Livro sobre Sairé é janela para a compreensão da cultura popular ribeirinha [por WILSON NOGUEIRA]

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Foto/reprodução: Fernanda Butel

Wilson Nogueira*

O livro Festa do Sairé de Alter do Chão, organizado pela Profa. Dra. Luciana Carvalho, é uma multi-narrativa que amplifica, para reflexão e deleite estético do leitor, a compreensão de um dos jeitos de viver da formação sociocultural da Amazônia.

Articulam-se aqui conhecimentos que entrelaçam viveres e saberes locais, cosmologias indígenas, antropologia, sociologia, comunicação, arqueologia, religiões, arte, filosofias etc.

Na sua beleza e elegância esta multi-narrativa nos instiga a pensar sobre os resultados de uma criteriosa observação/investigação que ultrapassa o limite da sua finalidade institucional.

Luciana e equipe de pesquisadores e pesquisadoras cumpriram com êxito o propósito de inventariar os bens imateriais de uma das mais antigas manifestações culturais da Amazônia paraense.

Agora, não será mais por carência de fundamentação teórica nem por falta de legitimação social que a Festa do Sairé não venha a ser reconhecida como Patrimônio Imaterial do Brasil.

Esta obra só confirma que a Amazônia é pluricultural: um espaço onde malocas, lugarejos, vilas, cidades e metrópoles se entrecruzam no vaivém das suas gentes e seus afazeres, visões de mundo e mundos de visão.

Assim, para conhecê-la, reconhecê-la e/ou compreendê-la não basta somente perícia, paciência, estratégia, tática, meta e tantas outras instruções que, geralmente, podem ser transferidas para pilotagem automática.

Para deixarem-se desvendar, as amazônias de mil entradas e saídas exigem, acima de tudo, sentidos que percebam o murmurar das chuvas, a correnteza, o silêncio dos rios, o esvoaçar da floresta, o movimento da vida entre o cosmo e o caos.

Então, melhor mesmo é pensá-la sempre por meio da sua pluralidade.

Neste contexto, Festa do Sairé de Alter do Chão também esclarece que o (pré) conceito não é uma boa companhia para aqueles que se aventuram pela profundidade das relações eco-socioculturais das amazônias.

Afinal, não há uma ciência, saber ou linguagem que, isoladas, não possam vir a se esvair diante da sua complexidade ecossistêmica, perspectiva teórica que reconhece entrelaçamento complementar, concorrente e antagônico entre os seres vivos, entre os quais os humanos, e seus ambientes.

Nesta leitura nos é dado a reconhecer que as várias entradas e saídas da Amazônia plural refletem a inconstância das culturas que se misturam como se tecem as copas das arvores e ou encontram as águas do Tapajós e Amazonas.

As festas são uma dessas entradas certamente. Elas nos oferecem a possibilidade de tocarmos a alma das pessoas nos seus momentos mais sublimes, onde o ordinário e o extraordinário, objetivo e subjetivo, fé e razão, natureza e cultura, real e imaginário e tantas outras dualidades antes franjas realçadas se desfazem.

Ou seja: este é um livro que informa e gera conhecimento com prazer de leitura.

Nas suas páginas pulsa a leveza de uma composição multi-editorial – ou um hipertexto cultural – que harmoniza designer, texto, iconografias, gráficos e fotografias.

São linguagens que se entremeiam em favor da compreensão ampliada da Festa do Sairé, que hoje também se espalha pela religião, pelo espetáculo midiático, pelo turismo e pelas diversas mobilizações eco-socioculturais contemporâneas.

Desta feita, as 120 fotografias distribuídas ao longo destas 155 páginas não servem apenas para estimular algum olhar furtivo e apressado; são, sim, imagens que traduzem, nos diversos retratos das atividades do Sairé, épocas e momentos da formação eco-sociocultural das amazônias.

Uma formação com raízes nas culturas étnicas autóctones e nas culturas invasoras/colonizadoras, como se pode perceber e interpretar nos elementos peça icônica que dá nome a festa.

O Sairé merece esse empreendimento intelectual compartilhado entre pesquisadores e seus realizadores. Afinal, trata-se de uma festa de comunidade que já atravessou de três séculos.

Persistiu acima de tudo.

Como explicar, por exemplo, que essa festa esteve interditada por trinta anos pela Igreja Católica e veio a renascer, na década de 1970, com vigor impressionante?

Por que o Sairé persiste somente em Alter do Chão, quando já foi endêmico em quase toda a Amazônia?

Respostas a essas e outras perguntas não serão, certamente, obtidas de forma direta e automática, mas podem vir a se manifestar no semblante sublime das devotas religiosas ou na alegria incomensurável dos brincantes do Boto Vermelho e do Boto Cor-de-Rosa.

Imerso nesta leitura ampliada, imagino que a Festa do Sairé de Alter do Chão deixou-se fluir no compartilhamento das várias linguagens e formas de se expressar ao longo da sua existência.

Não teria chegado aos dias atuais se não tivesse se hibridizado nos fluxos culturais amazônicos.

Aliás, o sairé nasce do entrechoque das visões de mundos dos invasores/colonizadores e das cosmovisões dos indígenas amazônicos.

O fato de se manter até hoje – e mais ainda por ter sido resgatado depois de trinta anos de interdição – diz muito da sua importância simbólica para os moradores de Alter do Chão particularmente, e sobre o quanto foi obscurecido pelo imaginário europeu em outras localidades.

Como contextualiza muito bem este livro: o sairé não é apenas uma brincadeira para turista ver ou mais um evento para consumo midiático.

É, acima de tudo, um fenômeno cultural que mobiliza a memória, a história, o imaginário, a estética e a ética de uma comunidade enraizada na Amazônia imemorial.

Pode-se constatar que a Festa do Sairé reaviva, por meio das suas multi-narrações – e de modo inclusivo – a existência dos povos amazônicos autóctones vítimas de permanentes etnocídios.

Sem ela, os Borari e outras etnias do Tapajós e Médio Amazonas – e suas culturas – permaneceriam nas páginas empoeiradas dos livros.

Por fim, esse é um livro que merece ser lido com o interesse de quem quer se aprofundar nas culturas amazônicas.

*O autor é jornalista, sociólogo e escritor  

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