Ranhuras [Por Isaac Maciel*]

Um conto que surpreende o leitor pelo estilo narrativo e pelo mergulho nos conflitos e angústias da alma humana.

Esqueço com facilidade, inclusive, nome de pessoas que convivem comigo.

Anoto obrigações num caderninho para evitar transtornos no dia a dia, como deixar de tomar meus remédios.

Curioso é que coisas de um passado distante me ocorrem com espantosa precisão, mesmo detalhes banais.

Dessas lembranças revivo as cenas como se acabassem de acontecer.

Neste instante me vem uma dessas lembranças, de quando eu tinha 18 anos.

Recordo-me da minha ida ao Convento.

O programa custava três paus, como propagava Daniel, colega de peladas:

— Dois da mulher e um do quarto, dizia-me –, gesticulando com o braço erguido, mão na altura do rosto, com três dedos em riste, enquanto informava o preço.

Juntei a grana, economizando da merenda e do transporte.

Fui ao Convento numa tarde chuvosa de quinta-feira. Seria mais discreto. Levava quatro contos e meio.

O Convento era um casarão antigo, pintado num amarelo desbotado, as portas e janelas eram de madeira, também envelhecidas, tingidas de azul.

A casa foi construída nos fundos de um sítio humilde, afastado da área urbana.

Cheguei lá no final da tarde, ainda cedo para um negócio que se processava naturalmente à noite.

Minhas incertezas eram muitas.

Começava a chover. Para não me molhar, me apressei, subi rapidamente os degraus, empurrei a porta entreaberta.

Na sala, duas senhoras tagarelavam próximo ao balcão do bar.

Havia sofás, mesas e cortinas, e na parede do canto, um grande espelho e um quadro de São Jorge com uma vela acesa.

Além da vela, só uma lâmpada incandescente iluminava o ambiente, percebi que as mulheres que conversavam não pareciam, com as deusas propaladas pelo amigo Daniel.

Eram comuns, e suas aparências eram semelhantes às das minhas tias. A mais nova aproximou-se de mim, e fechando a porta que eu deixara aberta, perguntou-me:

— O que o menino lindo veio fazer aqui, tão cedo?

Cheio de falsa convicção, respondi:

— Uma mulher! Ela, parecia hesitante, mas, em seguida, falou:

— Claro, venha!

Apontou-me o quarto e pediu-me para esperar.

Fiquei ali, aguardando o que viria.

Voltou seminua, segurando uma bacia branca de ágata com água até mais da metade.

Repousou a bacia sobre uma cômoda, retirou da gaveta uma toalha e umas barrinhas coloridas, pôs tudo sobre o móvel.

Dirigiu-se a mim com voz maternal:

— Você é tão lindo!

Sentou-se ao meu lado na cama e começou me tocar, pôs a mão entre as minhas pernas, mexia na minha calça. Um silêncio enorme encheu o quarto.

Constrangido, me sentia péssimo e não sabia como proceder.

Fui tomado de pânico, levantei-me num repente, coloquei o dinheiro junto da bacia e saí dali em disparada, enquanto a mulher protestava aos gritos, para que eu voltasse.

­A chuva intensa ganhava ares de tempestade pelas rajadas de vento, intercaladas por trovões e relâmpagos.

Eu poderia me abrigar sob uma das marquises a caminho de casa, mas não fiz, continuei. Angustiado, torcia para ser atingido por raios.

Fiquei dias recluso.

Eu era tímido e desajeitado; comecei a questionar a minha sexualidade. A dúvida me jogava num vazio mórbido.

Certo dia, na padaria, percebi Ângela, olhando insistentemente para mim.

Inseguro, me aproximei, puxando assunto, ela correspondeu num sorriso singelo.

Aquela postura restabeleceu um pouco a minha confiança.

— Pensei que você estudasse pela manhã –, falei para alimentar a conversa.

Não houve aula, explicou-me o motivo e tal. Angela ria e eu perguntei do que ria e ela respondeu sacudindo a cabeça:

– Faz parte.

Depois de breve exitação , acrescentou:

– A minha vida está sitiada.

Confesso que não entendi o que a incomodava.

Eu falava do cotidiano, das coisas comuns, ela esticava a conversa tentando expor seus desassossegos.

Confesso que não compreendia o que ela queria dizer.

Tudo era muito recente e eu temia questioná-la.

Angela era meiga e reservada.

Muitos rapazes tentaram sem sucesso se aproximar dela.

Morávamos na mesma rua.

O namoro que comecou na padaria aos poucos foi se consolidadando em segredo.

Os encontros se davam numa plantação de eucalipticos, no retorno dela do colégio, no final da manhã.

Eu estudava à tarde; notificaçoes de faltas começaram a rechear a minha caderneta escolar.

Quando a minha família foi morar naquela rua, eu tinha uns 15 anos.

Ângela já morava lá com a mãe e o padrasto.

Nunca tivemos qualquer aproximação.

A família dela era pouco sociável.

O casal saía cedo para trabalhar e voltava junto, era um dos poucos que possuía carro ali.

Ele era policial. A menina ia para a escola pela manhã. Não olhava para a esquerda e nem para a direita. Seguia o seu trajeto diário.

Era linda, e seus cabelos de milho voavam ao vento, enquanto caminhava apressada. Os garotos ficavam babando, mas ela não dava confiança.

Foi surpresa ela olhando para mim com aqueles lindos olhinhos azuis naquela manhã na padaria.

No primeiro dia do ano, na noite anterior, teve festa em todos os lugares, ela foi com a família passar o réveillon em outra cidade.

À tarde nos falamos; os pais estariam fora naquela noite.

Combinamos o encontro num recuo que conhecíamos na plantação de eucaliptos.

Ela deslumbrante!

A lua iluminava o ambiente entre as árvores e Ângela cintilava no vestido novo repleto de botões cobertos e pedrinhas brilhantes.

Entre conversas amenas, fui desabotoando o vestido para provocá-la, ela não ofereceu resistência, continuei.

Nos olhamos em silêncio.

Estávamos em pé, demos ns passos e encostei-me a uma jaqueira remanescente entre as árvores plantadas.

Ela, livre das roupas e até dos sapatos, tomou a iniciativa e me abraçou, prendendo-me com a perna levantada e apoiada numa protuberância da árvore e, com o braço contrário ao da perna que me segurava por baixo, me prendeu pela cintura e me beijou sofregamente.

O surpreendente despudor da menina desconcertou-me.

Flashes do prostíbulo, meses atrás, atingiam-me. Aqui eu não podia fugir em disparada.

Enquanto eu me consumia, ela parecia não perceber embaraço algum.

Puxou a minha mão para o seu sexo, onde meus dedos tatearam timidamente no início, mas, logo ganharam desenvoltura, e ela demonstrou prazer.

Aquele encontro produziu ranhuras que carrego comigo.

Ela se recompunha ao mesmo tempo em que falava, explicando-me que compreendia eu não a ter violado. Acho que nem notou se eu tive ou não ereção. Continuava na explicação, dando por mim, a justificativa: — Respeito! Ela achava que por respeito a sua virgindade eu não avançara. Concluiu, dizendo achar lindo o meu gesto. Puxou-me pela mão e chegando mais perto, confidenciou-me: — Não sou mais virgem! Já vestida, sentamo-nos num bloco de concreto, ela de frente para mim contou-me a sua história.    

— Eu, com quase doze anos, era uma mocinha acostumada, desde cedo, com elogios. Eu não me considerava bonita, era magra e o meu rosto sardento.

Calada e introspectiva; até os meus dez anos vivi com mamãe.

O meu pai morreu quando eu era muito pequena e dele guardo poucas recordações.

Era alemão, trabalhava num navio que fez escala no porto do Recife e que partiu dias depois, deixando pra trás o meu pai cheio de cachaça nos bordéis do cais.

Ele fez amizades com uns gringos que viviam da pesca no litoral e foi trabalhar e morar com eles.

Anos mais tarde, conheceu a minha mãe no carnaval. Ele, se apresentando, disse num sotaque esquisito para os ouvidos dela:– Sou Johannes.

Nove meses depois eu vim ao mundo e a minha avó ganhou um genro, que embora lindo, dava despesas.

João Alemão, como ficou conhecido, vivia bêbado e quase não trabalhava.

Segundo vovó, foram tempos difíceis, mas tudo acabou quando ele foi morto numa briga de jogo num bar.

Eu tinha quatro anos.

Mamãe se fechou em luto e durante um bom tempo não quis saber de homem.

Mamãe trabalhava na companhia de eletricidade, fui cuidada por vovó.

Ela gastava comigo quase tudo que recebia da aposentadoria.

Vovó parecia forte, mas se foi numa manhã de domingo.

Com a morte de vovó, a minha mãe entrou em desespero.

Chorou muito, blasfemou, praguejou contra a fé, mas aos poucos foi se resignando.

Passamos a viver sós em casa e fui me acostumando a me cuidar sozinha.

Ela saía antes das sete para trabalhar e retornava no início da noite.

Nos finais de semana saíamos juntas para irmos às compras, igreja ou à praia aos domingos.

Se passaram quase dois anos e, numa dessas idas à praia, surgiu Jonas.

Jonas era escuro, cabelos bons, pele limpa e um corpo sarado.

Era tenente da polícia.

A idade era a mesma da minha mãe, por volta de 32, gostava de trabalhar e tocava instrumentos de sopro na banda do quartel.

Dias depois do encontro na praia, passamos a ter mais um morador, que me chamava de anjo.

A rotina mudou, Jonas enchia o ambiente.

Exercitava-se diariamente, às vezes bem cedinho, e outras à noite.

Mesmo quando não estava em casa, não passava despercebido, pois largava suas coisas em cima dos móveis, no chão ou mesmo penduradas pelo banheiro.

Diversas vezes, eu recolhia seu estojo de barbear, calçados, cintos, livros e roupas, e levava tudo para o quarto da mamãe.

Jonas tinha um carro, mamãe passou a ir e voltar com ele diariamente como se trabalhassem juntos.

À noite conversávamos, às vezes ensaiava seu clarinete. Depois do jantar iam para o quarto deles e eu para o meu.

Certa vez, já fazia meses que Jonas morava conosco, era sábado, fomos à praia e voltamos, pouco depois do meio-dia.

Em casa, encontramos um pessoal do trabalho de mamãe esperando por ela. Era urgente e ela foi com eles solucionar o problema, e só voltou no início da noite.

Quando mamãe saiu, fui tomar banho para me livrar do sal e da areia da praia.

Percebendo que havia pouca água no barril, me preocupei com o fato e chamei Jonas para alertá-lo sobre o quanto tínhamos de água para tomarmos banho e ainda deixar para mamãe.

Ele exclamou:

– Caramba!

E com naturalidade, resolveu de imediato:

– Vamos economizar. Para não gastarmos muita água, eu vou derramando aos poucos em você…

E logo desatou a parte de cima do meu biquíni. Tentei esboçar resistência, mas ele agia tão natural que deixei. Ele retirou a minha roupa e me deu banho.

Lembrei-me da minha avó esfregando meu joelho e calcanhar com esponja ensaboada. Jonas não usava esponja, lavava-me deslizando suavemente a sua mão.

Na altura das coxas, afastou as minhas pernas e ordenou:

– Aí lava você!

Eu que estava tesa, me movimentei. Ele derramou mais água e seguiu para as costas, retirando espumas e massageando meus ombros.

Não tocou nos meus seios que, ainda pequenos, estavam arrepiados.

Mas notei seu olhar neles, enquanto despejava água sobre o meu rosto.

Depois, com a mesma singeleza com a qual iniciara meu banho, retirou a própria sunga.

Agachado, pediu-me para despejar água na sua cabeça.

Com o nariz na altura do meu umbigo ele segurou minha perna, eu recuei num repente e, pegando a toalha, saí.

Reencontrei Jonas mais tarde, quando minha mãe retornou da emergência no emprego. Ela já entrou em casa chamando por mim, pedindo que eu pusesse a mesa, enquanto ela tomava banho e se trocava para jantarmos a pizza que ganhou.

Em recompensa, acho, deram a ela uma pizza grande numa caixa de papelão bem colorida e refrigerantes.

Na mesa, a minha mãe parecia satisfeita por ter resolvido o problema por lá.

Estava visivelmente feliz e contente com os elogios recebidos.

Jantamos, e eles foram para o quarto.

Acredito que o bom humor da minha mãe influenciou na noite deles. Pois enquanto eu, no sofá, refletia se contava ou não para a minha mãe sobre a história do banho, ouvia o intenso ranger da cama, gritinhos, risos e gemidos dos dois.

Decidi não contar.

Fiquei mais um tempo ali, escutando, depois me retirei. Custei dormir, aqueles fatos suscitavam ideias e projetos esquisitos, afinal de contas, ele era o homem da minha mãe.

A vida seguiu a rotina de sempre. Meses depois, no aniversário da mamãe, resolveram fazer um almoço para meia dúzia de amigos do trabalho dela.

Bebidas não eram comuns em casa, mas naquele dia havia vinho e cervejas, muitas conversas, risos e música.

Eu colocava os discos, eles dançavam e bebiam.

No final da tarde os convidados se foram e a minha mãe, visivelmente afetada pela bebida, foi para o quarto, mas Jonas continuou ouvindo música e pegou-me para dançar.

A música era envolvente, e ele empolgado me puxou para si, quase colado.

Estava excitado. O ritmo favorecia o movimento, ele se abaixava um pouco e ia subindo, requebrando no ritmo da canção.

A faixa acabou e ele foi trocar o disco bem na hora que ela apareceu. Ela percebeu alguma coisa, pois deu uma bronca nele, gritou comigo e acabou a festa.

Continuaram brigando.

Ele parou de me chamar anjo e trazer mimos. Estabeleceu-se uma relação equidistante. Jonas se dirigia a mim para falar o essencial.

Assim, fui crescendo e compreendendo melhor as coisas.

Ano passado, eu com dezessete anos, com uma virose forte, tive febre alta e passei o final de semana acamada.

Antes de mamãe sair para o trabalho, na segunda-feira, foi ao meu quarto e, com as costas da mão no meu pescoço, constatou que eu ainda tinha febre, me deu comprimidos, recomendou que eu não fosse para o colégio naquele dia.

Foram para o trabalho.

Lá pelas dez horas, reuni forças, comi alguma coisa, tomei um banho frio, voltei pra cama e me cobri da cabeça aos pés, sem me vestir.

Fui despertada pelo barulho inconfundível do carro de Jonas.

Ele raramente vinha em casa em dia de semana pela manhã.

Ouvi a porta da casa sendo aberta com cuidado e logo trancada por dentro.

Era ele.

Veio até o meu quarto, empurrou de leve a porta e, ao me perceber deitada, saiu.

Imaginei que tivesse esquecido algo e que teria vindo apanhar e voltaria para o quartel, mas não.

Minutos depois, ele voltou. Pelo tom que adotou ao falar comigo, ficou claro a que veio.

Falou-me baixinho, com ternura: – Vim cuidar de você.

Tive medo, sonolenta, respondi demostrando estupefação:

– O quê?

Ele prosseguiu, vou fazer você se sentir melhor.

Pediu-me para virar de costas e começou me massagear, derramava aos poucos um óleo aromático e quente em mim, que ia espalhando com muita habilidade.

Tentei cobrir a parte de baixo do meu corpo, puxando o lençol, mas ele impediu, segurando o meu braço.

Deitou-se ao meu lado fazendo-me carícias.

Resisti. Ele insistiu. Beijei-o.

Passei o resto do dia pensando no ocorrido e quando dias depois ele voltou a me procurar eu disse que não, ele não aceitou e a cada negativa aumentava a pressão tornando a minha vida num inferno.

Ele me acusa de tê-lo seduzido, me ameaça, me bate e me obriga fazer o que não quero, escondo-me da minha mãe.

As visitas dele se tornaram frequentes.

No dia que eu te encontrei na padaria ele…

A lua ia alta. Ouvi calado o relato, ela queria contar mais, pedi que parasse. A história, para mim, era chocante.

Eu tinha os meus problemas, achei que ela seria solução, ela tinha os dela.

Nos despedimos com um beijo rápido na esquina de casa e esperei até ela entrar e fechar seu portão.

Dias depois mudaram-se, nunca mais soube deles.

*O autor é editor da Valer e jornalista.

 

15.6.2017

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.