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“Pretendo ficar aqui para sempre”, disse Margarita, em 2013

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 A spalla da Filarmônica do Amazonas, Margarita Mihailova Chtereva, faleceu ontem, em sua residência, em Manaus, enquanto dormia.

Eu e a jornalista Suelen Reis entrevistamos, em outubro de 2013, a spalla da Filarmônica do Amazonas, Margarita Mihailova Chtereva, para a revista Valer Cultural, editada pela Editora Valer.

Sua morte está sendo investigada como possível caso de coronavírus, em razão da viagem que fez, recentemente, à Sófia (Bulgária), sua cidade natal, com passagem pela Itália.

Em outubro de 2013, eu e a jornalista Suelen Reis a entrevistamos para a edição n.º 7, out./nov., da revista Valer Cultural, publicada pela Editora Valer.

Naquele momento, ela lembrou das circunstâncias que a trouxeram a Manaus e do amor que passou a dedicar a cidade, onde também ganhou um filho e uma filha, Luiz Fernando e Eva, e centenas de alunos, os quais também tratava como membros  de uma grande família.


Abertura da entrevista na revisa Valer Cultura, com arte de Heitor Costa

Suelen Reis e Wilson Nogueira

 Quando chegou a Manaus, em 1997, a violinista búlgara Margarita Mihailova Chtereva, 42, não imaginava que tanto tempo passaria na cidade.

Dezesseis anos depois, a spalla da Amazonas Filarmônica está totalmente adaptada ao cotidiano manauense e nem pensa em trocar de chão.

Com passagens por orquestras do mundo inteiro, nesta entrevista, ela fala sobre a importância do ensino da música clássica, a trajetória do segmento no Estado, o cenário atual, o estereótipo que acompanha os profissionais da música, além do amor pela cidade que a acolheu.  Confira! 

 

Wilson – A senhora afirma que a oportunidade de ensinar música clássica para brasileiros lhe trouxe a Manaus. A senhora encarou essa oportunidade como desafio?

Margarita – Vim para Amazônia trabalhar com música. Fui contratada, em 1997, por meio de um concurso público que o Amazonas realizou em vários países, e que tinha o maestro Júlio Medaglia como curador.

O Estado “garimpou” músicos da Rússia, Bulgária, EUA, Argentina e Uruguai.

Achei o trabalho muito interessante, porque, no contrato, havia uma cláusula determinando que daríamos aulas para três alunos da cidade obrigatoriamente. Foi um estímulo!

Hoje em dia nós temos muitos amazonenses na orquestra e posso dizer que a maioria foi formada por mim, são meus alunos.

Wilson – E como foi no início? A senhora sentiu dificuldades em ministrar as aulas?

Margarita – A grande dificuldade é que eu não sabia falar português. Aprendia as primeiras palavras com meus alunos pequenos.

Foi difícil, muito difícil, mas posso dar parabéns a esse governo, porque, pelo menos quando chegamos, eles nos deram curso de português para iniciantes.

Nenhum governo do mundo faria isso para ninguém. E foi interessante pra mim. Mas depois, passei a estudar sozinha.

Outro problema foi a adaptação ao clima da cidade.

Eu passei muito mal: tinha pressão alta, não conseguia respirar.

Era uma panela de pressão e eu queria logo me mandar daqui. No segundo mês, decidi voltar para a Bulgária.

Então, fui encaminhada ao médico Aristóteles Alencar, para pegar um atestado. Só que esse atestado nunca foi emitido.

Ele simplesmente me mostrou os melhores lugares de Manaus. Para mim, a cidade acabava na [avenida] Getúlio Vargas.

Quando ele me apresentou a Ponta Negra e me mostrou os outros prazeres da cidade, decidi ficar.

Quanto ao ensino da música, nunca tive dificuldade em administrar aulas porque a música é universal, não precisa falar, tem que mostrar como se faz, tem que tocar. O contato com os alunos foi sempre muito bom.

Nunca vou esquecer a minha primeira turma.

Suelen – E como a senhora avalia a trajetória da música clássica nesse período? Mudanças no cenário, formação de plateia…

Margarita – A plateia ficou muito mais educada depois desses 16 anos.

Quanto à orquestra, posso dizer que a Amazonas Filarmônica é uma das melhores, e não só no Brasil.

Muitos lugares no mundo desejam ter uma orquestra com a nossa Filarmônica, com grandes músicos de diversos países e que se dão muito bem. Os regentes são maravilhosos.

Nunca vou esquecer o maestro [Luiz Fernando] Malheiros, meu concurso de spalla, o trabalho do maestro Marcelo de Jesus.

Agora temos também o bisneto do Carlos Gomes, o Otávio Simões. Na verdade, nossa equipe é maravilhosa.

Muita gente tentou fazer orquestra aqui no Amazonas, mas acho que agora deu certo.

Em 1997, quando começou tudo isso, foi um passo muito grande para o Amazonas, pois hoje temos espaços como o Claudio Santoro, Faculdade de Música [Liceu de Artes e Ofício], teatro lotado e com o público muito mais educado.

Antes, todos batiam palmas entre os momentos. Hoje não. Fico impressionada com isso!

Também, naquela época, havia só uma loja de instrumentos musicais de qualidade na cidade, hoje existem várias. Estou adorando tudo isso! Esses recursos ajudam muito a cultura daqui.

Suelen – A senhora também coordena um projeto que tem o intuito de encontrar talentos para depois incentivá-los para a graduação em música…

Margarita – O que mais me faz feliz é esse projeto de extensão [Projeto Musicando, da Escola Superior de Artes e Turismo, da UEA] criado para incentivar crianças e adolescente ao aprendizado da música clássica e, ainda, despertar o interesse para o início da graduação nesta área.

Lembro-me do Medaglia dizendo: “Toda criança que bate na lata de refrigerante e bate no ritmo certo, precisa estudar música”.

Concordo! Aqui muitas crianças aprendem. Atualmente 120 meninos e meninas aprendem a tocar vários instrumentos como piano, flauta, flauta-doce, violino, contrabaixo, violão, viola.

Não é uma escola, é um curso onde todos são obrigados a estudar muito, porque nosso objetivo é profissionalizar.

Queremos fazer muita gente passar no vestibular. E para mim é um grande prazer ajudar o amazonense a aprender violino, a gostar de música clássica.

Wilson – E quais os principais fatores que determinam a formação de bons músicos?

Margarita – Desempenho e disciplina. Estes são os principais fatores para ser um bom músico. Indisciplinado não aprende a tocar instrumentos.

Muitos chegam aqui sem saber para onde vão. Não têm noção do que é um instrumento musical clássico.

Quem não toca quatro, cinco horas por dia é difícil ser músico. Estudar um pouquinho não vai resolver. Tem que estudar muito, sempre.

Fazer música também não é só tocar, tem que ler muito, tem que saber os estilos, tem que ter uma cultura muito maior do que se imagina.

Para isso é preciso, ainda, desenvolver a memória do músico. Tudo isso é um complexo muito grande.

Mas o Amazonas dá todas as chances para os jovens aprenderem música clássica e com a situação ideal: aqui eles têm ar condicionado o dia todo, têm professores com mestrados e doutorados.

Acho que não falta nada, só o desempenho ser maior. Vontade. Estudar, aprender. Porque, quando criança, eu tinha muita vontade de aprender. E não fiquei só olhando, pensando que gostaria de tocar. Aprendi trabalhando muito.

O primeiro fator para o sucesso na música é o trabalho, basta apenas 1% de talento para ter sucesso.

E o mais importante: o músico tem que pensar no instrumento como parte do corpo e não uma coisa separada que fica guardada na caixinha. Se não cuida do seu instrumento, não é músico.

Suelen – Essa rotina de exercícios diários, a exigência da disciplina, as regras impostas também contribuem na formação do indivíduo…

Margarita – Sim. Esse fator “disciplina” ajuda muito. O músico organiza muito a cabeça.

Uma pessoa que toca um instrumento muda o pensamento. Não assiste TV o dia todo, nem perde muito tempo jogando vídeo game.

Eu recomendo a todo mundo que toque porque, com certeza, vai perder esses vícios eletrônicos, de internet que é um perigo para crianças e adolescentes. E a música é uma terapia, desestressa.

Toda criança que aprende a tocar Cai, cai balão, com certeza fica mais feliz do que quando joga vídeo game. Eu garanto! Eles têm que se orientar na música.

Wilson – Mas músico ainda é um profissional estereotipado… 

Margarita – É verdade! Ainda falta estímulo para jovens – e, principalmente, para as famílias – verem a música como trabalho sério, como uma carreira profissional.

No Brasil as pessoas só valorizam três profissionais: advogado, médico e dentista.

Por isso é difícil arranjar motivo para uma pessoa para fazer arte. Essa história de que músico é uma profissão fácil não é verdade.

Artista, músico é profissional sério sim, e, também, ganha dinheiro, e muito. Os pais não podem desestimular os filhos. E nem dizer pra parar de tocar para ser um grande advogado.

Acontece muito com os alunos de chegar na época de fazer o vestibular – e, mesmo tocando maravilhoso, sendo uma promessa na música – ser obrigado a prestar vestibular para Odontologia, Medicina ou Direito. Isso me mata!

Suelen – E quando a decisão é viver de música. Como são os conflitos aluno-família-universidade?

Margarita – Essa é outra questão séria. Viver de música é delicado porque o músico precisa ter a compreensão, o apoio da família.

O primeiro passo é o vestibular. Todo mundo pensa que vestibular é só a parte teórica e eu sempre falo para as mães: “Para de gastar dinheiro com cursinho, porque seu filho pode reprovar na prática”. Eles têm que treinar.

As famílias têm que entender que o jovem pode passar em primeiro lugar no macro, mas se reprovar na prática, não vai entrar na universidade.

Alguns fazem a prova várias vezes, mas é melhor do que vir despreparado. Não adianta acompanhar a aula teórica e não acompanhar a prática.

É uma questão de tempo da pessoa amadurecer para entrar na faculdade. Nada pode atrapalhar um aluno de chegar ande ele quer.

Suelen – A senhora teve passagens por grandes orquestras, de diferentes países e resolveu se instalar definitivamente em Manaus. Qual a sua relação afetiva com a cidade?

Margarita – Quando decidi vir para Manaus, vim por puro entusiasmo, tinha emprego fixo, era solista na [Orquestra Nacional de] Ópera de Sófia, com a qual me apresentei em países como Grécia, Coreia, Alemanha, Japão, EUA, Rússia, Bélgica, Suíça, França, Hungria, República Tcheca.

Mas me apaixonei por Manaus. Eu amo esta cidade. Pretendo ficar aqui para sempre.

Quando estou estressada, vou lá para beira do rio e me acalmo vendo os barcos passarem.

Manaus também me deu meus dois filhos adotivos: o pequeno Luiz Fernando, de quatro anos, que ganhou esse nome do maestro, que também é padrinho dele, é uma criança maravilhosa; e Eva, que eu ganhei um ano depois do Luiz Fernando, e que é maior de idade.

Ela vai ser cantora de ópera. Não tenho coragem de tirar eles de Manaus.

O pequeno, por exemplo, não vive sem farinha, quando não tem em casa, ele diz logo: “mãe, cadê minha farinha?”.

Também tenho a Adriana e o Ricardo de Souza que trabalham para mim, que são minha família.

Sem eles dois não conseguiria fazer nada na minha vida.

Esse carinho, essa atenção constroem uma vida.

Manaus é a segunda cidade da minha vida.

Não gosto nem de viajar.

Indo passear na Ponta Negra, no Parque dos Idosos – que para mim, é o lugar mais tranquilo da cidade -, no cinema e no Largo de São Sebastião com as crianças, está ótimo!

Eles estando bem na escola e eu tendo o Teatro Amazonas para tocar, tenho tudo. A vida aqui é incrível.

Wilson – A senhora fala com tanto entusiasmo sobre o Teatro Amazonas, que é um espaço conhecido em todo o mundo. A senhora já tinha vontade de se apresentar naquele palco?

Margarita – O Teatro Amazonas faz parte da nossa vida, do imaginário de músicos de todo o mundo.

Nesse palco já passaram grandes maestro, cantores, músicos. É a minha segunda casa. Onde trabalho e me divirto assistindo a outros espetáculos.

Se ele pudesse falar, confirmaria isso o que estou dizendo. É um lugar todo mágico. Gosto de olhar para as máscaras esculpidas nas colunas, para os lindos desenhos. É um dos mais bonitos que vi na vida.

Na Bulgária temos muitos teatros também, mas esse é especial. Lá eu fico calma, me sinto bem. E também toco com muito amor para as pessoas, para eles relaxarem, tirar o estresse do trabalho. Gosto muito do povo amazonense, é um povo muito amável, acolhedor.

Wilson – A senhora já se mostrou apaixonada, totalmente adaptada ao Amazonas. E da Bulgária, o que lhe acompanha?

Primeiro meu pai, Mihail Chtereva, falecido desde 1993, que me adotou e me fez violinista. Tinha toda paciência e carinho. Aprendi a tocar com ele.

Minha última professora na faculdade que se chamava Dora Ivanova, uma mulher incrível. Quando tinha qualquer dificuldade, ela resolvia. Ensinou-me a tocar com muita técnica.

Quando eu passei como spalla da Filarmônica, agradeci a Deus, ao meu pai e à Dora. Porque se sou o que sou agradeço tudo que foi feito por mim na Bulgária. Mas, depois que sai, nunca mais voltei lá. Minha vida se divide em dois lados.

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