Morre o poeta Ernesto Cardenal [Dez fotos para lembrá-lo em Manaus, no Flifloresta, em 2008]

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O poeta e padre nicaraguense Ernesto Cardenal morreu hoje (1º/3), aos 95 anos, em consequência de uma parada cardíaca.

“Morreu em paz absoluta, não teve dor”, comunicou a assistente do poeta Luz Marina Acosta, do interior de um hospital de Manágua, capital da Nicarágua, onde Cardenal havia sido internado dias antes.

Cardenal, padre engajada na Teologia da Libertação, cuja doutrina combina ensinamento religioso e luta por justiça social, foi ministro da Educação no governo da Revolução Sandinista (1979-1990), da qual atuou como protagonista.

O religioso agiu na guerrilha sandinista contra o ditador Somoza ao lado do líder guerrilheiro Daniel Ortega, que assumiu o comando do governo revolucionário.

Em 2007, Ortega retornou ao poder, mas suas ideias e práticas não mais tiveram apoio de Cardenal, que passou a ser perseguido pelo ex-companheiro de guerrilha.

Suas obras de destaque são Hora Zero, O evangelho de Solentiname e Oração por Marilyn Monroe e outros poemas.

Em Manaus

Ernesto esteve em Manaus duas vezes.

A primeira como ministro da Cultura da Nicarágua, na década de 1990, quando foi recepcionado pelo poeta Thiago de Mello, de quem era amigo.

À convite de Thiago, Cardenal conheceu a aldeia Saterê-Maué de Ponta Alegre, no rio Andirá, no Médio Amazonas.

Thiago também tem residência na margem do Andirá, a poucos quilômetros dessa aldeia.

Em 2008, retornou a Manaus, desta vez, no Festival da Literatura da Floresta (Flifloresta), realizado pelo grupo editorial Valer, no período de 17 a 22 de novembro.

O evento reuniu 60 escritores do Brasil, da África, da América Central e da América Latina, que elaboraram e publicaram a Carta de Manaus, um documento de 10 itens que apela à preservação do Planeta.

A carta foi lida na Cachoeira da Onça, em Presidente Figueiredo (AM).

Cardenal preferiu não enfrentar a caminhada pela floresta e aguardou os seus colegas em uma das tendas na margem da trilha de acesso à cachoeira.

 

Carta de Manaus

Ciosos do significado que a pátria das águas , das florestas e da magia – a nossa Amazônia – tem para a continuidade da vida, afirmamos nosso compromisso de defendê-la e empreender esforços para promover iniciativas capazes de preservá-la como espaço vital do ser humano, dos bichos, das plantas, das águas, dos passarinhos.

De todos os seres, inclusive os encantados. E por compreendermos que todos têm direito à vida, comprometemo-nos com a vida e os habitantes da terra de Ajuricaba – herói da Amazônia e personificação dos homens e mulheres de boa vontade que lutam por um futuro generoso, justo e melhor para todos.

1 – que a Amazônia brasileira pertence ao povo brasileiro, que por meio de suas instituições, deve agir para protegê-la em benefício das suas populações e da humanidade;

2 – que países amazônicos devem agir com precaução mútua, para proteger seus ecosistemas em benefício das suas populações e humanidade;

3 – que as intervenções sociais, econômicas e políticas para a Amazônia, quando necessárias, partam das necessidades e valores das suas populações, e não de interesses que se superponham a essa peculiaridade;

4 – que a Amazônia seja compreendida como múltiplos e complexos sistemas biológicos e culturais, cuja interdependência não pode ser negligenciada em prejuízo do ambiente e das suas populações.

5 – que as decisões de políticas públicas e outras formas de intervenção na natureza e no ambiente social, quando necessários, se efetivem por meio de diálogo entre conhecimento, tecnologia e os saberes tradicionais dos povos amazônicos;

6 – que as culturas amazônicas, nas suas mais variadas manifestações de criatividade e saber, sejam sempre reconhecidas como produção intelectual indissociável dos seus produtores individuais ou coletivos;

7 – que se expresse o repúdio, de forma imediata e enérgica, a qualquer forma de preconceitos e de vontade de subjugar os povos da Amazônia;

8 – que os governos dos países amazônicos empreendam ações conjuntamente para assegurar os deslocamentos culturais das populações tradicionais que vivem nas regiões fronteiriças, para que as suas terras tenham a legitimidade e a continuidade referendadas por suas tradições;

9 – que os conflitos inerentes às cidades e o meio rural amazônico
sejam mitigados pelo Poder Público e pela sociedade, para que não se transformem em risco à qualidade de vida humana e da natureza;

10 – que a Amazônia represente e seja reconhecida sempre, como um grande gesto de amor por toda a Humanidade.

Presidente Figueiredo, Amazonas/Brasil/Terra: 19 de Nov. de 2.008

 

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