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Que tempo é este?* – Estudo sobre o Amazonas narrado em ciclos [Selda Vale da Costa**]

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Este trabalho é uma tentativa de dar conta de uma inquietação que surgiu quando da elaboração da pesquisa sobre a expressão cinematográfica no Amazonas, objetivo de minha dissertação de mestrado, ao analisar os acontecimentos que constituem a história de uma época na Amazônia denominada “ciclo da borracha”.

Os problemas começaram logo com a própria denominação, já consagrada, desse período histórico: ciclo da borracha.

A noção de ciclo como categoria de explicação das relações sociais de produção de uma determinada sociedade em um determinado tempo histórico vem merecendo críticas severas dos cientistas sociais.

O ciclo do pau-brasil, do açúcar, do ouro, do café etc., assim como o ciclo das drogas do sertão, da borracha, o da Zona Franca de Manaus são hoje objeto de novos enfoques teóricos.

Mas, apesar do tudo, continuamos a nos referir a momentos e conjunturas particulares como períodos, ciclos. Simples questão de hábito intelectual-acadêmico (periodização histórica) ou persistência de uma noção de tempo cíclico em detrimento de uma concepção histórica, linear, progressiva do tempo?

O significado cultural e filosófico do ciclo da borracha, como o redescoberto paraíso perdido, o encontro do decantado eldorado, o Éden de onde viria o maná para saciar a sede do mundo mercantil de então, leva à ideia de que a região retorna a um tempo passado, de resplendor e glorias.

O auge da economia extrativista cria a belle-époque da borracha e recria o sonho do retorno à idade de ouro, sonho, magia, encanto, milagre. O assombroso, o divino maravilhoso. O tempo histórico suspenso? O mito vivo no presente! O presente, uma recriação do tempo mítico?

Após o fausto, a queda. Como as elites representam para si mesmas esse momento histórico? A que valores e imagens foram se apegar para dar sentido à sua existência?

A princípio, pode-se captar um sentimento de “não-ver” a realidade, uma recusa a aceitar o dado real: o sonho havia acabando…

Parece que se vivia em dois tempos, o histórico, que flui, irreversível, evidenciando a decadência, e outro, o do passado recente, glorioso, na mente e nos comportamentos de seus habitantes, na várias atividades artísticas, nas constantes reformas e reinaugurações de casa espetáculos com as sintomáticas denominações de Alcazar, Palácio do Sol, Phenix, Paris no Amazonas, Alambra, Teatro Apolo…

A incapacidade de planejar o futuro é clara. Tentativas são ensaiadas, propostas enchem jornais e mesas dos governantes, mas a situação não se altera porque continuam a pensar em recuperar o tempo glorioso do fausto.

O olhar não é para o futuro, mas para o passado. E, contudo, a cidade divertia-se a valer!

Ao realizar, dez anos depois, outra pesquisa, agora para meu doutoramento, as mesmas questões apresentam-se nos discursos político e nos projetos socioculturais dos homens das décadas de 1940 a 1960.

Que significado tem esse duplo existir, essa esquizofrenia social? Passado e presente se mesclam numa angústia sufocante, impossibilitando visualizar o futuro.

Este, não está à frente, mas atrás, no retorno, retorno que não se expressa pela reprodução dos acontecimentos do passado, mas pela manutenção, no imaginário, do sonho que embalou e alimentou a sociedade do falso e da riqueza.

O presente é uma perpetuação do passado, revestido de nova roupagem. A dependência econômica aos interesses estrangeiros, ingleses particularmente, parece não dar conta explicativa do impasse.

Gourevitch afirma que o tempo é um componente importante da consciência humanas. O tempo refletia a prática social, a cadência da evolução social, que dependeria dos ciclos de produção que lhe são adaptados.

Nessa linha de raciocínio, poderíamos, então, afirmar que na sociedade amazonense, uma economia extrativista, sociedade por excelência de consumo, predominaria a noção de tempo cíclico (próprio das sociedades arcaicas) sobre a nação de tempo linear, progressivo, irreversível (próprio das sociedades modernas)?

Em debate, portanto, a noção de tempo. Como ela é elaborada e vivenciada nas sociedades?

Que significado tem o tempo linear para as sociedades cujas relações sociais não são completamente capitalistas?

Por que o sonho do passado é um componente alimentador das consciências de algumas sociedades?

Para pensar essas e outras questões, escolhi três autores que se dedicam ao estudo do tempo: Mircea Eliade, Edmund Leach e A.Y. Gourevitch.

Entretanto, a leitura de suas obras não esgota a análise nem a conclui. O significado do tempo filosófica e antropologicamente é uma questão ainda em aberto.

O que procurei foi encontrar pistas para avançar na busca não do tempo perdido, mas na compreensão do significado das interpretações de uma sociedade que ainda hoje vem produzindo manifestação semelhantes.

A revolta das sociedades contra o tempo histórico

Em O mito do eterno retorno (1945), Eliade propõe uma reflexão sobre os significados do tempo nas sociedades primitivas, nas sociedades arcaicas, tradicionais, pré-modernas (o mundo “primitivo” e as antigas culturas da Ásia, da Europa e da América) e nas sociedades modernas, buscando demonstrar “como e porque razão uma coisa se torna real para o homem das sociedades pré-moderna” (ELIADE,1981, p.19).

Nas sociedades arcaicas, o mundo torna-se real, isto é, possui um significado e um valor, quando e porque participa de uma realidade que o transcende.

As ações concretas num determinado momento da história dessas sociedades são, em si mesmas e naquele presente, destituídas de significado e valor se não referidas a esse tempo primordial, se não vistas como repetições e recriações de ações, gestos e objetos já existentes in illo tempore. “A realidade é, então, função da imitação de um arquétipo celeste” (ELIADE,1981, p. 20).

Para a mentalidade arcaica, a realidade se manifesta como força, eficácia e duração.

Por isso, “o real por excelência é o sagrado; porque só o sagrado o é de uma maneira absoluta, age eficazmente e faz durar as cosias” (ALIADE,1981, p. 26).

Assim, as ações dos homens, nessas sociedades são orientadas, através dos rituais, por modelos divinos, por um arquétipo e se tornam sagradas.

Tudo é sagrado: danças, guerras, conflitos, construções, as doenças e as curas, justiça e injustiça, objetos, alimentos.

Toda a atividade responsável com uma finalidade definida é, para o mundo arcaico, um ritual.

Em síntese, a concepção ontológica “primitiva” pode ser assim expressa: “Um objeto ou uma ação só se tornam reais na medida em que imitam ou repetem um arquétipo.

Assim, a realidade só é atingida pela repetição ou pela participação: tudo o que não possui um modelo exemplar é desprovido de sentido, isto é, não possui um modelo exemplar é desprovido de sentindo, isto é, não possui realidade” (ELIADE,1981, p. 49).

O tempo, como nós hoje o concebemos e vivenciamos – tempo real, a História – não existe nessas sociedades, ele é abolido pela imitação dos arquétipos e pela repetição dos gestos paradigmáticos.

O homem vive, por meio dos rituais, um tempo real que é o tempo mítico; o tempo profano é desprovido de significado.

Através dos rituais, o homem abole esse tempo, projetando-se e participando do tempo mítico.

Assim, esse homem que ritualiza seu presente, a intervalos essenciais e constantes, torna-se ele mesmo um arquétipo através da repetição dos gestos, das atividades que foram vivenciados em illo tempore, no tempo mítico, e isso lhe confere, e a todos os seus atos, uma realidade.

Os acontecimentos reais são aceitos porque se os interpreta à luz dos mitos cosmogônicos.

Assim, através dos rituais, o homem dessas sociedades faz os “cortes do tempo”, isto é, anula a “História”, foge do tempo contemporâneo e dá sentido a toda a sua existência.

Essa intervalação do tempo, esses “cortes” criam os períodos marcados pelas repetições de gestos e atos simbólicos exemplares, necessários à renovação da vida e sua continuidade.

Essa “renovação periódica do tempo pressupõe, de modo mais ou menos explicito, e, em particular, nas civilizações históricas, uma nova Criação, ou seja, uma repetição do alto cosmogônico. E esta concepção de uma criação periódica, isto é, da renovação cíclica do tempo, coloca a questão da abolição da História” (ELIADE,1981, 67).

Temos, então, para Eliade, as duas concepções de tempo:

1) nas sociedades primitivas, arcaicas, tradicionais, predomina a noção do tempo cíclico, da ondulação cíclica: repetições, recriações, regenerações periódicas ad infinitum – retorno às origens.

As sociedades primitivas vivem, pois, uma revolta contra o tempo concreto, histórico; manifestam, através de seus rituais, um “horror à História”, consequentemente, vivem na nostalgia de um regresso periódico às origens, à Idade do Ouro.

2) nas sociedades modernas predomina a concepção do tempo linear, a ideia de progresso, de evolução, de História. O tempo é irreversível, é um tempo-acabado, um tempo histórico.

Eliade faz duas observações importantes:

Primeira, porque as sociedades arcaicas não são capazes elas também de se manter eternamente no “paraíso dos arquétipos”, sua memória acaba por descobrir a irreversibilidade dos acontecimentos, acaba por registrar a “Historia”, pois “mesmo nas sociedade mais simples, a memória ´histórica`, isto é, a memória dos acontecimentos que não provêm de nenhum arquétipo, dos acontecimentos ‘pessoais’ é insuportável” (ELIADE,1981, p. 90).

Daí a necessidade de renovações periódicas do tempo, criando novas eras, novos ciclos, através de rituais e de outros métodos, visando suspender a passagem do tempo profano, abolir a “História” e dar sentido à vida.

Segunda, que as sociedades históricas e as sociedades modernas também não conseguirem desvencilhar-se completamente da necessidade de abolir a “História”. Vivem ainda hoje na perspectiva tradicional: anti-historicista.

Para poderem aceitar a história, essas sociedades interpretam os acontecimentos contemporâneos à luz dos mitos cosmogônicos, do modelo atemporal do mito heroicos.

Isso tanto os povos da antiguidade como as mais modernas sociedades, principalmente as sociedades agrárias e economicamente dependentes.

As populações dessas sociedades tendem a mitificar os acontecimentos históricos, os atos pessoais e a referi-los a modelos míticos-heroicos.

Eliade, então, procura comprovar e chegar à conclusão de que todas as sociedades tentam anular a História; que hoje, como nos tempos antigos, as sociedades necessitam suspender o tempo real, histórico, através de vários mecanismo, não apenas dos mitos, para poderem suportar o peso sufocante, angustiante e desesperador dos acontecimentos cotidianos.

Indaga Eliade se o caráter a-histórico da memória popular, a importância que a memória coletiva manifesta em reter os acontecimentos e as individualidade históricas – a não ser na medida em que as transforma em arquétipo, isto é, na medida em que anula as particularidades “históricas” e “pessoais” –, não revelaria “algo mais que a resistência da espiritualidade tradicional para com a história?” (ELIADE, 1981, p.59).

Não revelaria o “caráter secundário da individualidade humana como tal, individualidade cuja espontaneamente criadora constituir, em última análise, a autenticidade e a irreversibilidade da história? (ELIADE, 1981, p. 61).

Segundo Eliade, o homem moderno “preso”, sugestionado pela história, sente-se diminuindo; esmagado pelos acontecimentos sente que perde sua propriedade significância, sua individualidade.

Daí a busca, através da mitificação dos acontecimentos contemporâneos, dessa identificação com um modelo exemplar que lhe restaure a confiança, a crença e a esperança em si mesmo e no mundo que rodeia.

Em outra obra, Eliade assegura que mesmo no mundo industrializado moderno, “alguns comportamentos ‘míticos’ sobrevivem sob os nossos olhos. Não que se trate de ‘sobrevivências’ de uma mentalidade arcaica. Mas, alguns aspectos e funções do pensamento míticos são constituintes do ser humano” [ELIADE, p. 156-57], e por isso eles permanecem.

O mundo moderno não foi ainda conquistado pela teoria “historicista”; “assiste-se mesmo ao conflito entre duas concepções: a concepção arcaica, arquétipa e anti-histórica e a moderna, pós-hegeliana, que se quer histórica” (ELIADE, 1981, p. 154).

Afirma ele que a perspectiva historicista, ou mesmo a marxista, tem que criar soluções ao homem moderno para que ele aceite a pressão cada vez mais forte da histórica contemporânea.

Após apresentar cronologicamente as várias concepções de tempo nas sociedades humanas – a concepção cíclica, arquétipa, anti-histórica dos povos arcaicos; as teorias cíclicas e astrais dos povos antigos; a concepção cristã, linear e histórica (o tempo é real porque tem um sentido: a Redenção)

Mesclada, na Idade média, com a concepção escatológica, que por sua vez se completa com a teoria da ondulação cíclica; até chegar à teoria do progresso linear, histórica, a partir do século 17, que instaura a crença em um progresso infinito, dominante no século das “Luzes” e vulgarizada no século 19 pelo triunfo das ideias evolucionistas – Eliade afirma que no século 20 começam a aparecer certas reações contra a linearidade histórica e volta a despontar um certo interesse pela teoria dos ciclos, na economia política e na filosofia. “Só nas teorias cíclicas modernas o significado do mito arcaico da eterna repetição ganha todo o seu valor” (ELIADE,1981, p.159).

Tecendo críticas ao Marxismo – Marx “revalorizou a um nível exclusivamente humano o mito primeiro da Idade do Ouro, com a diferença de que ele coloca a Idade do Ouro exclusivamente no fim da história em vez de a colocar também no início” (ELIADE, 1981, p.162) – ao Existencialismo e ao Historicismo, afirmado que nenhuma dessas filosofias é capaz de oferecer ao homem moderno soluções para a angustia de sua existência, existência sem liberdade, sem poder de criação e de intervenção nos acontecimentos, já que a história seria feita por uma pequena minoria que obrigaria todos os outros a aceitá-la, Eliade finaliza seu ensaio declarado que:

 “O cristianismo é a ‘religião’ do homem moderno e do homem histórico, daquele que descobriu simultaneamente a liberdade pessoal e o tempo contínuo [em vez do tempo cíclico]… Só pressupondo a existência de deus, ele [o homem moderno] conquista por um lado a liberdade e, por outro, a certeza de que as tragédias históricas tem um significado tragédias históricas  tem um significado trans-histórico… Qualquer outra situação do homem moderno conduz ao desespero, em última análise”.

(ELIADE, 1981, p. 73-74).

 

A noção pendurar do tempo

Em Dois Ensaios a Respeito da Representação Simbólica do Tempo Leach propõe-se a analisar não apenas a natureza da categoria Tempo, mas como essa noção permeia as nossas experiências cotidianas e como estas criam a apreendem essa noção.

Tenta demonstrar que o processo do tempo é uma oscilação entre opostos e não entre pares idênticos, como a religião nos induziria psicologicamente a acreditar.

Leach destaca que em nossas sociedades, repletas de mecanismo de medição do tempo, como relógio, rádios e observatórios astronômicos, o tempo é parte essencial de nossas vidas, aparentemente fácil de ser captado e apreendido por nossa consciência.

Mas, se pensarmos em sociedades que não possuam esses instrumentos, como pensar a respeito do tempo?

A noção que temos do tempo abrange dois atributos que remetem a experiências distintas e contraditórias:

  • a ideia de repetição, isto é, certos fenômenos da natureza se repetem: os dias, as estações, os anos etc.
  • a ideia de não-repetição, isto é, as mudanças da vida são irreversíveis: os seres vivos nascem, crescem e morrem.

É esse segundo aspecto do tempo que nossa visão moderna e sofisticada irá enfatizar. Entretanto, a ideia da morte e do fim do universo nos é insuportável, e por isso psicologicamente procuramos negar essa “verdade” oferecida pela experiência do senso comum.

Leach demonstra como em nossa sociedade as coisas se parecem e assumem o caráter repetitivo.

A religião prega que começo e fim, isto é, o nascimento e a morte são as mesmas coisas, que ao nascimento segue-se à morte, assim como a morte segue-se ao nascimento, negando, assim, a irreversibilidade dos acontecimentos e reforçando a noção de repeti1ção.

É esse aspecto que dá sentido à nossa existência, e nossa experiência cotidiana e o senso comum reforçam a ideia do tempo como algo que se repete.

A ideia do tempo como pura sucessão de duração, de épocas, fluindo, seguindo, como uma linha reta que se estica, de um passado infinito para um futuro infinito, é uma ideia geométrica, tal como a ideia do tempo circular nas sociedades primitivas.

Mas Leach afirma que somente no pensamento matemático é que a sequência do tempo é percebida através de figura geométrica do círculo, quando pensamos na repetição do tempo nas sociedades primitivas como sequencias “cíclicas podemos estar em completo desacordo com a maneira de pensar dessas sociedades”.

Fazendo uma comparação com a noção de tempo nas sociedades primitivas, afirma que o processo do tempo não é sentido como uma “sucessão de durações de épocas”, mas “experimentado como algo descontínuo, uma repetição de inversões repetidas, uma sequência de oscilações entre oposto polares: dia e noite, inverno e verão, seca e cheia, velhice e juventude, vida e morte” (LEACH,1974, p. 195).

Como consequência dessa noção, o passado se torna não profundo, é apenas aquilo que é diferente do presente. É um passado sem densidade.

Para Leach “é a religião e não o senso comum que persuade os homens a incluir tantas e tais como oposições sob uma categoria única, tal como o tempo”. Só a religião é que identifica, unifica os opostos, através do tempo, “persuadindo-nos assim de que os eventos não-repetitivos são, realmente, repetitivos” (LEACH,1974, p. 195).

A noção de que o processo do tempo é uma oscilação entre oposto implica na existência de uma terceira entidade: a “coisa” que oscila entre um oposto e outros: o EU, que num momento está na luz do sol (dia) e noutro à luz da lua (noite).

Para demonstrar a noção pendular do tempo, Leach vai recorrer às concepções mitológicas dos gregos sobre o tempo. Nelas, o tempo é visto como pendulo (alma, falo, elemento vital), algo que oscila entre polares aparentemente idênticos.

Esse tempo é que os diferenciará, criando-os como opostos inter-relacionados. Somos “nós que criamos o tempo através da criação de intervalos na vida social” (LEACH, 1974, p. 207).

A noção de oscilação fica mais clara no mito de Cronos, onde podemos captar também a ideia de representação do tempo como uma sequência de inversões de papeis sociais.

O tempo pode ser concebido, então, como um processo de ziguezague, isto é, um ir e vir constante entre dois polos contrários, como uma sucessão de alternâncias.

Com a possibilidade da reversão do tempo, a vida pode ser vivida ao reverso. Através dos rituais de renovação, dos ritos de passagem, essas inversões dos papéis sociais poderão ser possível e o tempo ser agarrado e pode ir para trás e para a frente, ou mesmo para ocasionalmente:

A regularidade do tempo não é uma parte intrínseca da natureza; é uma noção fabricada pelo homem, que nós projetamos em nosso ambiente para nossos próprios objetivos particulares.

(LEACH, 1974, p. 205)

Na visão pendular do tempo, a sequência das coisas é descontinua; o tempo, uma sucessão de alternações e paradas.

Para Leach, a noção do tempo como “descontinuidade de contrastes repetidos” é a mais elementar e primitiva de todas as maneiras de encarar o tempo.

A visão evolucionista do tempo

Em seu ensaio O tempo como problema de História Cultural, Gourevitch procura demonstrar que o conceito de tempo se liga à ideia de evolução e, portanto, reflete a candência, os ritmos da evolução das sociedades.

Com esses objetivos, percorre a história das sociedades humanas e analisa como cada época cria sua própria representação do tempo.

Inicialmente, afirma que “as representações do tempo são componentes essencial da consciência, cuja estrutura reflete os ritmos e as cadencias que marcam a evolução da sociedade e da cultura” (GOUREITCH, 1975, p. 263).

A maneira como as sociedades percebem e aprendem a noção de tempo depende da organização interna de suas relações sociais de produção.

A representação do tempo situa-se, portanto, ao nível da superestrutura, do ideológico, refletindo a prática social dos homens das diferentes sociedades: “A cada etapa do desenvolvimento da produção, da evolução das relações sociais e do progresso tecnológico, da autonomia do homem com relação a seu meio ambiente natural correspondem maneiras particulares de viver o mundo” (GOUREITCH, 1975, p. 263) e, portanto, de representar o tempo.

Em nossa época e civilização, o termo é representado como irreversível, vectorial e divisível em segmentos de igual grandeza e de valor equivalente.

O homem contemporâneo manipula com facilidade a categoria “tempo” em decorrência do grau bem elevado de elaboração alcançado pelos sistemas temporais que utilizamos, pela capacidade de altas abstrações, pelos meios tecnológicos sofisticados de meditação do tempo.

Para chegar a essa noção do tempo, as sociedades teriam percorrido longos e difíceis caminhos, durantes séculos.

Estabelecendo elos de comparação com a civilização atual, Goureivicth apresenta três noções de tempo, criadas ao longo da história humana: a noção cíclico-mitológica, a cristã e a evolucionista.

1) A noção cíclico-mitológica dos povos primitivos e das civilizações antigas

Na consciência primitiva, o tempo não existe em forma de abstração, “na medida em que o pensamento, em estágios arcaicos de desenvolvimento é, sobretudo, concreto, objetal e sensível” (GOUREIVITCH, 1975, p. 265).

A consciência capta o mundo simultaneamente em sua globalidade sincrônica e diacrônica e este é, então “intemporal”.

O sentimento do tempo estende-se ao futuro mais próximo, ao passado recente e à atividade em curso, aos fenômenos do ambiente imediato do homem.

É a concepção cíclica do tempo: aquilo que já foi, retorna a intervalos determinados; o tempo não se desenrola de maneira linear, do passado ao futuro, mas ora é imóvel, ora é cíclico.

Essa concepção está ligada ao fato de que o homem não se desligou da Natureza e sua consciência se subordinou às transformações periódicas das estações.

“A consciência do homem primitivo não é orientada para a percepção das modificações: é levada a encontrar o antigo no novo. Por isso, o futuro não se distingue daquilo que foi” (GOUREIVITCH, 1975, p. 266).

Ao conceito de tempo mitológico liga-se o `fenômeno da espacialização´: o tempo é vivido da mesma maneira que o espaço, e o presente não está separado do bloco temporal formado pelo passado e pelo futuro” (GOUREIVITCH, 1975, p. 267).

Os modos do tempo são “simultâneos”: não existe demarcação clara entre o passado, o presente e o futuro.

A ideia de sucessão do tempo existe, mas não predomina na consciência. A noção de tempo linear está subordinada a uma percepção cíclica dos fenômenos da vida, à imagem mítica do mundo.

Gourevitch reconhece que.

[…] a união da percepção linear do tempo com uma percepção cíclica, mítica e poética, com ‘uma condensação do tempo sonho’ (Thomas Mann) é observável em toda a história; o problema está articulação dessas diferentes formas do vivido com a percepção do fluir do tempo.

GOUREIVITCH, 1975, p. 268.

A noção cíclica do tempo não é específica das sociedades primitivas. As grandes civilizações da antiguidade também possuíam a ideia de imobilidade, do eterno presente indissoluvelmente ligado ao passado.

Na vida cotidiana, o tempo flui, mas ele é apena uma aparência do mundo.

Entre os gregos, a noção do tempo não difere muito dos demais povos antigos. É mítica, voltada para o passado, o mundo governado pelo destino sem lugar para a evolução histórica.

Os antigos parecem homens que “caminham de costa para o futuro”. A consciência dos antigos e suas representações do tempo seriam assim porque “o homem ainda não estava em condições de se arrancar de sua existência natural e se opor resolutamente ao seu meio ambiente” (GOUREIVITCH, 1755, p. 270).

A noção de tempo linear só se impõe na região cultural europeia, após uma evolução bem longa e complexa, e só possível com o advento do Cristianismo, que renova completamente o conceito de tempo.

 

2) A concepção cristã do tempo

A concepção apoia-se em três momento determinantes: o princípio, o apogeu e o fim do gênero humano.

O tempo é distinto de eternidade. O tempo terrestre é “a sombra da eternidade, a sucessão das coisas”, tem um princípio e um fim. O tempo histórico adquire uma estrutura determinada, subordinando-se a duas grandes épocas: antes e depois de cristo. A história está em movimento, da Criação até o Juízo Final.

No Cristianismo, o tempo não se liberta da concepção cíclica, a interpretação desta é que se modifica.

Separando da eternidade, o tempo se mostra linear, mas a história terrestre, entre a Criação e o Fim do mundo, apresentar-se como um ciclo acabado: homem e mundo retornam ao Criador e o tempo à Eternidade.

A vida terrestre não é um fim em si mesmo. Por isso, o passado e o futuro tem um valor maior que o presente, um tempo efêmero. Constrói uma imagem dualista da evolução histórica, o que permite uma filosofa da história.

O histórico cristão admite a evolução, a mudança, mas dentro de limites determinados, preestabelecidos pela Vontade Divina.

O presente é compreendido como sucessão para o fim do mundo.

O futuro, já previsto, dá as coordenadas para a compreensão do presente.

O tempo flui, mas não em todas as esferas da existência.

“O cristianismo não consegue superar o apego da consciência arcaica ao arquétipo mítico, à atitude ritual e mágica   da realidade e em particular diante do fluir do tempo” (GOUREIVITCH, 1975, p. 275).

Isso só se tornará possível com a passagem do “tempo bíblico” ao “tempo dos comerciantes”, isto é, com o nascimento das cidades, com o aparecimento   dos artesãos, com o desenvolvimento do capitalismo comercial e industrial.

  • A concepção evolucionista do tempo

Na civilização urbana nascente, o homem liberta-se dos ritmos naturais, separa-se da natureza e submete-se agora à ordem social que ele mesmo criara.

Instrumentos mecânicos de medição do tempo são criados, os relógios, dá-se o domínio do tempo secular, livre do domínio e influência da Igreja da Idade Média.

O tempo torna-se a medida do trabalho. Aparece a noção “do tempo sem qualidade, neutro por seu conteúdo e não ligado aos sujeitos que o vivem” (GOUREIVITCH, 1975, p. 281).

Trona-se possível a divisão igual do tempo em segmento comensuráveis e intercambiáveis. Pela primeira vez, o tempo “se estendeu” em linha reta, do passado ao futuro, passando por um ponto chamado presente.

Com o triunfo do tempo linear, as diferenças entre passado, presente e futuro ficam muito precisas.

O tempo é fluxo uniforme e não diferenciado, não para, mesmo quando não há eventos. A contagem mecânica do tempo faz-se sem a intervenção direta do homem, que é obrigado a reconhecer que o tempo não depende dele.

Torna-se um objeto, exterior ao homem, como uma mercadoria, um capital, fonte de valores materiais. O homem deixa de ser senhor do tempo, é denominado e tiranizado por seus ritmos cada vez mais rápidos.

Finalizado, Gourevitch reafirma que o conceito de tempo está ligado à ideia de evolução e, portanto, reflete a cadência e os ritmos da evolução das sociedades.

Ritmos e candências lentos, de estagnação, ou mais rápidos, como da civilização ocidental atual: “O predomínio, na consciência social, do tempo cíclico sobre o tempo linear é condicionado pela relação entre os elementos dinâmicos e os elementos estáticos no processo histórico” (GOUREVITCH, 1975, p. 283).

Tempo: convergência e diferenças

Será possível encontrar pontos convergentes sobre a representação simbólica do tempo entre as teorias dos três autores?

Cada um parecer conceber diferentemente não apenas a representação do tempo. mas a própria ideia de história e sociedade.

Partem de premissas teóricas distintas: Eliade professa uma visão metafisica do mundo; Leach possui uma visão que se aproxima das ideias estruturadas de Lévi-strauss; enquanto Gourevitch evidencia uma visão evolucionista-marxista da história e das sociedades.

Algumas semelhanças podem ser apontadas entre Leach e Eliade quando se reportam à concepção do tempo nas sociedades primitivas e civilizações antigas.

Ambos compreendem o pensamento mítico não como reflexo de uma incapacidade do homem em realizar abstratos ou ordenar logicamente o pensamento, mas como uma maneira própria de dar sentido, através do mito, à sua existência.

Uma forma de manifestação cultural diferente, mas não desprovida de sentido. O pensamento mítico não representa um reflexo das condições naturais do “mundo da animalidade”, de um mundo preso à Natureza, incapaz de produções intelectuais racionais. Mas, a aproximação parece acabar aqui.

Enquanto Leach está mais preocupado em descobrir o que se encobre por trás das manifestações culturais, das representações simbólicas, o que querem comunicar os mitos como linguagem complexa sobre as relações estruturais das sociedades, Eliade procura demonstrar que o homem necessita de um modelo extraterrestre para dar sentido a sua existência.

O pensamento primitivo e das sociedades atuais manifestam, através do mito do “eterno retorno”, com suas variâncias, uma vontade do homem integrar-se num plano mais amplo de existências, um modelo exemplar divino. Afinal, afirma Eliade, alguns aspectos e funções do pensamento mítico seriam constituintes do ser humano.

Leach, como Levi-strauss, de quem reconhece forte influência, não se interessa pelo estudo de uma determinada cultura particular, vista como o universo simbólico que sintetiza e dá conteúdo ao conjunto das relações sócias, nem está preocupado com a comparação de sociedades, de estruturas sociais, mas com a universidade à qual se chega “pensando nas ideias organizacionais presentes em qualquer sociedade como constituintes de um padrão matemático” (LEACH, 1975, p. 5).

Preocupa-se com as estruturas básicas do pensamento, representações simbólicas que originam certas manifestações culturais, e que podem estar presentes em outras culturas distintas.

Leach está preocupado em demonstrar como a representação simbólica do tempo em culturas distintas prende-se a estruturas básicas idênticas.

A noção de tempo pendular, oscilação entre oposto, o tempo como ziguezague, levando a inversões de papéis sociais, é uma noção básica presente em cultura distintas, que a manifestam diferentemente, através dos mitos ou de outras formas de linguagem.

Vai “desvestir” os mitos e as representações do que eles têm de particular, de concreto, para encontrar os elementos de identificação das estruturas.

Leach não está preocupado com a história, pelo menos no mesmo sentido em que Eliade e Gourevitch o estão.

Para Eliade, o homem das sociedades primitivas como o das civilizações atuais procura negar a história, os acontecimentos irreversíveis, porque esta é destituída de significado e valor e, portanto, não seria real porque não referida a modelo transcendental. A história esmaga o homem, retira-lhe a identidade, materializa-o, coisificação impede sua plena realização, daí a revolta, o horror do homem contra a “história”.

Gourevitch afirma exatamente o inverso. A história libertou o homem, porque este consegue dominar a natureza, o meio ambiente e criar uma noção de tempo que reflete a dinâmica da estrutura social de hoje reflete a dinâmica da estrutura social de hoje, permitindo ao homem manipular o tempo como um objeto, fazer dele uma mercadoria, uma capital.

Mas o tempo, como componente da consciência social de uma determinada sociedade, pode ser manipulado ideologicamente pela classe dominante (por ex., a igreja na Idade Média) e hoje, apesar do estágio superior de desenvolvimento da produção das sociedades atuais, acaba por dominar o homem.

Enquanto para Leach somos nós que criamos o tempo, para Gourevitch o tempo parece sempre ter sido um elemento da natureza, e apenas com o desenvolvimento das sociedades atuais foi possível vê-lo como elemento autônomo, medi-lo, pensá-lo como forma de existência da meteria e dominá-lo, como o homem teria dominado os elementos naturais através da descoberta de suas leis.

A perspectiva determinista histórica presente em seu pensamento o leva a concluir que a permanência da noção de tempo cíclico é resultado dos ritmos e cadência diferentes dentro das sociedades, como disritmias econômicas sociais.

Apesar de distintos enfoques sobre a representação do tempo, não parece “perda de tempo” tentar encontrar convergências entre os autores.

Cada um deles pode nos oferecer possibilidades de compreensão e pistas de explicação para os acontecimentos das sociedades modernas, independentemente de suas premissas teóricas.

É o sonho necessário?

Três preocupações, apontadas na Introdução deste artigo conduziam minhas reflexões:

  • A noção de ciclo como categoria explicativa de um determinado momento histórico. Como compreender a periodização histórica, ou a própria concepção de História?
  • O conteúdo simbólico do “ciclo da borracha” como ideia de renovação, recriação e retorno a um tempo glorioso, ao Éden dos ancestrais, indígenas e europeus. Perguntava, então, se seria possível a uma sociedade não arcaica recriar e viver um tempo mítico.
  • A recusa ao presente, na chamada era da “decadência”. Há uma aparente ou real incapacidade das elites amazonenses em ver e aceitar a realidade, em captar os acontecimentos como consequência da dependência de uma economia extrativista ao capital interfacial.

Ao final do percurso feito sobre as ideias da representação simbólica do tempo dos autores analisados, não asseguro que tenha conseguido elementos suficientes para oferecer uma resposta plenamente satisfatória às minhas inquietações.

Tentando, entretanto, ultrapassar as contradições em que me enredei, aponto algumas pistas para continuar a caminhada filosófica:

Primeira: a necessidade dos homens, em qualquer sociedade, em dar sentido e significado à sua existência e ao mundo que os rodeias leva-os a construir sistemas simbólicos de representações que estabelecem padrões de comportamento e explicam suas experiências cotidianas.

Criam um sistema coerente de significados, um discurso social, cuja linguagem pode ser expressa em distância formas de comunicação.

Segunda: ver esses sistemas simbólicos apenas como puro reflexo da dinâmica social, medir o valor da produção humana apenas por uma linha evolutiva, com estágios de desenvolvimento, parece-me bastante duvidoso e empobrecedor.

Hoje, a noção linear de tempo, como um fluxo constante e ininterrupto, que segue para um ponto infinito, não é satisfatória.

Por outro lado, pode-se detectar nas sociedades modernas a existências de uma disritmia econômica, social e cultural, a partir da própria estrutura das relações de produção, da existência das classes sociais, o que levaria a várias percepções de tempo.

Os diferentes níveis de consciência nessas sociedades seriam decorrentes dos diferentes graus de participação e acesso à produção social e aos bens símbolos, não uma característica específica em decorrência do tipo de produção ou do meio ambiente.

Terceira: o ser humano não é o homo faber, mas é antes homo sapienssapiens demens que seja, que vivência suas experiências a partir da criação de símbolos e imagem, criativo, multidimensional, possuidor de plasticidade e versatilidade.

A história da humanidade (se é permitido generalizações como esta) é feita de trabalho, produção, mas também de imaginação, desejos e sonhos, força e fragilidade, de razão e emoção. Criamos o mundo e este não é apenas pura matéria.

Nossas incertezas, esperanças e sonhos são parte constituintes de nossa existência. Criamos o tempo e suas armadilhas. Mas criamos também nossas defesas, para nosso presente e para o futuro.

Presente que não se resume a uma repetição do tempo passado, mas que constituiu-se em uma de suas múltiplas e cambiantes faces, assim como o futuro só existe pensado e construído no presente.

A memória mitifica o presente porque é uma das formas do homem expressar sua união com um todo interrelacionado, presente, passado e futuro. E se para tal necessita o homem de sonhar e elevar sua imaginação criando magias, aparentemente anacrônicas, que viva, então, o sonho!

 

 

Referências

COSTA, Selda V. da. Eldorado das ilusões: cinema e sociedade. Manaus (1897- 1935). Manaus: adua, 1997. COSTA, Selda V. da. Labirinto do saber: Nunes Pereira e as culturas amazônicas. Tese de doutoramento em ciências sócias (antropologia), PUC/SP, 1997. ELIADE, M. O mito do eterno retorno. Lisboa: Editora 70, 1981. ELIADE, M. O mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 1974. GOUREVITCH, A.Y. O tempo como problema de história cultural In: Paul Ricoeur e outros. As culturas e o tempo. São Paulo: Vozes/Edusp, 1975. LEACH, E. R.  Repensando a antropologia. São Paulo: Perspectiva, 1974. Cp. 6. LEACH, E. R. Dois ensaios a respeito da representação simbólica do tempo. In Repensando a antropologia. São Paulo: Perspectiva, 1974. p. 156-157.

*Este artigo também está na revista Folhas Soltas, número 3/Nov./1999, publicada pelo Núcleo de Pesquisas e Estudos Sociais do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

**A autora é doutora em Antropologia e professora aposentada da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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