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Perseguido, Eduardo Ribeiro teve seu nome apagado do Teatro Amazonas

É isso que afirma o historiador e escritor Robério Braga, presidente da Academia Amazonense de Leatras (AAL), em trecho de estudo que republicamos hoje

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Reeditamos parte da palestra do presidente da Academia Amazonense de Letras (AAL), Robério Braga, na qual ele cita episódios cuja finalidade seria apagar o legado público do ex-governador do Amazonas Eduardo Ribeiro (1890-189, 1892-1896), inclusive o da construção do Teatro Amazonas, que hoje completa 125 anos.

“Soterraram seu nome do alto do Teatro Amazonas que havia sido gravado em pedras revestidas de ouro, na lateral superior esquerda do prédio […]”, afirmou Braga, reforçar a sua tese de que Eduardo Ribeiro sofreu preconceito, por ser negro, nordestino e de baixa estatura, e perseguição política por parte das elites política e econômica da época.

Essa placa só foi redescoberto em 2012, durante obras de manutenção do teatro.

A Eduardo Ribeiro é atribuída a mais profunda intervenção modernista na arquitetura e nos equipamentos públicos de Manaus, no momento em que o Amazonas contava com dinheiro advindo da borracha.

Da administração de Eduardo Ribeiro são também o Palácio da Justiça,  o Instituto Benjamin Constant e o inacabado Palácio do Governo, que se transformou no Instituto de Educação do Amazonas (IEA).

Robério Braga sustenta que os boatos e mentiras impostas à imagem e às realizações do político e ex-governador do Amazonas Eduardo Ribeiro são exemplos de uma “falsa ou incompleta história do Amazonas”.

No sepultamento [de Eduardo Ribeiro], João Barreto de Menezes, corajoso jornalista, filho de Tobias Barreto, então residente em Manaus, tido e havido como figura de contestação e coragem, anunciou que Ribeiro havia sido envenenado e que não havia praticado o suicídio, e o fez na presença de alguns de seus algozes. Robério Braga.

O estudo, de 34 páginas, cujo título é A desmemória no Amazonas, será publicado na forma de artigo científico na próxima edição da Revista do IGHA, ainda sem data de circulação definida.

Às suas reflexões teóricas-conceituais, Braga desfiou exemplos de apagamento da memória no Amazonas e no Brasil, com ênfase para episódios da história política.

Do conjunto de exemplos sobre desmemória, o relacionado a Eduardo Ribeiro, o governador que fez obras monumentais em Manaus, foi o que mais despertou o interesse da plateia.

As iniciativas de apagamento da memória política de Eduardo Ribeiro se explicam por meio de três conceitos de Paul Connerton: apagamento repressivo, prescritivo e de amnésia estrutural.

Confira o trecho da palestra:

[…] Este desfile de circunstâncias, personagens e fatos poderia se alongar muito para demonstrar como a desmemória tem contribuído para uma falsa ou incompleta História do Amazonas, nestes exemplos tomados apenas o campo político de suas manifestações.

Um caso, entretanto, é emblemático e bastaria, por si só, não houvesse neste Seminário o intuito de provocação mais ampla conforme foi anunciada. Este caso se reporta a Eduardo Gonçalves Ribeiro em relação ao qual se acumulam, pelo menos, apagamento repressivo, prescritivo e de amnésia estrutural, tomando por base a classificação de Paul Connerton.

Explica-se: Eduardo Ribeiro, negro, descendente de escravos, de pai até hoje não referido em seus registros, maranhense, 1,60 de altura, militar, abolicionista, republicano, positivista e anticlerical, um dos inventores e editor de jornal “O Pensador” em São Luiz do Maranhão em amizade íntima com Aluísio Azevedo, chegou ao Amazonas por escolha própria para servir ao Exército, ainda no império, fez cerimônias ao conde d ́Eu e foi membro do Clube Militar do Amazonas.

Tenente de Engenheiros formado na escola de Benjamin Constant, viu-se substituindo o governador-interventor militar Augusto Ximeno de Villeroy, interinamente, em posição não muito confortável para o vice-governador Guilherme Moreira, barão do império e irmão dos todos poderosos Emílio José Moreira e António Moreira. Em seguida, foi nomeado segundo vice-governador, e, logo após, governador do Estado.

Derrotado na luta surda dentre militares vinculados a Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, cedeu o lugar contra a vontade de algumas forças políticas locais e de parte do povo, para Thaumaturgo de Azevedo, ex-governador do Piauí que, filiando-se ao fechamento do Congresso Nacional por Deodoro, quando da renúncia deste à presidência da República foi afastado do governo por movimento popular, político, militar e por ordem de Floriano Peixoto, para que se desse a reassunção de Eduardo Ribeiro e sua consequente eleição para mandato quadrienal de governador do Estado.

De tal ordem pujante e transformadora foi sua administração que ele se impôs sobre os grupos dominantes da época e até sobre os que se preparavam e pretendiam dominar a política local, não sem sofrer abatimentos, injúrias, ofensas, desqualificação pessoal, moral e familiar ainda no curso do governo, o que foi aprofundado após a conclusão do mandato e mesmo enquanto foi deputado estadual e presidente do Poder Legislativo do Estado.

Padeceu todo o tipo de ofensa à sua imagem pessoal, ao longo dos anos. Ao pretenderem inseri-lo no grupo dominante aplicaram sobre suas fotos oficiais a prática do retrato americano, esbranquiçando sua cor, desencarapinhando e alterando seus cabelos, trocando-lhe a farda de militar pelo traje civil.

Sobre ele recaiu a pecha de homossexual; depois, a de ter um filho sem casamento, e residente no Rio de Janeiro, às escondidas; mais adiante a de enriquecimento ilícito por propriedades que nunca foram suas; depois impediram a sua posse como senador da República, devidamente eleito, por ação da Comissão de Poderes; quando se aproximava a sucessão estadual nos anos 1899-1900, distribuíram notícias de que estaria doente; em seguida, de que estaria gravemente doente e com doenças nervosas; adiante anunciaram tratar-se de esquizofrenia; depois, loucura, pura e simples e que, tendo procurado  tratamento na Europa, não teria alcançado êxito; por isso o afastaram da presidência do Poder Legislativo para tratamento de saúde; o confinaram em sua chácara sob cuidados médicos locais, e bastante duvidosos; o colocaram em camisa de força e divulgaram essa circunstância.

Visitado por seus algozes, aos quais possivelmente ainda tomava como amigos, foram estes que teriam mandado servir determinado produto originário de Santarém, até que poucos dias depois Eduardo Ribeiro foi encontrado morto, sentado no chão, de pijama e meias, com a corda da rede de balanço entrelaçada ao pescoço, simulando suicídio.

Curioso que os beneficiados com a exclusão de Ribeiro da política, foram os mesmos que o visitaram na semana de sua morte e no dia fatídico não se encontravam em Manaus, mas em seus sítios no interior.

Por isso não compareceram ao sepultamento, que foi apoteótico. Nem foram à missa de corpo presente que foi retumbante de populares convulsionados pelo fato. Mas, 30 dias depois, prestaram-lhe homenagens fúnebres no Teatro Amazonas.

A fase seguinte foi tentar silenciar vozes contrárias e apagar a memória do ex-governador. Mas nem todas as vozes foram silenciadas na ocasião, apesar dos esforços dos principais detentores de poder, nesse sentido. No sepultamento, João Barreto de Menezes, corajoso jornalista, filho de Tobias Barreto, então residente em Manaus, tido e havido como figura de contestação e coragem, anunciou que Ribeiro havia sido envenenado e que não havia praticado o suicídio, e o fez na presença de alguns de seus algozes.

A morte não cessaria a sanha de apagamento da memória de Eduardo Ribeiro. Sumiram com os processos judiciais e policiais que se referiam à sua morte; desapareceram com os laudos cadavéricos; procuraram conter os debates que passaram a ser travados por médicos na imprensa, discutindo a causa mortis e a cena do crime.

Solaparam seu patrimônio pessoal, deixando a mãe, a irmã e o filho praticamente sem bens, sob a alegação de que havia dívidas com o Estado que precisariam ser saldadas as quais teriam sido contraídas por ele quando em busca de tratamento de saúde na Europa. Tomaram-lhe e leiloaram a casa da Rua José Clemente. Deram sumiço no processo original e completo do inventário. Desestimularam os que cogitavam de edificar uma estátua em sua homenagem, em praça pública, e a que se encontra no cemitério foi erguida por campanha de adesão popular.

Implodiram o Palácio do Governo que Ribeiro havia deixado em fase semifinal de edificação e que teria sido mais um grande monumento para a cidade, como o Teatro Amazonas, o Palácio da Justiça, o Instituto Benjamin Constant.

Avançaram sobre sua história de vida e edificaram um hospital para alienados mentais ao qual deram o nome de Hospital Eduardo Ribeiro, como que em busca de reafirmar o alegado estado de saúde que o teria levado ao ato definitivo contra a própria vida. Não satisfeitos, incendiaram sua chácara de residência e local de sua morte. Soterraram seu nome do alto do Teatro Amazonas que havia sido gravado em pedras revestidas de ouro, na lateral superior esquerda do prédio, soterramento que permaneceu até agosto de 2012 quando esse importante registro foi redescoberto em razão de pesquisa por ocasião de obras de manutenção do prédio.

Essa descrição circunstancial dos fatos, ainda que possa estar incompleta, permite concluir que este possa ser um exemplo de busca persistente de apagamento da memória, de apagamento repressivo, prescritivo e de amnésia estrutural.

Repressivo, porque era o poder, eram os homens do governo e das oligarquias atuando para oprimir a sua memória; prescritivo, por opressão da sociedade, porque a parte influente da sociedade dominante parecia recusar a presença continuada de um negro, militar e honrado, na liderança política do Estado; e, de amnésia estrutural também pela condição de influência das chamadas hierarquias sociais, visto que ele não se enquadrava no grupo dominante, até porque sua inserção na política e no governo havia decorrido de golpe militar que implantou a República à qual ele estava vinculado como oficial do Exército destacado para Manaus.

É fato indiscutível que, com sua morte e a continuada persistência de busca de apagamento de sua memória, os seus principais concorrentes políticos ascenderam ao poder e nele se mantiveram de 1900 a 1930, ordenando e ostentando a mais encarniçada oligarquia política.

 

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2 Comentários
  1. Antonio Augusto da Silva Pinho Diz

    Boa tarde, sou Augusto Pinho, natural do Amazonas. Condisero importante, pesquisas históricas sobre vários aspectos históricos da sociedade amazonense. Conhecer um pouco sobre a vida e o legado de Eduardo Ribeiro, nos permite a devida apropriação da história da sociedade amazonense. Nesse sentido, penso que devemos incentivar, apoiar, investir e valorizar a produção intelectual das ciências humanas e sociais no estado do Amazonas, com o intuito de refletirmos sobre os rumos que nós enquanto sociedade vamos adotar para assegurar o nosso bem viver e que tipo de relação nossa sociedade vai estabelecer com a bioviversidade amazonense. Parabéns a equipe do site.

  2. Maria do Carmo Diz

    Sou pesquisadora amazonense sobre negros no Amazonas e esta publicação de Roberto Braga veio agregar conhecimentos a minha pesquisa. Estou buscando a obra deste autor sobre escravidão negra no Amazonas. Onde posso encontrá-la?

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