Imaginações em confinamento na frequência global covid-19 [ Por Marcus Stoyanovith]

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Apesar da confusão no calendário sobre qual é mesmo o dia da semana, Edgar Morin, pensador francês, nos estimula a ver os dias em confinamento bem diferente um dos outros.

Nessa visão, a desintoxicação deve ser feita pra lá da calçada de casa, num movimento de (re)volta pela janela da alma.

Isolamento social é um binômio paradoxal, pois a máxima de um convívio social é o aprendizado cotidiano em comunidade, não isolado.

Mas este isolamento é necessário por brotar de razões auto protetivas e de solidariedade.

E além de tudo pode proporcionar reflexões e trazer de volta habilidades sensoriais que estão se perdendo no dia-a-dia, por exemplo: capacidade de contar até três antes de falar ou fazer alguma besteira.

Afundar o pensamento no que dizer ou fazer é o que menos tem interessado às pessoas nesses tempos de pós-verdade e de novo ataque global de vírus mortal.

Daí o tal isolamento social dando a chance de outras formas de se ver o mundo.

A necessária fuga do pensamento dominante do “ou é isso ou aquilo” ou do “oito ou oitenta” vai ser uma delas.


Nessa frequência da covid-19, a cabeça reclusa leva a perceber que as mãos ganham outro contexto para além das funções de tato e devem ser vistas como veículos que transportam saúde ou doença para dentro do corpo.

Só lhes acrescentando este lado vilão é que, talvez, continuem cuidadas pós-pandemia.

Os pés bem que podem entrar nessa “vibe” e ganhar percepções mais justas para sua função e importância no conjunto do corpo humano.

Principalmente, se eles são de um portador de diabetes. Nesse caso, eles ganham status de coração.

Esse mergulho solitário não é aquele que se distancia da superfície (onde as coisas acontecem) sob o risco de divagações pensativas.

É naquela profundidade que basta contar até três e ir um pouco além da primeira audição, visão, impressão, do primeiro tato ou paladar…da primeira imagética.

De certo que em casa a chance de se desprender de outro cotidiano, o digital é zero. Porém, mesmo com ele impregnado na realidade de cada um, há um precioso comportamento entorpecido que pode ser resgatado em meio ao turbilhão de informações recebidas: a paciência.

Com a paciência pode-se construir filtros e com eles selecionar (na origem), antes mesmo da busca, informações úteis dentre o oceano informacional disponível na internet.

A desintoxicação também pode trazer de volta o prazer na virada de página de um livro em leitura e perceber que é mais saudável do que ouvir a mídia com políticos usando a pandemia como meio de obtenção de lucros, através de Governos ou vendas superfaturadas de produtos.

“Ou é isso ou aquilo”, o “oito ou oitenta” são doenças sem vacina em curto prazo.

Mas também, assim como na aniquilação das pragas viriais, a vacina para esta doença tem que ser estudada.

O negócio é mergulhar já na contagem do 1, 2, 3 antes de mais nada.


Nessa contagem vê-se que a economia pode girar em outro ritmo, noutra compreensão. Pode-se saber que é uma balela dizer que as bolsas quebram em razão do novo vírus. Elas quebram nesse modelo econômico-financeiro-especulativo, não por causa da covid-9.

E não será um novo Plano Marshall a solução. Deve haver um plano de mudança que não deixe nações de joelhos ou devedoras eternamente dos sistemas financeiros mais poderosos.

Já o isolamento temporário está causando mais rejeição ao convívio doméstico do que temor pela contaminação ou quebradeira econômica geral.

Subliminarmente, pode equivaler à incapacidade adquirida de se ficar a sós por intervalos de tempo prologando com a necessidade de manter-se produtivo em busca de dinheiro.

Enfim, o isolamento é uma oportunidade de se ver livre de noticiários viciados e de fazer pesquisas em sites mais especializados.

A mídia poderosa ganha ao noticiar, à conta gota, o número de novos casos e óbitos, deixando como única impressão o pavor do aumento da doença.

No mais, contando até três, desintoxica-se e as imaginações se tornam mais fortes que as fantasias (induzidas ou não).

O cotidiano ganha brilho próprio e a ideia de que passado, presente e futuro coabitam fica mais compreensível.

Afinal, a desintoxicação, poderá fazer perceber que as aves voam porque estão no céu e não apenas por terem asas (como refletem os antigos na vã filosofia).

Pois, as aves galinha e pavão também as têm, mas não voam.

*O autor é jornalista e roteirista de cinema.

 

 

 

 

 

 

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