, digamos assim, há uma oligarquia realista muito grande, como no romance de 1930.

No romance de 1930 tem o Veríssimo (o pai), mas tem o Graciliano Ramos, que não é o romance realista ortodoxo.

Um livro que eu adoro, Angustia (1936), é um universo intramental.

Chegou ao ponto de Graciliano renegar um pouco esse livro, porque ele fazia parte do Partido Comunista, que não gostava desse tipo de literatura muito dostoiesvskiana, mais da alma, mais de dentro.

É um autor que eu amo também, além de Clarice, principalmente esse Graciliano de Angustia.

 Ele fica ali nos interiores de um pobre diabo em angústia, um sujeito calejado da polis, do amor, do sexo. Gosto muito do Graciliano. Tenho muito respeito por ele.

WN – E Dostoiésvsky, que o senhor mencionou antes?

Uma das coisas que mais impressionou na literatura foi o do livro Crime e castigo (Fiódor Dostoiésvsky), que me perturbou.

Comecei a me identificar com o assassino, eu era um cara jovem.

Esse livro me causou um distúrbio muito grande.

Comecei a torcer para que a polícia não conseguisse pegá-lo.

Então é isso.

São esses os autores mais próximos de mim.

Perfil

João Gilberto Noll publicou treze livros. Recebeu inúmeros prêmios, incluindo o Prêmio Jabuti em cinco ocasiões, em 1981, 1994, 1997, 2004 e 2005. Seu romance Harmada (1993) está incluído na lista dos 100 livros essenciais brasileiros em qualquer gênero e em todas as épocas da Revista Bravo. Ele trabalhou nos jornais Folha da Manhã e Última Hora, no Rio de Janeiro. O seu Afagos e acenos (2008) foi lançado em Manaus, no dia 20 de novembro de 2008, no Festival Internacional da Floresta (Flifloresta).

*Publicada em a Critica, em dezembro de 2008.

** O autor é jornalista e escritor

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