O ocaso do senhor T.  [Wilson Nogueira*]

:< – assim conheci o Senhor T.: no alto dos seus noventa anos, sempre retrocedendo a uma trajetória de vida que se inicia em uma cidadezinha do Nordeste, de onde partiu em 1947, aos 22 anos, para se embrenhar em um seringal acreano.

Depois de servir à guerra na selva, veio para Manaus. Aqui trabalhou, enriqueceu, amou, viveu bacanagens, empobreceu, mas viveu!

Não, seu moço. Eu não fui seringueiro. Servi como soldado da borracha comandando um comboio de jumentos coletores do leite das seringueiras.

Eu entendia desses animais. Quando sai de casa, eu ainda era virgem. Só vim fazer sexo com mulher aqui, no Amazonas.

Lá, fazia essas coisas com uma jumenta. Eu vivi amigado com uma jumenta.

Não. No seringal, não. Fora do seringal, eu já fazia essas coisas com mulher.

Tomei gosto por mulher. Tive 33 mulheres de casamento e amigação.

Não. Não tive filhos. Os meus três filhos são todos adotivos.

Saí de lá para ser soldado da borracha. Meu pai era remediado.

Era dono de uma fazenda de gado servida com um açude que nunca esvaziava. Só não havia mulher sobrando por lá. Deixei a casa dos meus pais ainda virgem.

Só aqui, no Amazonas, tomei gosto por dinheiro e mulher. Tive muito dinheiro e muitas mulheres.

Mas a minha história de endinheirado começa assim: certo dia, um amigo do meu pai veio me perguntar se eu estava bem de vida. Disse-lhe que não.

Ora, eu havia sido puxador jumentos na selva, trabalhado da Manaus Harbour e havia fracassado como vendedor de rala-rala.

Exatamente, seu moço, a companhia inglesa que tomava conta do porto. A Manaus Harbour, sim.

O amigo do meu pai então me fez uma proposta. Olha, T., eu tenho um negócio a te oferecer: você vai ser uma comerciante de joias de ouro.

Mas como? Ora, você vai levar as jóias em consignação. Escolha as que você quer levar!

Meio com medo de não dar certo, peguei algumas peças. Pois não é que deu certo. Com duas semanas e pouco vendi todas, paguei o amigo de meu pai e peguei outras jóias.

O negócio prosperou e juntei um bocado de dinheiro. Quando retornei à minha cidade nordestina, foi para comprar jóias diretamente na fábrica.

Com o dinheiro das jóias comprei barcos, para regatear pelo interior do Amazonas. Comprava e revendia juta, balata, sorva, peixe seco, carne de jacaré etc. Ganhei muito dinheiro nesse comércio.

Daí, saí comprando fazendas de gado. Cheguei a ser dono de perto de mil cabeças de gado, quando esses animais davam lucro para as fazendas regionais. Agora não, carne e outros produtos do gado chegam do Sul até aqui muito baratos.

Não. Mas não foi só isso que acabou o meu dinheiro. Como falei antes eu fui virgem até os 22 anos.

Mas depois que perdi a virgindade e já com dinheiro no bolso, eu aproveitei bastante a vida com as mulheres.

Vive com trinta e três mulheres, umas mais tempo outras menos. Mas preste muito bem atenção: nunca deixei as minhas mulheres sem algum dinheiro.

Agora também gastei dinheiro na bacanagem. Cansei de ir ao festival folclórico da tua terra, Parintins, com o barco cheio de mulheres.

Estavam comigo juízes, desembargadores, políticos.

Ah, políticos não faltavam. Fiz campanha para muitos políticos. Emprestei dinheiro para políticos que nunca mais recebi. Nem mesmo daqueles que ganhavam as eleições.

Esse pessoal todo vivia na minha casa. T. para cá, T para ali. Era uma adulação sem fim.

O cara quando está com dinheiro no bolso é adulado por todo mundo, principalmente por esse pessoal da Justiça e da política.

Mas eu não achava isso ruim não. Achava bom. Até recebia alguns privilégios.

Um dia um soldado da PM apreendeu uma arma minha. Pois não é que um desembargador meu amigo mandou devolvê-la. O funcionário da Justiça veio entregá-la em minha casa.

Mas isso tudo acabou. Agora só ouço as pessoas dizerem: T., você era para ser o dono desta cidade.

Claro que sei disso.

Afinal, eu já lhe contei a minha história?

:< – eu saí da minha cidade, no Nordeste, aos 22 anos, ainda virgem …

Essa agora é a luta do senhor T.: contar a sua história para dar sentido à vida que lhe é subtraída pelo mal de Alzhaimer e pelo Tempo. O implacável tempo! Imagino que, aos 90 anos, o senhor T. já não consiga mais pensar no futuro, por isso persiste nesse retroceder à tenra idade, talvez com a intenção de desarmar o gatilho do seu ocaso.

:< – eu saí da minha cidade, no Nordeste, aos 22 anos, ainda virgem …

 PS.:  O Senhor T. morreu em junho do ano passado e com ele foi-se o resto da memória de um mundo único.

*O autor é jornalista e escritor

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