Deprecated: A função Advanced_Ads_Plugin::user_cap está obsoleta desde a versão 1.47.0! Em vez disso, use \AdvancedAds\Utilities\WordPress::user_cap(). in /var/www/html/amazonamazonia.com.br/web/wp-includes/functions.php on line 5381

Tradutor diz que livro de Edward Mathews está entre clássicos sobre a globalização na Amazônia

Compartilhe:
Hélio Rodrigues Rocha, tradutor e pesquisador da UNIR

A Editora Valer acaba de inserir em seu acervo mais um título com temática amazônica: Viagens pelos rios Amazonas e Madeira – Brasílio, Bolívia, Peru – 1872-18743, do engenheiro inglês Edward Davis Mathews, traduzido pelo professor Hélio Rodrigues Rocha, pesquisador da Universidade Federal de Rondônia (UNIR).

A obra é recomendada pelo tradutor ” [para] pesquisadores de todos os cantos do mundo, do Brasil também e da própria bacia amazônica […], uma vez que Mathews está entre os viajantes que elaboraram a existência discursiva da região, como Orellana, Acuña, Cabeça de Vaca, Pinzon,

Raleigh, La Condamine, Humboldt etc.


O livro já está disponível no Catálogo da Valer


Mahews, designado engenheiro residente da Ferrovia Madeira-Mamoré, tornou-se, também, uma voz orientadora no império britânico,  para a compreensão da geopolítica das “amazônias”, graças a ampliação da sua jornada descritiva para a Bolívia e para o Peru.

Na opinião de Hélio Rocha, Mathews traçou, por meio das suas observações, as primeiras linhas do processo de globalização da região, embora esse termo não estivesse em uso na época.

Vale ressaltar que a tradução é deslindada por pesquisador e intelectual, cuja percepção é de quem se alimenta das histórias e do imaginário amazônico entrelaçados.

Por tudo isso, Viagem pelos rios Amazonas e Solimões […] é um livro que estará nas mãos de pesquisadores, professores, estudantes e apreciadores da escrita edificante. 

Confira a entrevista: 

Em que momento um tradutor decide que está diante de uma obra cuja tradução é necessária?

Faz alguns anos que tomei a decisão de estudar relatos de viajantes de língua inglesa pelas Amazônias, no plural, porque me refiro às construções discursivas sobre essa região do planeta construída, discursivamente, como Amazônia; de fato, um mito transplantado para essa parte do globo pelos europeus no século XVI.

Viajantes como Francisco de Orellana, Acuña, Cabeça de Vaca, Pinzon,  Raleigh, La Condamine, Humboldt e outros se encarregaram de levar adiante essa transplantação mítica; e aí alinharam-se muitos outros, como El Dorado, Paraíso Terrestre, também o Limbo, aliás H. M. Tomlisnon afirma em seu relato O mar e a selva, que estar na região de Santo Antonio do Alto Madeira era como se estivesse no Limbo.

Como eu nasci no rio Purus e bebi e bebo de suas águas, costumava ouvir histórias de viagens, de explorações, de encontros com o Mapinguari, com a Mãe da Mata, com o Boto etc. e me punha a imaginar vivendo tais experiências insólitas.

Assim, apaixonado pelas viagens e pelos relatos extraordinários das aventuras e desventuras desses viajantes, que ainda hoje perambulam por essas terras, rios e pelos ares, estudei e estudo a língua inglesa a partir de relatos de viagem.

Percebendo que há vários, inúmeros relatos ainda inéditos em nossa língua amazônica-brasileira, parti para o estudo, a investigação da geografia desses ambientes viajados, da história, da antropologia e, obviamente, da tradução. Sim, é preciso traduzir, ou melhor (des)traduzir esses discursos.

Creio que, a partir daí, é que poderei assumir uma posição-sujeito mais consciente do que dizem de nós, sobre nós, de nossas vidas e costumes; como dizem e por que dizem e ainda, “o que podemos fazer com isso”.

Mas voltemos à pergunta.

Mesmo que o relato de Edward Mathews, engenheiro da EFFMM, tenha sido escrito há 144 anos, ainda é atual; ainda não conhecemos várias experiências dessa empreitada que dizimou culturas, vidas, sonhos e destroçou corpos de várias nacionalidades.

Precisamos conhecer esses dados sobre a EFMM, bem como sobre outros empreendimentos capitalistas nas Amazônias; precisamos mergulhar nesse passado que é presente e discutirmos certas projeções políticas, econômicas e culturais, tendo como base, como infraestrutura discursiva, esses olhares outros.

Trazer à tona essas representações construídas por viajantes estrangeiros sobre nossa gente, nosso mundo, é importante, porque nos ajuda a n os descolonizarmos mentalmente.

Creio que ainda temos muito a investigar sobre essa região Madeira-Mamoré, Purus, Juruá, e os nossos países limítrofes.

Até o momento, a EFFM aguarda que a sua Odisseia seja escrita.

O romance sociológico A ferrovia do diabo, de Manuel Rodrigues Ferreira, é um grande feito, Mad Maria, de Márcio Souza, também o é, como ainda faltam os olhos negros indígenas, que ficaram para atormentar essa bendita” Modernidade.

É por isso que me debrucei sobre Up the Amzon and Madeira Rivers, de Mathews. Agora o leitor pode se deliciar em suas páginas quentes, douradas, racistas etc.

No caso dessa obra de Edward Davis Mathews, quais fatores o levam a colocá-la diante dos leitores de língua portuguesa.

O que me levou a traduzir o diário de Edward Mathews, dentre outras questões, foi o percurso viajado por ele quando do fracasso da primeira tentativa de construção da EFFM, (1872-1874).

Poucos conhecem esse trecho da bacia do Mamoré; poucos conhecem a história da neocolonização dessa região, até porque os textos deixados, em sua maioria, estão em língua inglesa, francesa etc. e nem todos são proficientes nesses idiomas. “Descer é muito mais fácil do que subir”, como afirmo na apresentação da obra.

E Mathews fez isso, até porque essa seria a sua contribuição: a indicação da abertura de portos nos rios da Bolívia.

Só a construção da EFMM não resolveria o problema de encarceramento da Bolívia.

E aí temos uma Geopolítica que, por conta de iniciativas como a Mathews, essa região é globalizada.

Até que ponto podemos dizer que foi uma boa inciativa? Pode-se discutir.

Também, a construção da EFMM não tiraria a região da barreira comercial.

Como os produtos da Bolívia chegaram à EFMM? Quais os meios de transporte? Havia estradas? Navios a vapor nesses rios superiores. Nesses rios acima das 19 cachoeiras do Madeira?

Traduzi porque aprendo, traduzi porque sou apaixonado pelas Amazônias, traduzi porque a satisfação de ser lido basta a um tradutor; enfim, traduzi porque Mathews, apesar de seu olhar eurocêntrico, foi um visionário a serviço do império britânico; de fato, a serviço da globalização, mesmo que com outro nome na época.

Quais os desafios para a tradução dessa obra, levando-se em consideração o período e o contexto em que ela foi escrita?

Foram muitos os desafios linguísticos, geográficos e culturais. Mas a internet me ajudou a conectar-me com estudiosos dessa região, com pesquisadores desses rios.

As estradas também me levaram a alguns lugares ás margens do Madeira, do Mamoré e do Beni; as cidades, as pessoas também me ajudaram muito a conhecer in loco essa região viajada por Mathews.

Obviamente, não pude refazer o percurso de Mathews, e não preciso explicar o porquê, pois quem pesquisa sabe o que enfrentamos. A miopia impera. A falta de incentivos financeiros também.

Entretanto, não posso avançar sem ter noção do passado, porque ele está aqui no presente e caminha comigo adiante.

É corrente a ideia de que a leitura dos chamados viajantes é, hoje, mais direcionada a estudiosos, a pesquisadores. Esse livro ajuda a quebrar ou a reforçar esse pré conceito)?

Bem, eu apenas fiz um estudo, uma interpretação do discurso de Mathews, e realizei, com a ajuda de vários campos do conhecimento, o processo tradutório.

Acho que qualquer leitor interessado em conhecer a região amazônica deve ler os relatos dos viajantes.

A questão é que só se “descobre”, só se é colocado em contato com esse gênero – pelo menos isso aconteceu comigo – quando se vai para um curso de graduação na área das Humanas.

O mundo, a meu ver, anda carente de professores-leitores e investigadores nessa área. Qualquer adolescente pode ler um relato como o de Mathews, mas para isso, temos que apresentar a obra a ele. Falar da importância da leitura de um bom relato de viagem.

Isso alarga a mente, abre o horizonte, eleva o espírito e a alma. Não acho que reforce esse preconceito, porque as redes sociais podem ser de grande valor para expandir essa área do conhecimento.

Qual o público alvo de Viagem pelos rios Amazonas e Solimões, hoje?

Todo escritor espera e escreve para ser lido também. Escreve para expandir-se e expandir o mundo. Para exercitar a sua humildade. Para se acalmar e ajudar o outro, o irmão, a irmã…

O rio Amazonas ainda é o preferido nas viagens pela região amazônica, porque ele é o canal principal, ele é o tronco que recebe os seus tributários.

O Madeira ainda é um rio novo, de mistérios e ainda pouco estudado.

Assim, pesquisadores de todos os cantos do mundo, do Brasil também e da própria bacia amazônica são os leitores potenciais.

O senhor é filho, morador e estudioso da região descrita por E.d. Mathews. O senhor se reconhece nos relatos dele?

Sou natural do rio Purus. Nasci defronte à cidade de Lábrea, num grande goiabal, cheio de animais: bois, cabras, cavalos e muitas aves e peixes… Sou labrense, portanto.

E por isso, investiguei a vida e o tempo de Antonio Rodrigues Pereira Labre, o homem que colonizou a região nos idos de 1872 – 1897.

Entretanto, como sonhava tornar-me o que me tornei, ou seja, um pesquisador na área das Humanas, mudei-me para Porto Velho no natal de 1993.

E nessa cidade, me dedico ainda mais aos estudos desde essa data; continuarei adiante, pelos anos que o Criador permitir.

Me vi na canoa de Mathews, porque para traduzir é preciso viajar junto. É preciso amar a viagem.

Me reconheço em todos os relatos que estudei, que traduzi. No sofrimento do viajante e, em especial, no dos povos viajados. É ao lado deles que me posiciono, porque sou caboclo também.

Foi dessa terra e desses rios que vim, que me constitui como “gente’, sem desprezar a Natureza e os seres vegetais e animais. Faço parte desse todo, que é a própria vida amazônica.

Em que medida esse livro ajuda a compreendermos a construção de uma ferrovia na Amazônia, uma vez que existem outras dezenas de livros abordando esse tema?

Até o momento, não conheço outro relato dessa época que tenha feito esse mesmo percurso feito por Mathews – do Atlântico ao Pacífico. Ele usou vários meios de transporte também e isso é emocionante. Quantas aventuras!

A leitura do relato de Mathews nos dá uma noção do que precisava ser feito para que a EFMM fosse um sucesso capitalista, como já comentado. Ela era o trecho final dessa abertura. O começo estava a ser feito em território boliviano e isso não está dito em outro relato.

Por que, na sua opinião, esse engenheiro residente da madeira-mamoré acabou produzindo um relatório de estratégia geopolítica para o governo inglês?

Mathews era um soldado do império e, portanto, era pago para executar esse levantamento político e econômico da região. Acho que ele uniu o útil ao agradável.

Mathews cumpria o que o seu contrato preconizava. Em certa parte do seu relato ele diz que precisava cumprir o prazo que lhe fora dado para realização desse inventário. O relatório que ele entregou ao Coronel George Church, que era o presidente da Empresa Madeira Mamoré Railway comprova essa assertiva. (Na introdução da tradução do relato, o prof. Dante Fonseca  (Universidade Federal de Rondônia, Departamento de História) trata desse relatório).

O senhor está satisfeito com o projeto gráfico-editorial da Editora Valer?

Estou muito satisfeito e alguns leitores já deram o feedback dizendo a mesma coisa. Parabenizo a Editora Valer pelo trabalho.

 Há outras obras em andamento?

Sim. Estou traduzindo do relato intitulado Un unknown people in an unknown land, do missionário anglicano W. Barbrooke Grubb, fundador da primeira igreja anglicana no Chaco Paraguaio. É sobre a vida e os costumes dos indígenas Lengua, do interior do Chaco. É uma obra bastante antropológica. Espero ter a satisfação de submetê-la à Valer em breve.

 

Compartilhe:

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.