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“Antártida: cartas do fim do mundo”, o novo livro de Bruna Chíxaro

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Depois de conhecer lugares da América, Europa, Ásia, África e Oceania, nos quais estudou, fez turismo e prestou serviços de solidariedade, a amazonense Bruna Chíxaro partiu para a Antártida, o  continente no qual ela ainda não havia estado.

De lá, ela escreveu para 11 amigos, aos quais narrou o cotidiano da viagem em um navio quebra-gelo, a convivência com o gelo e seus ilustres moradores – entre os quais, pinguins, focas e orcas – e, sobretudo, as suas reflexões a respeito da relação entre os seres humanos e o planeta.

Surgiu então Antártica: cartas do fim do mundo (Valer), que já está à venda, embora aguarde oportunidade de lançamento em Manaus (AM), que ocorrerá assim que a pandemia da Covid-19 passar.

Assim, Bruna escreveu mais um livro – o primeiro é Ana Bolena (Valer), já na segunda edição – que certamente agradará aos leitores também pela beleza da prosa e pela costura dos temas que aborda, tornando-os palatáveis e familiares, ainda que complexos.

O que parecer ser, pelo título, o diário de uma viagem é, na realidade, o entrelaçamento de observações e episódios da história de vida de uma jovem intelectual que mergulhou no conhecimento do mundo, por meio de viagens e leituras densas, aos quinze anos de idade, para imergir nas páginas de um livro instigante e reflexivo.

Confira a entrevista da escritora a este amazONamazonia:

:A sua narrativa epistolar me sugere uma inspiração na alegoria do círculo. O círculo como representação do mundo. Não importa onde eu esteja: sou todo e sou parte dele ao mesmo tempo. É isso ou viajei muito nas suas cartas?

Já li algo acerca da importância de nos vermos como um quebra cabeças inteiro e, ao mesmo tempo, como única peça de algo maior. Contudo, confesso que desconheço uma teoria a respeito. Creio que isso me faz pensar naquele incrível texto The Egg, do escritor Andy Weir, pois cada ação nossa para com o outro é também feita para nós mesmos. No fim das contas, à parte questões culturais, geográficas e antropológicas, a humanidade é igualmente frágil, busca uma existência feliz e partilha de medos semelhantes.

Há, nas suas reflexões, uma espiritualidade densa. Perceber o Universo/mundo em pequenas coisas ou gestos é um exercício que exige conhecimento interior. De onde vem essa compreensão do mundo?

Desde criança, fui incentivada a buscar respostas para meus questionamentos e curiosidades. Quando cresci mais um pouco, passei a gostar de viajar sozinha nas minhas férias justamente porque eram períodos em que eu ficava livre para explorar o mundo e entender melhor as relações humanas.

A partir dessas experiências, procuro mostrar nos meus escritos que essa consciência da espiritualidade e transcendência – de que fazemos parte de uma engrenagem, com Deus para mim, ou sem Ele para outros – é que o torna o ser humano especial.

Eventualmente, li uma obra da escritora Elizabeth Gilbert em que ela fala da Física da Procura, uma força acionada sempre que deixamos um pouco de lado tudo que nos é familiar e confortável para partir em busca de conhecimento. Quando consideramos tudo que acontece conosco durante essa jornada como fonte de lições e aceitamos todos que encontramos no caminho como professores da vida, encontramos as verdades que muitas vezes nem sabíamos que estávamos procurando.

Vejo que, embora endereçada a amigos, suas cartas já sinalizam para além desses, uma vez que são menos intimistas e mais impessoais. Já as escreveu pensando em Cartas do Fim do Mundo?

Na verdade, não escrevi as cartas somente para os destinatários, e isso fez a brincadeira ser mais especial. Todos os dias, eu escrevia para uma pessoa diferente e ela deveria publicar nas nossas redes sociais.

Assim, várias pessoas liam e compartilhavam. Designar os destinatários foi uma manifestação de amizade e carinho especiais, e ao mesmo tempo uma referência para melhor conduzir a narrativa: falo de situações e particularidades vividas com cada um no passado para legitimar as cartas e como um ponto de partida para, então, discorrer sobre assuntos mais universais.

Penso que o leitor deve ficar intrigado com fenômenos que remetem à desintegração ou aparecimento inesperado de pessoas, os quais a senhora revela de relance. Trata-se de um recurso criativo?

Sinceramente, não foi um recurso literário… Não sei explicar até hoje o fenômeno que aconteceu na Austrália (e em outros momentos). Tenho frequentes episódios de paralisia do sono, então não descarto que tenha sido um distúrbio semelhante. Ou talvez realmente tenha sido uma “falha na matrix”. No entanto, o mistério das crianças chinesas foi desvendado no meu último dia: eram netos de um casal de idosos da expedição. Um grande alívio!

Cartas do Fim do Mundo, a meu ver, também é um roteiro de leituras edificantes (os autores citados entram no contexto da narrativa). Pensou nisso como estratégia de incentivo à leitura?

A remissão a alguns autores foi um recurso que utilizei para oferecer aos leitores experiências literárias que foram importantes para mim. A literatura é uma fonte inesgotável para compreender melhor a alma humana e moldar o nosso próprio espírito. Como o livro se dirige prioritariamente ao público jovem, julguei interessante acrescentar à obra essas referências, sim, como uma forma de incentivo à leitura.

Você retornou dessa viagem com uma percepção mais apurada, tanto assim que tem dúvida se hoje a faria novamente. Fale-nos dessa experiência que foi deixar as suas pegadas na Antártida e com isso modificá-la e trazer consigo parte dela que a modificou.

A Antártida é realmente algo fenomenal. Senti como se estivesse testemunhando o mundo no início dos tempos. É um choque que só tem quem vai lá; não há como transportá-lo completamente por meio de uma narrativa.

O problema é que, depois, estudando melhor, fiquei sabendo que a nossa visita aparentemente inofensiva também causa impactos importantes na vida marinha… aí vem outra sensação: a frustração. E então, não há dúvida de que a única saída é erigir a sustentabilidade como o maior princípio/valor da humanidade. É o que ganhei com essa viagem.

Contextualize, para esses dias de isolamento e distanciamento social, esta frase que está na página 86: “Acredito que a dignidade de todos os seres está ligada diretamente à liberdade”.

Sobre a frase do livro relacionada à questão da liberdade, trata-se em verdade de uma divagação. A partir da condição dos animais aprisionados, busquei fazer uma comparação com os apátridas, serem humanos que, aparentemente livres como os animais dos parques de diversões, não possuem direitos mínimos.

Foi apenas um flash de um assunto que é meu objeto de estudo ultimamente: a liberdade como fundamento da dignidade. No entanto, creio também que há circunstâncias que podem relativizar os espaços de liberdade pessoal.

É o que percebemos nesse momento de isolamento pelo coronavírus: trata-se de uma medida para o combate à pandemia, em defesa da vida humana. Para mim, é isto: é necessário se isolar e cumprir as recomendações dos órgãos de Saúde, pois a outra possibilidade é a morte de muitas pessoas. A solidariedade também é um importante valor humano.

O que mudou na sua narrativa entre Ana Bolena a Cartas do Fim do Mundo?

Ana Bolena foi meu primeiro livro publicado. Eu ainda era adolescente quando o escrevi. O objetivo era narrar a vida de uma personagem histórica como se fosse um conto, de modo a “prender” o leitor, mas a finalidade última era instruir o leitor acerca da importante história ao redor naquele período, a Reforma Protestante.

Acho que valeu, pois recebo cartas até hoje de novos leitores das escolas de Manaus, inclusive das públicas. Pela escrita, é fácil perceber que se trata de uma obra mais inocente, embora com objetivos bem claros. Cartas do Fim do Mundo traz temas mais profundos, ainda que de forma rápida. Tentei convidar o leitor à reflexão do nosso papel no mundo, nossas relações com os outros, valores humanos e espirituais, sustentabilidade. Tomara que todos gostem.

Por fim, que é Bruna Chíxario definida por ela mesma?

Gosto de citar a frase de Alice, personagem de Lewis Caroll em Alice no País das Maravilhas, quando ela responde essa mesma pergunta: Me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza… Eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas acho que já mudei muitas vezes desde então. Assim como Alice, estou em contínua transformação.

Mas eis algumas informações sobre mim: sou advogada, estudo História, gosto muito de praticar esportes, ler, cozinhar, e, claro, viajar.

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