Lenda do Boto se transforma para resistir como narrativa contemporânea

Pesquisadora apresenta as transformações, encantos e desencantos de uma das principais lendas da Amazônia

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Candace Slater, pesquisadora da Universidade de Berkeley (Califórnia, Estados Unidos), percorre veredas dos sertões nordestinos e rios e florestas da Amazônia para tentar compreender a formação da cultura brasileira por meio do imaginário das suas populações tradicionais.

Na Amazônia, Candace se enamorou com as histórias atribuídas ao boto encantado e passou a pesquisá-las com afinco, no período de 1999 a 2000, nas metrópoles, nas pequenas cidades e lugarejos de beira de rio.

Ouviu uma diversidade de pessoas e, igualmente, uma variedade de narrativas sobre o mesmo tema.

Essas narrativas e suas inferências sobre elas estão reunidas no livro A festa do boto: transformações e desencantos na imaginação amazônica (Funarte, 2011), uma obra que supera as fronteiras disciplinares e encara o desafio de dar voz aos sujeitos do fazer científico.

O jeito de pesquisar de Candace, um exercício que se realiza na fluidez da convivência com os seus interlocutores, capta a sensibilidade, a sinceridade, a espontaneidade e a alegria dos atores envolvidos no jogo narrativo.

Talvez por isso ela tenha compreendido a noção instigante de que o imaginário amazônico ainda resista ao apagamento que lhe impõe a cultura europeia.

“As coisas do boto são muito mais misteriosas, mais abertas, uma visão pouco cristã do mundo, embora possam juntar coisas do catolicismo com outros elementos”, explica a entrevistada. Confira a entrevista:


Wilson Nogueira – Como a senhora começou a estudar a Amazônia?

Candace Slater – Comecei quando estava ministrando uma aula sobre Civilização Brasileira em Berkeley, em 1988. Um aluno meu queria algum material sobre a Amazônia.

Fui à biblioteca da universidade, onde percebi que, naquele momento, não havia nenhum estudo mais geral voltado para a cultura amazônica.

Havia uma infinidade de livros sobre árvores, desenvolvimento, certos povos indígenas, mas faltava algum estudo mais panorâmico e mais aberto para o imaginário.

Então, comecei a estudar essas histórias tradicionais sobre os Encantados, sobre o boto e não sabia se deveria ir em frente. Mas descobri que essas coisas do boto são uma linguagem falada na Amazônia inteira e não só no Brasil.

Dá para comparar histórias contadas no Peru, Equador ou Colômbia com as histórias contadas no Brasil, por exemplo.

Podemos comparar as histórias contadas pelos idosos, com as contadas pelos jovens do mesmo povoado, dá para comparar as narradas pelas mulheres e coisas narradas pelos homens.

WN – No texto Festa do boto, a senhora defende que esse Imaginário do boto é único da Amazônia, que ele não tem vinculação mais direta com o imaginário indo-europeu, por exemplo. Como a senhora chegou a essa conclusão?

CS – Essas histórias têm alguma vinculação, sem dúvida, com o imaginário indo-europeu. Mas acho que elas têm uma forte raiz indígena, misturam-se com muitas outras coisas.

Você encontra com facilidade histórias que têm elementos de conto de fadas, de sereia, de Santo-Daime e Umbanda – uma enorme mistura! Depende muito de quem está contando, onde está contando, para quem e para quê a história está sendo contada.

Antes eu havia estudado a literatura de cordel e histórias de milagres do padre Cícero. Essas coisas são muito mais influenciadas pela herança europeia.

Elas têm uma forte moral, uma ideia muito clara do bem e do mal; e de um modo geral têm começo, meio e fim.

As histórias do boto são muito mais misteriosas, mais abertas, uma visão pouco cristã do mundo, embora possam juntar elementos do catolicismo com outros.

Quando comecei a estudar o imaginário amazônico vi que as histórias ofereceram uma visão de outro mundo menos ocidental.

Fiquei muito curiosa, porque essas narrativas não chegavam à Califórnia, aos Estados Unidos. A visão da Amazônia naquele tempo era a de árvore, árvore, árvore e desmatamento – temas muito importantes, com certeza, mas só uma parte da verdade.

A visão sobre o indígena que aparecia era também muito estreita. Havia estudos antropológicos excelentes sobre grupos específicos, a figura do índio naquela época era principalmente a de guardião da floresta.

Então eu tinha interesse, sobretudo, nas histórias dos ribeirinhos, 99% da população do interior da Amazônia.

Essas histórias são uma maneira de pensar que vai além da linguagem científica, que têm uma lógica mais poética, mais ambígua.

De novo insisto: essas histórias têm coisas parecidas com as de outras partes do Brasil e do mundo, não estou dizendo que essas histórias ocorrem apenas na Amazônia; mas, ao mesmo tempo, elas contêm uma série de elementos que aqui formam uma constelação diferente daquela que aparece em outros lugares.

A presença do boto é muito interessante por ser diferente da dos outros golfinhos tipo Flipper, que se encontram em diversas partes do mundo. O boto, em termos anatômicos e biológicos, é um animal muito especial – maior, mais colorido, mais solitário – e essas histórias refletem uma parte dessa verdade biológica.

WN – O que a senhora conseguiu a partir dessas histórias, que não conseguiria num estudo eminentemente sociológico, antropológico ou até mesmo literário?

CS – Boa pergunta! O estudo não é uma abordagem sociológica na qual a pessoa costuma responder na mesma linguagem direta.

Prefiro uma conversa mais livre, inclusive, muitas vezes, nem ligo o gravador, vou conversando. Muitas vezes, vou dizer: alguém estava me contando um episódio sobre o tal de boto que andava por aqui, algo sobre uma cidade encantada …

Aí eu pergunto: será que essas coisas existem mesmo?’. Então, as pessoas muitas vezes dizem: “Ah não! É pura mentira!” ou “Sim, mas não eram assim” E vão contando …

Dentro dessas histórias existem alusões à natureza, falas sobre o desmatamento, muitos dizem, por exemplo: “Sim, antes existia uma cidade encantada por aqui, mas hoje em dia há muita poluição. Qual o Encantado que vai querer morar num rio desses?”

Eles vão contando como é a vida na própria linguagem. Não é aquela situação em que você exige uma resposta e a pessoa responde qualquer coisa porque quer lhe agradar.

Não é algo desconfortável. Mas o bom é que todo mundo tem uma história para contar.

Faz 25 anos que trabalho com essas histórias e é interessante comparar aquelas que gravei há muito tempo com as histórias de hoje.

Algumas são idênticas, outras são misturadas ou têm elementos novos. As pessoas tentam explicar a própria experiência e as histórias ainda estão muito vivas, principalmente na várzea, nos lugares um pouco mais afastados da cidade.

Mesmo em Manaus, você encontra muitas histórias ligadas à família do contador [de histórias]: “Não, meu avô quando ele morava lá era diferente, hoje em dia não, é igual a qualquer outro lugar”.

O boto hoje em dia usa celular (risos), ele não fica preso àquela coisa folclórica, vai mudando junto com o Brasil. Então essas histórias, para mim, ainda são uma espécie de linguagem do povo, sempre renovada e fluida. Os contadores de história narram de um jeito variado, não é uma coisa só.

WN – Quais são as mudanças que mais levam a população a ressignificar essas histórias? São as religiosas, as políticas, as ambientais? Quais são as mudanças que, na sua opinião, pesam mais?

CS – Todas essas. Mas acho que, realmente, a religião hoje tem muito mais influência. As pessoas muitas vezes se declaram de antemão: “Eu sou evangélico, não acredito nessas histórias”.

Muitas vezes a pessoa hesita em contar uma história, diz que é coisa do diabo, mas acaba contando com detalhes e isso é realmente novo. Também tem mais influência da Umbanda e de movimentos como o Santo-Daime.

WN – A senhora Imergiu no campo e em determinado momento afirma: “Eu me transformei numa bota. Será que eu sou uma bota?”. Em outro momento a senhora diz que chegou a sentir “atração” por um senhor desdentado, pai de 11 filhos. Seria uma atração sexual já que o boto está nesse campo da sexualidade?

CS – Acho que nunca disse que me transformei em bota – realmente, não aconteceu. Agora, falei no livro sobre um amigo que disse uma vez que eu parecia ser de outro planeta e então eu me perguntei se ele tinha razão.

Mas isso era figurativo – não sou nem de Marte nem da cidade encantada!

Agora, quando falei do homem que me vigiava no seringal (os igarapés daquele lugar tinham muitos jacarés e acho que a comunidade estava preocupada que pudesse haver algum problema) era para realçar não só o lado sexual, mas também o aspecto mais universal dessas histórias.

Elas falam de casos que não estão limitados a ribeirinhos que nunca tiveram escola; são reflexões de uma realidade local e, ao mesmo tempo, global.

O Encante não é aquela coisa remota, do passado, bonitinha, pitoresca. É a vida de pessoas que ficam acreditando em parte nos Encantados ao mesmo tempo em que estão entrando na Internet e frequentando a escola.

WN – No texto a senhora dá Ideia de que foi vista como uma bota.

CS – Ah, sim – é bem possível que algumas pessoas tivessem suspeitas sobre mim; em parte porque eu tinha tantas perguntas sobre botos. Mas não adiantava negar nada – isso só ia reforçar as suas dúvidas.

WN – Isso se deu ao fato de a senhora ser estrangeira …

Claro. Sou alta e branca e tem muitas histórias que apresentam o boto como um gringo. Isso tem a ver com o poder, tem a ver com a história da Amazônia, da borracha, dos coronéis.

Mesmo dentro da mitologia indígena de hoje dá para perceber essas raízes, esse tipo de história, mas acho que é principalmente uma maneira de falar do poder, inclusive das injustiças.

Essas histórias são muito interessantes como uma forma de protesto. A cidade encantada pode ser uma construção aparentemente mágica, mas muitas vezes é uma espécie de queixa contra as condições desumanas que ainda existem entre as pessoas mais pobres.

Sei que já mudou em parte, acho que o Brasil caminha para frente, mas não é que, de repente, a pobreza sumiu. Se não tivesse pobreza não teríamos tanta gente dormindo na rua.

Acho que essas histórias sempre tiveram um viés de protesto, mas, muitas vezes, mascarado […] Muitas vezes o boto é um prefeito, é um governador, não é simplesmente aquela piada do homem vestido de branco que vai na festa com um chapéu na cabeça para esconder o buraco [da cabeça].

É uma maneira de falar de como a vida ainda é difícil e de como realmente o poder ainda esmaga. Os contadores dessas histórias criam coragem falando por meio de uma linguagem mais oblíqua.

WN – Qual a impressão que a senhora teve quando chegou na sua universidade e viu que lá não havia nada sobre o imaginário amazônico?

CS – Não é que não havia nada, mas realmente tinha muito pouco que servia para usar com alunos curiosos sobre maneiras de falar da natureza amazônica que pudessem ser ao mesmo tempo simbólicas e altamente concretas.

Eu queria uma coisa panorâmica, isso não encontrei, mas isso faz 25 anos.

Hoje em dia, uma das coisas que tenho feito nessas viagens é visitar universidades dando palestras, participando de minicursos.

Aqui, em Manaus, no lnpa [Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia] e na UEA [Universidade do Estado do Amazonas] tive a sorte de ministrar um curso com o professor Allison Leão, que é especialista na área e vi que as histórias orais, como a literatura escrita, tinham mudado muito.

Em Tefé tem outra universidade estadual; em Parintins também tem, então acho que o Brasil está mudando. Quando comecei a pesquisar os Encantados no fim dos anos oitenta quase não havia universidades no interior do Amazonas.

Também havia pouquíssimos pesquisadores fazendo esse tipo de estudo. Ainda não existia a Valer Editora (risos).

Hoje em dia, graças em parte a essas novas instituições e iniciativas, graças à abertura política e econômica, e graças aos grupos de trabalho que unem pessoas de diferentes disciplinas e partes do país, acho que o Brasil realmente está mais consciente da sua cultura.

Fico contente com isso, quer dizer, existem vários problemas e ainda falta muito, mas está melhor.

WN – O boto/Boto, tudo indica, mesmo no campo científico, comporta várias abordagens.

CS – Sem dúvida. Precisa-se, obviamente, de uma abordagem biológica que identifique como os aspectos físicos do animal reaparecem transformados nas histórias do Encante.

Precisa-se uma abordagem geográfica, porque essas histórias variam de lugar para lugar, não são sempre iguais. E precisa-se uma abordagem sociológica, porque grupos diferentes vão contar as mesmas histórias de formas diversas.

Também, tem uma participação antropológica porque o boto tem tanto a ver com raízes de culturas indígenas.

Também teria que ter uma perspectiva histórica, porque os contos vão mudando com o ciclo da borracha, com a chegada do gringo.

Por fim, é necessário que haja uma presença forte da Linguística e das Letras com a sua ênfase na própria linguagem, nos dialetos, nas coisas que vão sendo incorporadas em razão da mídia.

Temos que ver como as histórias dos Encantados entram e como não entram nas políticas relacionadas ao meio ambiente e ao desaparecimento de tantas coisas, inclusive os próprios botos.

Olhe, tenho uma história que gravei em Faro, contado por um carpinteiro, que gosto muito. É uma história realmente deslumbrante que deixa a gente sentir de perto o poder de uma natureza que é tão bela e tão estranha que a pessoa esquece de ter medo por ficar maravilhado.

WN – A senhora fala que as histórias do boto talvez sejam as mais democráticas da Amazônia, porque pessoas de todas as classes sociais sabem contá-las.

CS – É uma coisa que tradicionalmente une as pessoas e, sobretudo, os ribeirinhos. Quando comecei a gravar as histórias faziam parte da vida cotidiana, pareciam quase normais.

Hoje em dia elas são menos fáceis de ouvir porque as pessoas ou têm vergonha ou acham que são uma coisa do passado. Tem gente que zomba do Encante, acha as histórias retrógradas.

Mas têm outras pessoas que acham que os Encantados ainda fazem parte da realidade justamente por causa das suas raízes no passado.

Em Manaus, quando lecionei o minicurso com o professor Allison, perguntamos para os alunos: Qual a história que você conhece?

Quase todo mundo conhecia uma história, mas não fazia parte do cotidiano deles, porque o rio é diferente para eles, quer dizer, não é aquela coisa do interior.

Mesmo assim, acho que é importante valorizar essas histórias, elas são uma herança muito especial da Amazônia.

WN – A senhora pensa que o ambiente, que a ecologia da Amazônia influencia nessa criatividade da população?

CS – Sem nenhuma dúvida. Agora, quem é pescador vai ter outra visão, diferente de quem mora na cidade, num condomínio, mas todo ser humano é influenciado pela natureza, mesmo num estado de destruição.

As histórias são tão fascinantes porque realmente funcionam como espelhos diretos ou indiretos do tipo de vida do lugar.

Por isso, ficam mudando a todo momento. As crianças devem ser incentivadas a contar essas histórias, para que não se sintam ridicularizadas ou tratadas como se fossem matutos.

WNB – O professor Paes Loureiro sempre diz que precisamos de competência intelectual para organizar o pensamento caboclo-indígena, que é tão rico quanto o pensamento grego, que dá origem ao pensamento ocidental. A senhora acha isso possível?

CS – Acho que são lógicas diferentes. Estudiosos como o professor Eduardo Viveiros de Castro têm trabalhado muito nisso, mas acho que, hoje em dia, há muita mistura. Então tudo que é supostamente puro me espanta um pouco.

Acho que ao invés de tentar separar lógicas e linguagens, o interessante é ver como elas se misturam e dialogam.

O livro que escrevi sobre as visões da Amazônia chama-se Entangled edens e não sei bem a tradução – seria algo como Paraísos emaranhados.

O livro começa com a imagem do Encontro das águas, uma corrente de água branca junta com uma corrente de água negra [ … ] são dois tipos de água diferentes, mas não é aquela coisa linear, as lógicas são sinuosas [… ] Então o nome do jogo no qual estamos todos inseridos é fluxo, é fluidez, é mistura que não acaba nunca.

WN –Há algo mais a destacar?

CS – Obrigada, mas acho que já tocamos nos pontos mais importantes. Vale a pena, talvez, insistir mais uma vez no valor duradouro das narrativas, não só como histórias em si, mas como visões do mundo.

A importância da abordagem multidisciplinar é também fundamental – é impossível saber tudo; então os especialistas em várias disciplinas têm que trocar conhecimentos e ideias.

Penso também que a ideia da Amazônia como natureza humana deve ser cada vez mais valorizada e levada para frente.

Durante muito tempo a região era vista pelas pessoas de fora apenas como uma rainforest uniforme, mas hoje se sabe que a Amazônia é muito mais diversa.

Acho que as histórias dos Encantados nos oferecem uma maneira particularmente rica de ver uma realidade que vai mudando mas que também fica cheia de mistérios.


Ameaça de extinção

De acordo com o lnpa e com a Associação Amigos do Peixe-Boi (Ampa), desde 2000, a mortalidade decorrente de interações com atividades de pesca se tornou uma ameaça ao boto-vermelho.

Segundo a pesquisa, o animal é morto para servir como isca para a pesca da piracatinga e 10% da população estudada diminui todo ano e já aparece no Livro vermelho da fauna brasileira ameaçada de extinção.

Para mudar esse quadro, em julho de 2014, o Ministério da Pesca e Aquicultura e o Ministério do Meio Ambiente proibiram a pesca da piracatinga em todo o território nacional por cinco anos.

O objetivo da iniciativa é reduzir a matança de botos.


Perfil

                                                                  

Candace Slater é professora da Universidade da Califórnia de Berkeley, onde trabalha no Departamento de Espanhol e Português, e com Literatura Brasileira.

Também participa do Energy and resources group, um programa de pós-graduação voltado ao meio ambiente por intermédio do qual os estudantes trabalham com questões ambientais e com as Ciências Sociais.

“Nosso sistema lá nos Estados Unidos é diferente, é um pouco mais multidisciplinar. Então os meus alunos muitas vezes estudam não só literatura, mas, também, a cultura e a natureza daqui, da Amazônia e do Brasil”, comenta Slater.

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