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Eles não são idiotas: contribuição para o debate sobre Jornalismo e democracia [Por José Rosha*)

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Engana-se quem supõe que o presidente da República e seus principais colaboradores no Governo são pessoas despreparadas ou que as bobagens que eles diariamente verbalizam – e que pautam a grande imprensa – são incoerências próprias de quem não tem condições de governar.

A ignorância e a força são os pilares de um plano minuciosamente elaborado para transformar o Brasil em um estado fascista.

Os sinais de alerta para a subversão da ordem democrática começaram a surgir, no Brasil, logo depois dos eventos conhecidos como a Primavera árabe, em 2011, em pleno governo do democrata Barack Obama, nos Estados Unidos.

Brasil e Venezuela, na América do Sul, tornaram-se as primeiras nações onde grupos de direita e extrema-direita passaram a impulsionar as revoluções coloridas que afetariam, mais recentemente, a Bolívia e se voltariam também para Nicarágua e Honduras, na América Central.

O objetivo desse movimento era justamente dar uma aparência democrática à destruição das democracias que começavam a se firmar depois de sucessivos golpes e ditaduras militares que se sustentaram até meados dos anos 80 no continente.

A partir de 2013, patriotas com camisa verde e amarela da seleção de futebol tomavam as ruas demonizando o governo do PT e pedindo a volta dos militares alegando indignação com os escândalos de corrupção.

No subterrâneo das mídias sociais o preconceito contra negros, LGBT, indígenas e pobres de um modo geral, vai ganhando terreno em mentes atordoadas com a avalanche de (des)informações vindas de todos os lados como se fossem verdades inquestionáveis.

Nas televisões, nos jornais e revistas, nas mídias sociais, igrejas e até em redutos tradicionais das esquerdas – como os sindicatos – proliferam redes de contra-informação.

Notícias e comentários de pessoas famosas que viralizaram até o momento das eleições de 2018 davam conta de que:

1) é bom ser presidiário no Brasil: tem comida, não paga aluguel e ainda ganha um salário maior do que o salário mínimo;

2) as famílias pobres estão gerando mais filhos para ganhar mais com o bolsa família. Esse programa só serve para alimentar a preguiça das pessoas;

3) “bandido bom é bandido morto. Direitos Humanos só serve para defender bandidos.

A lista de exemplos dessa natureza é extensa!

Os comentários acima se tornaram correntes num cenário de explosão da violência urbana ao mesmo tempo em que a desigualdade econômica se aprofunda e a riqueza vai ficando cada vez mais concentrada nas mãos daqueles um por cento da sociedade que há décadas já detém cerca da metade de toda riqueza produzida no Brasil.

Pesquisa feita pelo IBGE em 2019 aponta que os 1% mais ricos tem rendimento 33,8 vezes a mais que o ganho dos 50% mais pobres.

Da ignorância à força

O processo de desconstrução da democracia começa muito antes das eleições de 2018 e vai ganhando força à medida que avança o discurso que interessa aos empresários de todos os setores: “é preciso diminuir o tamanho do estado”, dizem eles.

Os grandes meios de comunicação ostensivamente repetem essa ladainha que tem como fundo a redução da carga tributária, dos encargos sociais e, principalmente, os direitos trabalhistas.

No mesmo passo em que o desmonte do estado acontece é necessário alimentar a ideia entre os próprios trabalhadores de que seus direitos – assegurados em Lei há mais de 70 anos – atrapalham seu crescimento pessoal e afetam a economia.

Portanto, é preciso acabar com os direitos para fazer a economia crescer.

Ao mesmo tempo, disseminam que sindicatos não servem para os trabalhadores porque tiram dinheiro do pouco que ganham.

Então, não há reação contra a aprovação da terceirização em todas as etapas de produção, contra a aprovação da extinção de direitos e contra a reforma da previdência porque, na justificativa para esta medida, “é necessário acabar com os privilégios” e que a “geração que trabalha hoje é quem paga as aposentadorias de que já não trabalha mais”.

Para que as mudanças aconteçam é importante que a população acredite que elas vão dar certo.

Não interessa mais discutir corrupção – o mote das mobilizações que pediam a volta da ditadura.

O objetivo passa a ser desviar a atenção da população para a entrega das riquezas e do patrimônio nacional para corporações estrangeiras.

Nas redes sociais os temas em foco são: a terra é plana, aquecimento global é coisa de comunista, holandeses masturbam crianças ou universidades públicas (e só as públicas) são antro de orgias sexuais e consumo de drogas.

 Se, para parte considerável da população, essas ideias importam mais do que a solução para a crise econômica, geração de emprego ou o combate à concentração da riqueza, para aqueles  que resistem e exigem  o cumprimento das regras do jogo – neste caso,  as regras do estado democrático de direito – a resposta é o uso da força, ora por agentes do estado, ora por ação de grupos com características de milícias oxigenados pelo vácuo de políticas públicas. Daí o resultado dos ataques ao Waiapi, no Amapá, dos assassinatos dos Guajajara, no Maranhão, da execução de Marielle Franco e de ambientalistas na Amazônia.

Os pronunciamentos do presidente da República e seus colaboradores, portanto, não têm nada de ingênuo ou de idiotice.

É dessa forma que eles se comunicam com seu público – uma parcela da sociedade que ainda dá mais de 30 por cento de aprovação ao atual governo, segundo pesquisas recentes.

É um percentual significativo que mostra o poder de inserção do atual governo que, ainda segundo as pesquisas, favoreceria a reeleição do atual presidente.

O ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva foi muito claro ao observar que “um idiota não chega à Presidência da República”.

Antes de ser desalentador esse cenário é bastante desafiador para todos os segmentos da sociedade que primam pela ordem democrática.

Primeiro, porque ainda que não seja um regime perfeito, a democracia permite o embate das ideias, das divergências, da busca por saídas que fortaleçam os valores conquistados pela civilização.

A maioria dos regimes autoritários tem vida mais curta, conforme podemos observar ao longo da História, porém as sequelas se arrastam por muitas gerações.

*O autor é jornalista

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