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Uma viagem nas Ideias de Renan Freitas Pinto [por WILSON NOGUEIRA]

Nosso propósito é extrair do livro Viagem das Ideias , de Renan Freitas Pinto, uma compreensão da Amazônia como referência histórica para a reelaboração da sua própria história. Buscaremos tal intento por meio da consideração de que as noções de passado, presente e futuro se articulam numa narrativa em que memória e imaginário se entrecruzam, tanto para tecer a história quanto para tecer a ficção. A partir dessa constatação, avança-se para a hipótese de que subjaz na Amazônia forjada no pensamento colonial uma região sócio-ecológica em processo de descoberta.

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Wilson Nogueira

A chave da leitura de Viagem das Ideias (Editora Valer), de Renan Pinto, para uma reflexão sobre a história na Amazônia, caracteriza-se pelo ensinamento de que as ideias “possuem a capacidade de se impor como sistema de pensamento dominante”.

O que pensamos hoje – não só em relação à Amazônia, mas em relação ao mundo – deriva de ideias que, ao longo da história, se sobrepuseram a outras que foram desprezadas ou banidas das ações que dão sentido a convivência dos humanos consigo mesmos e com a natureza.

Esse modo de pensar e agir dominante, entretanto, não deu conta – e não dá sinais de que dará – de superar problemas como preconceito, intolerância e injustiça, engendrados desde a colonização da região, no século 16.

O principal problema em questão refere-se ao impasse entre a lógica do modo capitalista de produção, orientada pela produção e consumo em larga escala, e a lógica do modo de viver das populações que habitavam o Novo Mundo.

Consideramos, portanto, que, antes da colonização, feita por meio de sucessivas invasões, o chamado Novo Mundo era formado por civilizações que pensavam, agiam e significavam a suas existências de modos distintos aos dos invasores.

As populações amazônicas passaram – e ainda passam – por esse processo de banimento das suas Ideias , ações e relações com a natureza.

Esse é um ponto que não atinge somente o pós-colonial, mas, também, tempos anteriores a esse marco histórico, que disciplinas como a arqueologia, antropologia e história avançam na tarefa de interpretá-los por meio dos vestígios dessas civilizações. Voltaremos a esse tema em outro momento.

Antes de nos deslocarmos nossa análise para o âmago da obra, torna-se necessário apresentá-la estruturalmente.

Para isso, recorro ao prefácio do Professor Doutor José Aldemir de Oliveira (1954-2019), que a agrupa em quatro partes inter-relacionadas.

Na primeira, os ensaios têm como tema a discussão universal articulada à interpretação do novo mundo, do Ocidente versus Oriente, do eurocentrismo, tendo como base de análise autores como Hegel, Montaigne, Buffon e Montesquieu. Na segunda fase, são recuperados os relatos de Acña, La Condamine, Avé-Lallemant, Alfred Wallace, Louis e Elizabeth Agassiz. Na terceira, são analisadas as interpretações sobre a Amazônia contidas nas obras de Samuel Fritz, João Daniel, Alexandre Rodrigues Ferreira, Euclides da Cunha, Theodor Koch-Grünberg, em uma cartografia precisa do azimute da origem da interpretação da Amazônia. E, finalmente, na quarta parte, são discutidas as obras de autores que nasceram ou viveram na Amazônia, tais como: Araújo Lima, Eduardo Galvão, Djalma Batista, Artur Reis, que abordaram uma interpretação do lugar sem, contudo, se liberar das amarras do olhar a Amazônia de fora.

José Aldemir de Oliveira, em  Viagem das Ideias.

Acrescentaremos uma quinta parte, que é composta pelas inferências do autor na temática, para apresentar suas contribuições ao debate contemporâneo em torno de uma possível compreensão da Amazônia que considere a importância dos bens material e intelectual das suas populações tradicionais, principalmente os das sociedades indígenas.

De modo geral, Viagem das Ideias –, além de revisitar, criticamente, as pegadas das ideias que forjaram uma história e uma tradição de pensar, um imaginário e uma narrativa que deram existência e presença à Amazônia – para o Ocidente invasor-colonizador – é, também, um instigante roteiro de sugestões de pesquisa sobre e para o pensamento social amazônico.

A quinta parte, nesse caso, emerge do compartilhamento do leitor com o conjunto da obra, afinal, sobre ele recai a função de articular a obra no âmbito das suas necessidades e preocupações.

A título de ilustração destacamos os artigos Florestas culturais propõem novos paradigmas e O lugar da etnociências, como a contribuição inovadora de Freiras Pinto na busca de uma interpretação do tempo presente da Amazônia, com a qual pretende responder às demandas socioambientais não somente da região, mas do Planeta.

A abordagem de Freitas Pinto tem força de reflexão e ação porque não perde de vista a experiência das populações contemporâneas e ancestrais da região. Também retornaremos a esse tema mais adiante.

As reflexões de Pinto nos remetem ao reconhecimento de que o Novo Mundo é interpretado, pelos invasores-colonizadores, por um sistema de pensamento que inferioriza o Outro, para que esse se reafirme como superior.

Aliás, como bem ensina o autor, trata-se de uma prática que se arrasta desde o contato Ocidente versus Oriente no campo das ideias e práticas, quando o Ocidente se autodenomina condutor do chamado processo civilizatório.

Essa pretensão inferioriza, exotiza e subjuga os povos que se situam além e aquém das terras européias.

Ideologicamente, homens e mulheres não-europeus são considerados bárbaros e imaturos diante das necessidades do projeto de uma civilização pretensamente evoluída.

As narrativas de todos os gêneros – e mais intensamente a historiografia clássica – se imbuíram do propósito de cimentar os pressupostos de que o Ocidente precisaria ocidentalizar o mundo em razão da sua suposta superioridade cultural por ter desenvolvido valores como o Estado, a democracia, a burocracia, o capitalismo e o individualismo.

Esse status quo é reivindicado por pensadores modernos como Montesquieu, Rousseau, Hobbes, Hegel, Kant e Max Weber.  Freitas Pinto sublinha, todavia, que as noções duais civilização e barbárie também se localizam em pensadores da antiguidade, como em Aristóteles, defensor da tese de que povos derrotados em guerras deveriam ser escravizados.

Em torno desse princípio aristotélico travam polêmica Sepúlveda e Las Casas a respeito se a Espanha teria ou não o direito de escravizar as populações indígenas – ou se elas eram ou não inferiores aos conquistadores.

A defesa desses valores havia se assentado em ideias que se formaram no decorrer das conquistas culturais do Ocidente por via terrestre, depois através dos mares, desde o século 15.

As limitações tecnológicas e as condições desfavoráveis não impediram o avanço europeu ao redor do mundo.

O melhor exemplo disso é o Tratado de Tordesilhas, de 1494, pelo qual Espanha e Portugal, sob as bênçãos da Igreja Católica, se autoproclamam donos do resto do mundo apenas imaginado.

Parte das terras então fictícias, o Brasil configura-se uma conquista da Europa antes mesmo de ser tocado por membros dessa civilização.

Pode-se dizer que o Brasil se antecipa para a Europa como uma peça de ficção, com cenas e cenários emprestados da relação cultural entre os povos da Europa Ocidental e as civilizações do Oriente, principalmente da China e da Índia.

Esse tema é abordado em profundidade, no âmbito da literatura, em A invenção da Amazônia, de Neide Gondim.

Torna-se compreensível que o explorador europeu já trazia no seu juízo uma idéia preconcebida de que o Novo Mundo era habitado por populações imaturas – as quais deveriam passar por um processo evolutivo na direção dos patamares da cultura européia.

À arrogância e o preconceito misturam-se as fantasias da ganância por ouro e por fama, como bem ilustra possível motivação da viagem inaugural através do rio Amazonas por expedicionários espanhóis, entre 1541 e 1542.

Francisco Orellana teria se desgarrado da expedição organizada e comandada por Gonçalo Pizarro em busca de provisões, mas há, também, a versão de que ele se deixou levar pelas correntezas porque ambicionava a primazia de descobrir El Dorado, a cidade do ouro.

Não o encontrou. Em vez disso, segundo o seu escriba Carvajal, descobriu um rio que lhe deu acesso ao oceano, avistou e contatou com populações indígenas e travou combate com guerreiras amazonas.

As informações produzidas pela expedição Orellana fundaram as bases de ocupação territorial, material e simbólica da região Amazônica, cujo marco definitivo é a viagem do capitão português Pedro Teixeira, realizada no período de 1637 a 1639.

Entre Orellana e Pedro Teixeira se realizaram outras expedições[1] de reconhecimento do rio Amazonas e das suas riquezas, cujas narrativas passaram para a história como eventos de glória ou infortúnio.

Somam-se as narrativas vinculadas à exploração de minérios e drogas do sertão às relacionadas ao interesse científico e religioso, que, no geral, se imbricam porque ciência e religião integram o projeto de ocidentalização do resto do mundo.

Essas narrativas influenciam o pensamento leigo e o pensamento canonizado, que, por sua vez, reforçam representações ideais sobre a natureza e povos desconhecidos – deles –, para que a Europa realize seus empreendimentos políticos, econômicos e religiosos no Novo Mundo.

Não custa reafirmar que a noção preconceituosa sobre o Novo Mundo tem raiz na versão dominante de como o Ocidente europeu compreendeu o Oriente, desde antes da Era Cristã.

É exatamente sobre o embate das ideias que nos adverte Freitas Pinto, porque dele resultam os sistemas de ideias vencedoras e das ideias derrotadas – ou eclipsadas, como prefere o autor, para nos sugerir que a qualquer momento as derrotadas podem reaparecer, assim como reaparece a lua por inteiro após se livrar da sombra da Terra.

No confronto que se verificou em torno da organização sociopolítica do Novo Mundo prevaleceram as ideias de Hegel, cujo respeito e credibilidade científico-filosófica alcançam os dias atuais.

E Hegel, conforme Freitas Pinto, utiliza-se da interpretação de Buffon para fazer comentários sobre as terras americanas e sobre a Amazônia.

Buffon inscreve-se entre os eminentes formadores e disseminadores de ideias deterministas e preconceituosas a respeito do mundo que se realizava fora da Europa ocidental.

Buffon, portanto, caracteriza a Amazônia como um experimento da natureza ainda em formação, mas apresentando condições desfavoráveis ao desenvolvimento das formas de vida naturais e humanas. Essas ideias se propagaram e foram em alguma medida adotadas por autores até o presente e contribuindo para cimentar as ideias mais correntes do senso comum sobre a Amazônia. Concepções muito próximas, portanto, encontramos na forma pela qual Hegel, em seus famosos cursos em Filosofia da história universal, ,apresenta às regiões e povos do mundo, tendo como marco de identificação a noção de espírito da história. Em sua reflexão sobre a relação entre geografia e a civilização, apresenta uma crítica de alcance significativo ao determinismo geográfico, entretanto, sua referencia ao vale do Amazonas praticamente se limita, como também no que diz respeito a outras regiões do mundo a reproduzir argumentos, explicações e exemplificações extremamente próximas às de Buffon.

Freitas Pinto, em Viagem das Ideias;

As ideias de Hegel, sugere Freitas Pinto, encontraram condições favoráveis para se propagar – ou de viajar – pelo mundo como ideias legitimas e críveis, mas se torna necessário esclarecer que elas têm como base a realidade alemã, que fundamenta a sua provável superioridade histórica na gênese da questão Oriente versus Ocidente.

Para Hegel, a povos cujo grau de desenvolvimento encarna o espírito da história, assim como há povos desprovidos de história – o mesmo que dizer que há povos que não dão sentido às suas existências.

Hegel expressa uma preocupação sobre a qual se assenta a sua reflexão filosófica: a de que é do mundo germânico se origina de um movimento novo e fundamental da história moderna.

Tal preocupação, certamente, se desloca no âmbito da política para a formação de um sistema político que fundamenta as bases do Estado moderno.

O mundo germânico pode parecer um simples prolongamento do mundo romano. Entretanto, palpitava nele um espírito completamente novo pelo qual haveria de transformar-se o mundo: o espírito livre, que descansa sobre si mesmo, a obstinação absoluta da subjetividade. A diferença e oposição que nascem destes princípios são a da Igreja e do Estado. A história européia é o desenvolvimento de princípios em relação à Igreja e ao Estado. (Pinto, idem, p.36)

A ambição intelectual de Hegel o levou a refletir e a produzir nos campos do Direito, da Filosofia da História, da Estética e do Pensamento Social, tornando-o um dos pensadores que mais contribuiu para formar o sistema de pensar a modernidade.

Não seria exagero afirmar que o pensamento Ocidental moderno passa, necessariamente, pela reverência e referência do legado intelectual de Hegel.

Ele é sim, como bem sublinha Freitas Pinto, o símbolo do pensador que encontrou ventos favoráveis à disseminação das suas Ideias .

Pouco importaria, à essa altura, descobrirmos que elas formam um sistema de ideias que se impuseram como determinantes para compreensão da realidade sociopolítica e socioecológica do mundo contemporâneo.

Mas, para Freitas Pinto, desvendá-las é essencial para que essa trama tecida no tempo seja reconfigurada e recolocada em teste diante da realidade atual.

Hegel seria, portanto, o principal ideólogo do sentido da existência da modernidade.

De igual modo, tornou-se fundamental para o autor de Viagem das Ideias resgatar os pensamentos que não conseguiram, no seu impulso original, situação favorável para se propagar e se realizar.

Michel de Montaigne seria um dos pensadores que viram suas ideias eclipsadas desde os primeiros momentos de formação das bases do espírito iluminista.

Influenciado por Sócrates, Plantão, Aristóteles, Cícero e Sêneca, Montaigne usa a relação contraditória da Europa com do Mundo Novo para fazer comparações entre os valores culturais e morais de ambos; e por meio desse pretexto propõe suas ideias humanistas para a própria Europa.

Para ele, os povos do Novo Mundo são dignos de ser comparados com os da antiguidade, referindo-se aos valores morais que os últimos adotavam como necessário a uma sociedade saudável, como bondade, generosidade, lealdade e franqueza.

É de se lamentar que não tenham sido vencidos [impérios de Cuzco e México] por César ou Alexandre. Tão grandes transformações e mutações se houveram efetuado com doçura. Progressivamente fora desbravado o que neles havia de inculto; suas qualidades naturais teriam sido consolidadas e os conquistadores, introduzindo entre os vencidos seus conhecimentos acerca do cultivo da terra e das artes, lhes dariam também as virtudes gregas e romanas. Que progresso teria alcançado a sua civilização se com isso se houvesse estabelecido entre esses indígenas e nós um clima de fraternidade e simpatia! Ao contrário, só tivemos diante de deles exemplos de desregramento e abusos. Aproveitamo-nos de sua ignorância e inexperiência e lhes ensinamos a prática da traição, da luxúria, da avareza e os impelimos aos atos de crueldade e de inumanidade. Ter-se-á jamais perpetrado tanto crime em benefício do comércio? Quantas cidades arrasadas, quantos povos exterminados. Milhões de indivíduos trucidados , em tão bela e rica parte do mundo, e tudo por causa de um negócio de pérolas e pimenta! Miseráveis vitórias! Nunca a ambição incitou a tal ponto os homens a tão horríveis e revoltantes ações!

Montaigne, apud Freitas Pinto, em Viagem das Ideias

Seguem-se, em Montaigne, os bons exemplos transmitidos pelos bons selvagens, que poderiam muito bem ser imitado pelos europeus envolvidos com o culto à razão e a certeza científica.

Freitas Pinto acentua que as ideias de Montaigne são fundadoras do modo de pensar antropológico, porque ele relativiza a ação e o sentido da vivência do outro.

A essência dessa compreensão se localiza não interpretação da guerra e da antropofagia praticadas pelos índios Tipinambás, habitantes do litoral brasileiro.

Guerra e antropofagia entre os tupinambás expressavam, para Montaigne, um ritual cosmológica de renovação constante do ethos desse povo.

Em termos de barbaridade, a guerra e o canibalismo na sociedade Tupinambá seriam mais compreensíveis do que as guerras que se travavam na Europa por domínio de territórios, controle político e religioso.

Como assinala Montaigne, enquanto os europeus travam uma guerra religiosa, os Tupinambás praticam a religião da guerra.

O canibalismo é um dos inúmeros atos do ritual da guerra, talvez o mais importante porque é nele que não somente os guerreiros, mas toda a coletividade participa simbolicamente do embate.

O próprio prisioneiro sacrificado participa da recomposição do ethos do inimigo, porque em seu corpo habitam elementos espirituais que os animam à guerra, como a coragem e o desejo da mediação espiritual com os seus ancestrais.

Montaigne cita o canto de um prisioneiro, recorrendo ao relato de um informante nativo, seguido de comentário, que esteve com ele em França.

Que se aproxime todos com coragem e se juntem para comê-lo, em fazendo comerão seus pais e seus avós que já serviram de alimentos a ele próprio e deles seu corpo se constituiu. Estes músculos, esta carne, estas veias, diz-lhes, são vossas, pobres loucos. Não reconheceis a substância dos membros de vossos antepassados que, no entanto, ainda se encontram em mim? Haverá algo bárbaro nessa composição? Os que lhes descrevem o suplício e os representam no momento que são esbordoados, pintam-nos cuspindo no rosto dos que os trucidam em meio a caretas. E, com efeito, até exalarem o último suspiro não param de desafiar os inimigos tanto pelas atitudes como pelos propósitos. Por certo, em relação a nós são realmente selvagens, pois entre suas maneiras e as nossas há tão grande diferença que ou o são ou somos nós.

Montaigne, 2000, p.201).

Pinto nos apresenta Montaigne como um pensador eclético, que vive e pensa as circunstâncias do momento de formação do pensamento ocidental.

Nele reside um espírito que, antes da exaltação da razão e da certeza – para ele ainda frágeis –, valoriza a sabedoria da vida – uma sabedoria que se processa na relação dos seres humanos com eles mesmos, com a natureza e com as necessidades de harmonia entre ambos.

Tais ideias não teriam lugar naquele momento em que a massa de pensadores europeus se impunha como farol do mundo. A antropologia inaugural de Montaigne foi encandeada pelas luzes da certeza. Pinto analisa essa derrota:

[…] A posição antropológica que ele [Michel Montaigne] defende foi por muito tempo uma posição derrotada. Nesse sentido ainda, vale anotar que a representação que aí está esboçada em relação ao Novo Mundo é muito mais isenta de pré-noções e etnocentrismo do que a de uma série de pensadores que abordaram a questão da diferença entre povos, culturas e civilização entre os quais devem ser mencionados Montesquieu, Buffon e Hegel. A argumentação de Montaigne em favor do selvagem do continente americano não foi considerada por esses filósofos. A sua defesa da terra e do clima do Novo Mundo também parece não ter surtido grande efeito nos dois séculos seguintes. A antropologia de Montaigne também foi uma posição derrotada na medida em que ela estabelecida a necessidade de reconhecimento da diferença entre as sociedades e os povos que viviam em diferentes tempos e espaços.

Freitas Pinto, em Viagem das Ideias

Montaigne interpretou o Novo Mudo por meio de uma abordagem que rompia com o pensamento medieval, sobretudo dominado pelo pensamento religioso do papado.

Essa ruptura, no entanto, se dá por intermédio do resgate das ideias de filósofos gregos e romanos esquecidos ou condenados pela predominância do pensamento medieval.

Montaigne é de uma família burguesa em ascensão e ainda conta com os ventos favoráveis das reformas política e religiosa da sua época. Mesmo assim, suas ideias não caíram, totalmente, em terreno fértil.

Viagem das Ideias nos remete a outro autor, o jesuíta português João Daniel, autor do Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas (1722 -1776).

João Daniel esteve por longo período na Amazônia e, com base nessa experiência elaborou ideias tão impressionantes e revolucionárias quanto às de Montaigne, no contexto das épocas e espaços em que viveram.

Freitas Pinto apresenta-o como portador de conhecimento clássico e movido pelo desenvolvimento das técnicas e das ciências experimentais do Século 18.

Suas propostas para o desenvolvimento socioeconômico da Amazônia agregam as nascentes tecnologias européias e as tecnologias dos povos indígenas.

Mas, pelo que se depreende das suas propostas – e mais precisamente para a região sob influência do rio Amazonas – não se comparam, em resultado, ao processo de degradação da natureza e dos seres humanos que o empreendimento capitalista cometeu no decorrer dos séculos seguintes.

Primeiro, porque o rio Amazonas se constituía, para ele, no grande tesouro em razão de uma provável compatibilidade do uso racional das suas riquezas e a melhoria da qualidade de vida dos seus habitantes.

[…]O texto é de uma riqueza surpreendente, sobretudo, porque não estabelece uma fronteira entre ciência e imaginação, o real e o imaginário, isso sem comprometer o seu grande valor como inventário das riquezas da Amazônia e com um dos projetos políticos mais avançados que se registram no pensamento social produzido sobre a região, envolvendo uma reforma de padrões culturais, uma reforma agrária, uma reforma urbana e redefinições das relações entre Estado e sociedade, a partir da transição gradual do trabalho escravo para o trabalho livre e da modernização técnica da navegação, da construção das cidades com planejamento e do desenvolvimento da base agroindustrial existente.

Freitas Pinto,  em Viagem das Ideias

João Daniel, todavia, foi banido da Amazônia pelo poder pombalino, juntamente com os demais membros da sua ordem religiosa vinculada à Igreja Católica espanhola, e jogado numa prisão em Lisboa, onde passou o resto de sua vida.

Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas foi escrito em condição precária, somente com o auxilio da sua memória e dos seus companheiros de prisão.

Trata-se, como já assinalou Freitas Pinto, de um intelectual que, além de ter suas ideias derrotadas, ainda pagou com a privação da liberdade e com a própria vida a ousadia de contradizer ideias predominantes.

Não obstante, hoje há certo esforço acadêmico para recolocá-lo na história da formação do pensamento social amazônico, principalmente porque suas sugestões se antecipam às dos debates contemporâneos sobre o imperativo global de se adequar as necessidades humanas à sobrevivência do bioma amazônica.

São emblemáticas, por exemplo, sua compreensão da aclimatação dos não-nativos na região.

Sem qualquer exagero, recomenda aos que pensam em vir para a Amazônia que não tragam roupas, porque, nessa região, elas não são necessárias em razão do clima aprazível e da cultura dos nativos.

O informe de João Daniel baseia-se no costume dos índios de não usarem roupas no estilo europeu. Ainda sobre o tema ecológico, Freitas Pinto sublinha as ideias do jesuíta para a arquitetura e o urbanismo tropical:

Em sua obra está a primeira formação de uma arquitetura baseada no uso de madeiras locais disponíveis e de técnicas construtivas desenvolvidas pelas sociedades indígenas para produzir um padrão ecologicamente de edificações e habitações. João Daniel adverte àqueles que pretendem ocupar a região de que não é necessário uma preocupação maior com a moradia, pois devido à temperatura amena e o constante estado de primavera, a casa não necessita de materiais pesados e caros. Tudo pode ser resolvido com a utilização da combinação das várias madeiras e dos inúmeros tipos de palha que estão ao alcance da mão e em quantidade ilimitada, para que se construam habitações totalmente adequadas a uma vida sadia no clima tropical. Apesar de português, achava a casa indígena mais adequada do que as pesadas construção de estilo europeu.

Freitas Pinto,  em Viagem das Ideias.

 

Os pensadores citados são insuficientes para dar conta da diversidade das inteligências que estão na raiz da formação do pensamento social amazônico.

Porém, exemplificam o propósito deste artigo, que é expor, por meio da chave de leitura escolhida, a tese de que há ideias que se sobrepõe sobre outras, uma das muitas instigações intelectuais encontradas em Viagem das Ideias .

Metodologicamente, os mencionados são suficientes para que se estabeleça a comparação entre as ideias que prevaleceram e ainda prevalecem como orientadoras do pensamento regional.

Autores como Samuel Fritz, La Condamine, Alexandre Rodrigues Ferreira, Robert Ave-Lellamant, Louis e Elizabeth Agassiz, Alfred Wallace, Euclides da Cunha. Koch-Grünberg e Djalma Batista se inserem nesse intenso debate sobre a humanidade e a natureza nos trópicos e, consequentemente, tiveram suas ideias em consideração ou em desprezo – ou eclipsadas, como prefere Freitas Pinto –, as quais são colocadas à prova pela ação ou pela memória.

Suas ideias fazem, ao mesmo tempo, parte dessa cadeia de pensamentos que açula a condição humana desde que essa assim se reconheceu.

As pessoas – aqui, nos referimos principalmente os autores em questão – pensam e agem no contexto do tempo presente, sempre articulado com o passado e com o futuro.

Podemos inferir, então, que a Amazônia se constitui em representação das ideias predominantes desde os primeiros momentos em que foi invadida e colonizada.

Tais ideias atravessam épocas porque se transformam em narrativas, mais precisamente em narrativas escritas.

Assim, elas podem ser realizadas ou desprezadas, porém, em razão da sua duração, sempre com potencial de ser acionadas, revistas ou reconfiguradas. É por isso que Freitas Pinto fala em pensamentos ou ideias eclipsadas.

Ao fazer esse exercício em Viagem das ideias, por meio da narrativa sociológica, ele comprime tempos e espaços. Ideias do passado e do presente se juntam harmônica ou contraditoriamente, para se articular com o presente e com as perspectivas – essas que vislumbram o futuro.

No âmbito da perspectiva, Freitas Pinto propõem uma nova abordagem acerca da relação humanidade e natureza na Amazônia.

Uma abordagem que leve em conta ideias eclipsada, uma revisão profunda dos conceitos sobre os quais se tem pensado a resolução dos problemas da Amazônia, e os saberes das populações tradicionais amazônicas.

O autor considera fundamental a contribuição da ciência positiva da natureza, como a classificação das plantas, dos animais e da medicina, mas vislumbra a Amazônia como o lugar das etnociências.

Um melhor e mais difundido conhecimento sobre o avanço das etnociências e daquelas instituições e grupos de pesquisa que atuam no campo do meio ambiente vai nos ajudar a conhecer o quadro atualizado desenvolvido em áreas etnobotânica, etnofarmacologia, etnoentomologia etc., revelando, de um lado, sua riqueza, e de outro, nossa grande ignorância e indiferença diante do patrimônio cultural da Amazônia (Pinto, idem, p. 143).

Essa nova postura decorreria da mudança na forma de pensar e interpretar a Amazônia, hoje amarrada em conceitos que não compreendem, satisfatoriamente, a relação entre diversidade natural e diversidade cultural.

Ainda hoje, argumenta o sociólogo, prevalecem os paradigmas de que os sistemas florestais amazônicos são homogêneos e hostis às civilizações modernas e ao progresso humano.

Do mesmo modo, mantêm-se presentes as ideias da debilidade da natureza e dos índios para produzir tecnologias e se organizar social e politicamente.

Nesse tipo de postura se encontram os DNAs de Aristóteles, Montesquieu, Buffon, Hegel, Alexandre Ferreira Rodrigues e outros, conforme está sustentado por toda extensão de Viagem das ideias.

Freitas Pinto propõe que a Amazônia seja pensada por meio do conceito de floresta cultural, que inverterá a lógica que domina hoje o pensamento social amazônico.

Isso implica, segundo ele, em reconhecer, por meio das experiências, objetos e instrumentos da etnociência, a busca das interações entre as populações indígenas e o meio natural em seu sentido mais efetivo.

Ao adotarmos o conceito de floresta cultural, ou seja, ao admitirmos que os diferentes sistemas florestais existentes na Amazônia teriam se desenvolvido através de diferentes formas de intervenção humana que explicariam, não apenas a presença e a distribuição de determinadas espécies em territórios ocupados no passado e no presente por populações humanas,  mas que devem ser recuperados de modo sistemáticos – tal como tem sido feito por um número significativo de estudiosos – os grandes e diversificados acervos de conhecimento de etnobotância, etnozooloogia, ,etnofarmacologia e etnohistória, que correspondem ao patrimônio cultural dos povos indígenas. Reconhecer esse patrimônio implica numa mudança radical nas relações da sociedade nacional com os povos indígenas no sentido de reconhecê-los como fundamentais para a garantia da pluralidade cultural que está no destino da Amazônia, assim como através de seus conhecimentos. Esse parece ser o caminho que só aos poucos está sendo revelado de forma exaustiva e sistemática. Esse parece ser o caminho para encontrarmos os meios necessários para propormos novos modos de relação entre a diversidade social e cultural e as características intrínsecas das biodiversidades que essas etnociências estão ajudando a conhecer. Freitas Pinto, em Viagem das Ideias.

As perspectivas de Pinto se assentam nas pesquisas reveladoras de que as sociedades indígenas, desde a era pré-colombiana, dominavam tecnologias manejo da natureza e possuíam organizações sociais complexas.

Incluem-se nesse rol de descobertas, o fato de se considerar hoje que ao menos 60% da floresta amazônica foram manejados por civilizações pré-colombianas.

De igual modo, descobre-se que esses povos construíam aquedutos para se abastecer e irrigar plantações ou mesmo se protegiam dos inimigos cercando seus territórios com gigantescas valas.

Outro exemplo do legado ancestral indígena se refere às plantas medicinais, cujo direito à propriedade intelectual das comunidades tradicionais é negado pelo Estado.

Ao se reportar às etnociências, Freitas Pinto faz emergir conhecimentos que não se encontram, originalmente, nos quadros dos sistemas das ideias preponderantes, derrotadas ou eclipsadas.

Tratam-se de conhecimentos que se perderam com o fim das civilizações que os desenvolveram, como parece ser o caso das civilizações pré-colombianas.

Essas ideias e conhecimentos não foram derrotadas nem eclipsadas, porque, provavelmente, antes mesmo da invenção do Novo Mundo elas só existiam em vestígios ainda não decifrados.

Essa opinião se sustenta na premissa de que Freitas Pinto aborda narrativas escritas de intelectuais que pensaram a Amazônia baseada em documentos ou informações de toda ordem e que obtidas em condições limitadas pelas técnicas de cada época.

Os textos de Montaigne, ainda que relativizem as ideias da antiguidade clássica, as do tempo e do espaço em que ele viveu, no caso os da Europa, em relação às ideias e ações dos indígenas americanos, não poderiam atingir tempos e civilizações cujos vestígios não haviam sido localizados e decifrados.

Freitas Pinto, portanto, não só traça a trajetória – e a não-trajetória – das ideias que formaram o pensamento amazônico, mas, sobretudo, elabora narrativa que, na perspectiva agostiniana, apresentada por Ricoeur, que se tece na necessidade do caráter relacional do ser humano, um ser aberto às coisas passadas, às coisas futuras unificada na situação presente da pessoa.

Viagem das Ideias possui a força da memória e da imaginação, ingredientes indispensáveis a uma narrativa consistente, seja ela histórica ou ficcional.

Esperamos, por fim, que tenha ficado claro que, além da Amazônia inventada pelo imaginário e história dos europeus, existem outras por serem descobertas e compreendidas, como a Amazônia pré-colombiana, provavelmente habitada por civilizações que deixaram um inestimável legado para a humanidade.

Legado que se esvaia na medida da destruição do solo, dos rios, da floresta e das populações tradicionais. É também sobre esse tema que Freitas Pinto nos clama a atenção.

 

Referencias bibliográficas

GONDIN, Neide. A invenção da Amazônia. Marco Zero. São Paulo, 1994; HEGEL, Georg Wilhelm. Filosofia da História. UnB. Distrito Federal, 1995. MONTAIGNE, Michel de. Ensaios, Vol. II. Nova Cultural. Rio de Janeiro. São Paulo, 2000.PINTO, Renan Freitas. Viagem das Ideias . Valer. Manaus, 2006. RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa, Vol.I. Papirus. Campinas (SP), 1994.   .

 

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