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Eu, O povo da rua, me acode! [por Wilson Nogueira]

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Quando eu criança, ganhei um apelido inusitado: “Povo da rua, me acode!”.

Mas nunca me incomodei com apelidos.

Esse é apenas mais um entre tantos outros que não vingaram, simplesmente porque nunca peguei corda da moçada.

Moçada, palavra da moda daquela época, corresponde à galera de hoje.

Minha tática era esta: se alguém me chamava pelo apelido, eu lhe devolvia a alcunha com a mesma ênfase e, também, com gentileza.

– E aí, Elefante, tudo bem?

Eu respondia:

– Tudo bem, Elefante. E com você?

Ganhei esse apelido nas aulas de educação física do professor Aderaldo Dutra, alma alegre e festeira, na escola São José Operário, em Parintins (AM).

Dutra foi marujo da primeira fila de tambores do boi-bumbá Caprichoso.

Fui chamado de Elefante por ele porque as minhas juntas são inflexíveis aos exercícios mais básicos.

– Força, Elefante! – determinava ele, para a alegria da molecada.

Não adiantava. As articulações não se vergavam como deveriam. Essa inflexibilidade, com o avanço da idade, só se aprofundou.

Os apelidos entre nós eram recorrentes.

Apelidávamo-nos uns aos outros. Uns pegavam, outros eram varridos pelo vento.

Mas esses apelidos, pelo que lembro, não cambavam para a depreciação da pessoa do apelidado. Outros, evidentemente, são indizíveis por aqui.

Os mais leves caracterizavam, geralmente, situação ou contexto no qual o apelidado se envolvia, porque possuía qualidades ou manhas de algum animal.

O Cupido, o macho da capivara, empresta nome a muitos dos jogadores de várzea tranqueiras.

Há famílias que são herdeiras de codinomes dos ancestrais indígenas.

A família do vô materno Joaquim é conhecida ainda hoje como descendente dos Paca.

Então, o meu avô é o Joaquim Paca, o meu tio Joaquim, Joaquinzinho Paca; a mãe, Júlia Paca, eu, Wilson Paca etc.

Paro por aqui porque tem parente que não aceita esse sobrenome, e isso, de vez em quando, termina em grande confusão entre nós.

Claro, ninguém tem o direito de apelidar nem o dever de aceitar apelidos, muito menos aqueles que insultam, machucam ou magoam.

Confesso que nunca perdi as estribeiras por conta de apelidos. Como disse, eu tinha o meu antidoto.

Nem mesmo com O povo da rua, me acode!, pelo qual até hoje sou chamado por conterrâneos como Fred Góes, João Melo e Henrique Medeiros.

Essa bizarra nominação vem de uma situação de clamor.

A mãe cuidava de oito filhos gerados em escala escadinha.

Eu sou o mais velho, mais irrequieto, mais travesso e, sabe lá Deus, até hiperativo incorrigível.

Imagino hoje o trabalho e a preocupação que dei à mãe, até porque ela sempre foi mais presente na nossa criação. O pai era embarcadiço e vivia viajando.

A mãe era agricultora. Sabia ler e escrever, mas, certamente, jamais folheara algumas dicas sobre como criar uma ruma de filhos ao estilo dos burgueses ou dos aburguesados.

Os saberes indígenas da sociabilidade das crianças já haviam sido trocados pelos do modus operandi jesuítico.

E o Deus dos jesuítas escreve certo por linhas tortas.

Adepta da Caligrafia de Deus, a mãe não amolava a língua nem ia muito longe para aplicar os seus corretivos no menino envenenado de traquinice.

Se brigasse na rua, independentemente de perder ou vencer, apanhava também em casa.

Se passasse o dia soltando papagaio ou jogando bola, também apanhava em casa.

Ah! Se emendasse da escola para tomar banho na Baixa da Xanda, hoje Baixa do São José, aí podia preparar o lombo para o galho de cuieira ou goiabeira.

Nunca esqueci dessas árvores espalhando seus galhos no nosso quintal.

Era nessas horas, quando percebia que a mãe estava embravecida para além da conta e que o couro esquentava, que eu não hesitava em gritar com todas as forças do pulmão:

– Povo da rua, me acode!

De imediato, chegava a vizinhança e as pessoas que passavam na rua para me socorrer.

É assim: há situações que só o povo resolve.

Mas é preciso muito cuidado para não recorrer às ruas em momento insano, como neste de ódio fumegante.

Eu, certamente, tive mais sorte que Jesus Cristo.

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