Não! Não devemos voltar ao normal que também mata [Por Wilson Nogueira*]

 

Completo hoje 60 dias de autoisolamento. Dois ou três dias depois, seguiram-me Maria do Rosário, Enã e Dassuaen.

Estamos juntos nessa luta pelo direito de viver.

A bolha anti-covid-19 desafia todos os dias cada um e nós.

Como viver neste novo cotidiano?

Como trabalhar, se divertir, conversar, estudar e fazer as tarefas de casa no mesmo espaço?

Penso que não há respostas prontas para essas e outras inquietações.

Vivemos situações inusitadas e, às vezes até bizarras, para perceber e dar conta do real e do virtual.

O real se manifesta por não podermos sair de casa sem o risco de infecção e, consequentemente, de morte.

E o virtual por imaginarmos que, na bolha, estamos seguros.

E não dá para abri mão dessa certeza na incerteza quem está em vários níveis de risco, como eu e tantos outros.

Vivemos, certamente, o anormal que poderá se tornar normal, ao menos por algum tempo, caso não surja uma vacina anti-Covid-19, ou quem sabe até se concretizem seguidas pandemias viróticas segundo previsões científicas.

Assim, o normal no anormal tem sido conversar e trabalhar por telefone, por encontros virtuais, divertir-se com programas da TV, com vídeos do YouTube, das Redes Sociais Digitais (RSDs); ir às compras por meio dos aplicativos ou com a colaboração de motoboys.

Colocar o nariz fora da bolha, nem pensar!

O perigo é invisível e iminente, mas, por incrível que pareça, ele pode viajar nos corpos humanos.

Logo, a aproximação entre pessoas não é recomendável neste momento de pandemia e, para muitos, até proibitiva, com vigilância e punição para quem se movimentar.

Temos que nos adaptar, como se isso fosse possível, ao distanciamento pessoal e ambiental.

Como sentir a energia das pessoas que jorra nos olhares, nos gestos, na interlocução direta? Como sentir e tatear o amor, a solidariedade, a felicidade, a compaixão ou até mesmo perceber e se prevenir das ações e dos pensamentos obscuros?

Como sentir o cheiro e as cores das ruas,  das florestas, ouvir o canto dos pássaros, os pingos da chuva ou o entardecer sobre os rios?

O tempo que vivemos é este: o tempo das restrições, dos constrangimentos, da falta de quase tudo que aprendermos ser o humano até ainda há pouco.

Mas, de todos os males, nos resta, também, a reflexão sobre os porquês que nos lavaram a viver tudo isso.

Não podemos mais sair da bolha, do sufoco, do susto generalizado, e voltar às mesmas injustiças expostas nas carências de saneamento básico, segurança, educação, habitação, justiça, alimentação e divertimento para todos etc.

Retornar ao normal também não é normal. Isso também dissemina viroses, verminoses, bacilos, bactérias, insalubridade, injustiça, insegurança, fome e, sobretudo, ignorância.

Isso também é pandêmico. Isso também mata.

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