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Por quem os cães e as cadelas choram? [Por Wilson Nogueira]

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Moramos há pouco tempo, eu e Maria do Rosário, numa rua que separa os bairros de São Francisco e Cachoeirinha.

De mão dupla, essa rua é um corredor de carros leves e pesados para várias direções.

Logo, o vruvrum!  vruvrum!  vruvrum! é intenso.

No meio dessa confusão sonora transitam os carros da Polícia, dos Bombeiros, as ambulâncias SOS do Samu, dos Hospitais particulares e os das funerárias.

Ao menos duas funerárias da Cachoeirinha usam, com frequência, essa rota para o cemitério São João Batista, para o Parque Tarumã e para o Recanto da Paz de Iranduba, do outro lado do rio Negro.

Cada sirene, obviamente, emite um sinal característico de pedido de preferência no trânsito.

Desse modo é fácil perceber quando esses carros se movimentam para apagar incêndio, prender ou socorrer alguém, e não menos raro para enterrar um defunto.

Por aqui, altas horas da noite as jamantas se arrastam sobre as costelas de vacas e a impressão que se tem é a de que o asfalto emite trovões.

E, aqui e acolá, uma máquina de duas rodas endiabrada arrebenta o ar com o terrível barulho das descargas cortadas.

Há ainda a sirene persistente das motocas dos vigias de quarteirão.

No meio dessa balburdia, a sirene do carro funerário sempre me instigou a imaginação.

Diferentemente dos que apagam incêndio, prendem ou levam gente para os hospitais, os carros das funerárias, uns compridões pretos, soltam sons mais graves e alongados, com cadência curta.

Soam como uivos de lobos contemplando a lua cheia, prontos para se transformar em lobisomens. Diria até: soam como lamentos vindos de tão longe, mas sentidos tão perto.

As sirenes dos outros carros são apressadinhas, estressadas e estressantes nesse cenário citadino já caótico.

Uma sirene de carro funerário é capaz de deslocar o ouvinte no tempo e no espaço.

Esse som sempre nos lembra algo marcante. Ou apavorante!

Às vezes, nos remetem a pessoas amadas que partiram. Ou mesmo a algo mais pé no chão,como: afinal, qual de nós será o próximo?

Daqui de onde escrevo, algo ainda mais intrigante – e também mais misterioso – me açulou a mente.

Toda vez que um carro funerário passa com a sua sirene ligada, puxando um cortejo de carros com luzes de alerta ligadas, os cães e as cadelas da vizinhança desandam a uivar um lamento que nós, humanos, identificamos como choro.

Dá para distinguir que são diversos uivando ao mesmo tempo.

Quem me apontou o fenômeno foi a sensibilidade rosariana:

– Olha só, os cães daqui choram quando ouvem a sirene do carro funerário.

Custei a acreditar no que ouvia.

Inicialmente, imaginei se tratar de pura coincidência.

Mas, com o passar dos dias, confirmei que os cães, ao menos os desse trecho da cidade, choram mesmo nesse momento fúnebre.

Sendo esses animais sociais e sociáveis e hoje apegados e dependentes dos seres humanos, passei a questionar se esse choro se relaciona ou não ao sentimento da perda irrecuperável.

E se há essa ligação, como assimilaram essa cultura que, por sinal, não é unânime entre os humanos.

Existem povos que festejam, ao invés de chorar os seus mortos.

Claro, essas são conjecturas de uma pobre racionalidade humana diante de uma rica sensibilidade canina.

Até porque não há quem duvide que os cães são parceiros dos humanos.

Ou como sempre afirmamos: os cães são fiéis às pessoas, principalmente aos seus donos. A recíproca, todavia, não é verdadeira.

É só observar a quantidade de cães abandonados nas ruas.

Os exemplos de fidelidade dos cães aos seus donos são fartos em todo o mundo.

O mais globalizado desses é o do cão japonês Hachiko, que esperou o seu dono na estação de Shibuya até morrer, nove anos após a morte do professor Hidesaburo Ueno, em 1923, que o recolheu da rua.

O cão acompanhava o professor todos os dias até a estação de trem, de onde ele seguia para a universidade.

Mas um dia Ueno não mais voltou para casa e Hachiko permaneceu na estação até a morte.

No local, em reconhecimento a sua fidelidade de cão, Hachiko ganhou uma estátua de bronze em frente à estação de Shibuya.

Sua história também foi para as telas de cinema.

O mais curioso é que o nome Hachiko quer dizer, em japonês, cão fiel e afetuoso.

Especulo, depois de passar por Hachiko, que, em algum momento muito especial, os cães da nossa rua associaram os sinais sonoros do carro fúnebre à morte e enterro de algum amigo humano.

Mas a reflexão pode ser mais profunda, pois, se chegaram à essa dedução, entenderam que todo ser humano é um amigo e, por isso, sua morte deve ser sempre chorada.

Mas deste lado não há lamento sempre.

As pessoas, diante da banalização da morte por meio da violência generalizada, estão perdendo até a capacidade de chorar os seus mortos humanos.

Com essa ideia dos cães que choram, corrobora a teoria que diz que, lá atrás, só conseguimos dar saltos na escala evolutiva porque fomos educados pelos lobos, ancestrais dos cães.

Eles caçavam para os nossos parentes longínquos e, por consequência, com eles aprendiam a caçar e a realizar outros procedimentos de defesa e sobrevivência.

Mas certo dia esse elo se despedaçou.

E hoje, de tão distantes desses parceiros de primeira hora, não conseguimos mais entendê-los em sua afetuosidade e amorosidade.

É por isso que nos perturbamos com coisas que nos poderiam ser tão comuns ainda hoje.

E, assim, só nos resta perguntar: “Então, por quem os cães choram?

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2 Comentários
  1. Armando Clovis Diz

    Muito boa cronica, parabens.

    1. Wilson Nogueira Diz

      Obrigado. Muito obrigado.

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