A mídia e a morte da política [por Wellington Pereira*]

A relação entre mídia e política é trágica, porque nunca é pedagógica, mas da ordem do espetáculo.

O que aparece como política na mídia é o que existe de mais violento, feio e degradante do exercício político.

Na mídia a política se torna um sistema de injunções da vida cotidiana – no qual tudo se encaminha para o caos, a degradação da sociedade.

Sendo um campo de batalha, de desejos, uma luta por reconhecimentos pessoais – a política vista através da mídia é  estética do grotesco, cujos atores principais têm a função catártica dos vilões dos grandes espetáculos.

Portanto, na mídia, a política é sempre controlada por interesses econômicos ou publicitários, o que gera o entendimento ruim do que seja a sua função.

A mídia usa estratégias publicitárias para matar a política, transformar seus atores – sem exceção – em vilões e deixar o vazio social para ser preenchido por formas políticos ditadas pelos dominadores ‘comerciais’.

A morte da política é agonizante, pois seu corpo é oferecido através de modelos recorrentes da falta de política nos espaços públicos, como o totalitarismo – por exemplo.

No Ocidente, a primeira morte da política começou com a ascensão do Nazismo nos anos 1930. Até esse período, o pensamento da Ciência política era regido pelos ideais do filósofo alemão Kant – nos quais prevaleciam o imperativo ética, a ordem social com vase no governo das cidades dos gregos e o sonho de uma paz mundial (perpétua).

Desta primeira morte, restou o sentimento de uma Fenomenologia do Espírito – a grande obra de outro filósofo alemão – Hegel, como nos demonstra Luuk Van MiddelAAR, em seu excelente livro, Politicídio – o assassinato da política na Filosofia francesa.

O que Hegel ofereceu aos cientistas políticos franceses, através de seu intérprete, Alexandre Kojève – em seus cursos na École Pratique des Hautes Études – Paris – sobre a Fenomenologia do Espírito de Hegel, foi pensar a política a partir das pequenas misérias do cotidiano, o que assustava àqueles que ainda acreditavam que uma teoria do conhecimento poderiam salvar o homem.

Forças irracionais, violências, crimes bárbaros, esvaziamento de um sistema de ideias, tomaram conta das sociedades europeias com a ascensão do nazismo e do fascismo, porque não dava mais para pensar numa paz universal se homens letrados tinham escolhido apoiar a barbárie e seus tentáculos.

Mas o relato dos fatos sociais de Hegel nãos seriam suficientes para interpreta os crimes contra a humanidade cometidos pelos nazistas. Daí advém a segunda morte da política: o surgimento das teorias que vão usar Marx, Nietzsche e Freud (os filósofos da suspeita) – para repensar a o holocausto de seis milhões de judeus, a maior barbárie cometido pelo homem contra a humanidade.

Com o final da Segunda Guerra, os marxistas vão duelar com o bloco capitalista e ambos vão oferecer ao mundo perspectivas históricas diferentes. Cada um responsável por uma estruturação sistemática da política.

O Socialismo oferecia a estrutura de um estágio rígido, autoritário, totalitário – preconizado por Stálin – que controlava o homem desejoso em discutir a esfera pública a partir da burocracia estatal.

O Capitalismo passou a oferecer a liberdade na forma reificada da mercadoria – sobre a qual ainda pesa todo o preço da liberdade de uma pequena elite consumista – de cujos templos saem os refrãos que buscam despolitizar a política.

No socialismo, a partir de 1975 – com a publicação do livro Arquipélago Gulag de Alexander Soljenítsin – houve a primeira grande fratura entre os socialistas – culminando com os desmonte de governos totalitários de esquerda no Leste europeu, cujo exemplo mais comum foi a Queda do Muro de Berlim.

Essa foi a terceira morte da política.

O capitalismo – camaleônico – passou a oferecer mais alternativas de sobrevivência aos ricos e quase nenhuma aos pobres no mundo inteiro.

Neste sentido, a política deixou de ser um desejo natural do homem governar o espaço pública, tornando-se uma luta pela sobrevivência performática (ditada pela mídia) a praticar exercícios antiéticos, anti-ideológicos e antipolíticos, que se estabelece em um modelo de governabilidade midiático-corrupto – responsável pelo abandono de milhões de seres humanos em estados de calamidade pública, que vão do saneamento básica até a educação formal.

Todos os dias, a mídia mata a política deixando o vazio social para os deuses totalitários e fascistas do mercador financeiro.

*O autor é jornalista e professor da UFPB

Também publicado no Diário da Paraíba

 

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