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A invenção da Amazônia segundo Neide Gondim [Por Dassuem Nogueira]

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Dassuem Nogueira*

Neide Gondim faz parte da primeira geração de pensadores semeados na Universidade Federal do Amazonas(Ufam) empenhados no esforço de pensar a Amazônia em um movimento inverso do que, costumeiramente, é feito, ou seja, de dentro para fora.

A obra faz o exercício de pensar sobre o que pensavam aqueles europeus que chegaram até a Amazônia pela primeira vez no século 16. Esses conquistadores ganharam a vez de contar a história e o fizeram do ponto de vista de onde partiram: a Europa.

Neide Gondim reconstrói brilhantemente os caminhos desse pensamento que veio a fundar uma tradição estética sobre a Amazônia, onde predomina o paradoxal, o hiperbólico, o contraditório, o infernal e o paradisíaco.

A autora redesenha o pensamento europeu dos homens que se atiraram ao mar em busca de comprovar as teorias que especulavam sobre o mundo medieval que, naquele momento, mudava de forma, antes quadrado, depois redondo.

Ela identifica em sua bagagem duas lupas iluminadas pelo imaginário fantástico: as escrituras bíblicas e o oriente conhecido por meio de livros e relatos de viagens.

Aliás, é por meio dessa literatura, que serve até hoje de documento histórico, que Neide Gondim vai trançando as imagens que se projetaram sobre o país das Amazonas nas Américas e, desse modo, descortina como o desconhecido foi familiarizado nas representações europeias sobre a região que hoje conhecemos como Amazônia.

Destas imagens, sobretudo as que vieram da Índia, impressionaram os europeus: a religião politeísta, o vegetarianismo, as estátuas gigantescas e antropozoomorfas, o ouro, as pedras preciosas.

Toda a cultura diversa do Oriente que chegou até a Europa, por meio de livros e relatos de viagens, seguiu se popularizando em relatos orais e encenações em praça pública, ganhando a cada versão mais status de verdade histórica. Todas elas serviram de luz ao que a gente europeia encontrou no Novo Mundo.

A autora identifica uma obsessão do europeu medieval: encontrar o paraíso sobre a terra, longe da fome e da peste que assolavam a Europa medieval.

Desejavam comprovar que tudo aquilo contido nas escrituras sagradas eram a única verdade. Mas do mesmo modo, podiam deparar-se com o inferno, povoado por seres que não se assemelhavam ao Deus branco do qual o europeu era a imagem e semelhança, talvez fosse o demônio parecido com aquelas estátuas indianas.

Essa dualidade cristã que perturbou o europeu das navegações perdura até hoje nas descrições sobre a Amazônia, quase sempre representada como inferno ou paraíso.

Quando os europeus se aventuram mais adentro das Américas, pensaram ser o grande rio, um mar de águas doces. Nele buscaram encontrar toda riqueza e exuberância fantástica da Índia e as guerreiras Amazonas cuja imagem carregavam consigo desde a forte influência da Grécia Antiga.

O primeiro relato data de 1542, do cronista Carvajal que acompanhava Francisco Orelana na primeira descida pelo rio, vindo do Peru em direção ao Atlântico. Neide Gondim identifica as mesmas imagens e recursos utilizados por Marco Polo sobre o Oriente nas descrições de Carvajal sobre a viagem pelo grande rio.

Marco Polo historiciza e demarca no Oriente lugares e histórias fantásticas, sempre endossadas pela autoridade de que ele mesmo ou outra pessoa com quem tivesse estado pudesse atestar.

Desse modo, em seu relato está definido onde estão os descendentes diretos de Adão, a fonte da juventude, o rio que nasce no paraíso carregado de ouro, a cidade de ouro, gigantes, bestas, sereias.

Carvajal faz o mesmo. Ele afirma ter guerreado com as Amazonas, tendo abatido quatro delas; dá localização ao Rio de Ouro que levava até Manoa, a capital  de ouro das Amazonas; dá nome aos índios que relataram a modo de vida das índias guerreiras. Ao mesmo tempo em que descreve o curso dos rios com precisão de navegação.

Depois de Carvajal, jamais outro viajante encontrou as Amazonas. Todos, até o naturalista La Condamine, vestido de todo o pensamento cartesiano francês de sua época e lugar, tentaram encontrá-las, explicar o rastro dos amuletos de pedra verde, os muiraquitãs.

É o imaginário dessa busca que dá nome ao grande rio, o rio das Amazonas. Todos que navegaram sobre ele se referiram àquelas descrições anteriores que, como as de Marco Polo, eram localizadas e testemunhadas. Sem, contudo, nunca mais encontra-las.

Os humanos mais diferentes que os europeus conheciam eram os do Oriente: os persas, os árabes, os chineses e os indianos. Eram considerados bárbaros, visto que eram diferentes da humanidade cultivada na Europa, mas eram tidos como humanos. Por isso, nada foi tão impactante ao imaginário europeu, extremamente supersticioso com o catolicismo medieval, que o encontro com as gentes das Américas.

Nos Incas, Maias e Astecas e sua arquitetura impressionante, nos indígenas que usavam roupas, os europeus conseguiam reconhecer a humanidade na qual se viam de alguma forma.

Mas não se reconheciam nos indígenas desnudos e canibais. Explicar sua existência enquanto animalidade ou humanidade, degenerada ou evoluída, foi, a partir de então, uma das forças que moveu a ciência e o imaginário europeus.

Muitas teorias floresceram durante os séculos seguintes na tentativa de explicar toda a novidade encontrada nas Américas. O evolucionismo de Darwin colocou as gentes da Amazônia na primeira idade evolutiva da humanidade, e a Amazônia seria como um grande museu natural onde era possível ver como tiveram sido os europeus no passado.

O determinismo físico de Buffon afirmava que estas gentes não conseguiram evoluir em consequência do clima quente, impróprio que eram os trópicos para a evolução da humanidade.

Montaigne via na ausência do rei, a evolução paradisíaca para onde o europeu tinha que seguir.

Locke via na ausência do Estado a causa da degeneração daquelas gentes.

Tais ideias se difundiram no mundo por meio da ciência, da filosofia, das letras. Aparecem claramente nas obras mais fartamente analisadas por Neide Gondim: A jangada, de Júlio Verne; O mundo perdido, de Conan Doyle;  a Árvore que chora, de Vick Baum.

A autora resenha esses livros a fim de destacar neles os mesmos traços fantásticos, revestidos agora de verdade científica, utilizando-se do mesmo argumento de autoridade autoral.

Tais ideias estigmatizaram para sempre as gentes da Amazônia como primitivos, incapazes de desenvolver-se plenamente em consequência do forte calor, como preguiçosos e indolentes, infantis e bestializados.

Estigmatizou a floresta como uma entidade fantástica a tal ponto de parecer ser a Amazônia mais distante e desconhecida do que a lua no imaginário mundial.

Refletem na representação ainda hoje difundida e consolidada pelo sistema capitalista, segundo a qual, a Amazônia premiaria com riqueza aqueles que sobre ela trabalharem, ao contrário do que não fizeram os indígenas.

Para Neide Gondim todos, de alguma forma, foram seduzidos pelo Eldorado. A representação hiperbolizada da Amazônia é uma tentação da qual quase ninguém escapa. Para a autora, essa representação edênica da natureza vem seguindo um efeito cascata que começou no imaginário medieval sobre o incompreensível Oriente e desconhecida América.

Talvez mais que a própria Amazônia, o que realmente impressiona seja a representação desse encontro/confronto. Esse imaginário fantástico universal impressionou todas as mentes, dos que passaram pela Amazônia e dos que dela só ouviram falar.

Toda essa trança imaginária é apresentada com muita leveza e habilidade pela autora, ela ilustra sua argumentação com trechos dos livros e relatos que se mostram reveladores da invenção imaginária do que seja a Amazônia, nos dando a dupla satisfação de ler literatura e ciência.

*A autora é MSC em Antropologia Social (Ufam) e Doutoranda em Antropologia Social (UFSC)

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