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Quando eu não queria ser adulto [Por Wilson Nogueira]

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Um elogio à chuva feito pela jornalista Elaíze Farias me remeteu para o tempo que eu não queria ser adulto.

Ser adulto só poderia ser muito chato.

Nessa época, morávamos no paraná do Xibuí, área de várzea próxima à cidade de Parintins (AM).

O tempo bom pra nós, crianças, era o das chuvas de abril quando os rios tufam do dia pra noite.

Quando acordávamos, o pai, o meu meio-irmão Antônio Eimar, o Enã, e meus tios já estavam cortando, afogando ou lavando juta, ou ainda pescando.

As chuvas prolongadas, chuva brancas ou chuvas mundiar, como se referia a vovó materna Domingas, eram as que a gente mais apreciava.

Enquanto os adultos trabalhavam debaixo de chuva o dia inteiro – às vezes até semanas, pois é assim que me recordo –, nós brincávamos dentro do barraco armado em paus de abiurana e  palha branca.

Aqui e acolá, quando a chuva virava chuvisco, descíamos da maromba para observar os peixes que invadiam o terreiro aquático.

Brincávamos de pescar. Aprendíamos a pescar brincando, com arcos de galho de goiabeira e flechas de talo de inajá. Bererés, carás e peixes-agulha não sossegavam à nossa vista. A cambada de peixes miúdos era colocada sobre o jirau, tratada e fritada com banha de porco pela mamãe.

É inarrável o fenômeno da friagem que, provavelmente, ocorria em junho.

O “frio”, por alguns dias, faz os peixes ficarem de aiua, mas milhares não conseguem oxigênio suficiente para sobreviver.

Garças, mergulhões, maguaris, arirambas, socós e outras aves pescadoras fazem a festa.

As revoadas de garças e mergulhões no começo da manhã e no cair da noite enchiam nossos olhos de alvinegro em contraste com a floresta encharcada de água.

Os ouvidos jamais deixarão de ouvir os piares que se espalhavam pelo paraná e adentravam aos igapós.

Víamos e ouvíamos tudo isso como diversão.

A qualquer momento, podíamos pegar um casco e passear pela beirada, para espantar as aves e espiar a beleza delas.


Água, és sempre bela!

transbordando rios,

e                    s            p              a             r         r            a        m           a           n         d        o         –           s      e     s     o       b             r        e         a             t        e          r         r               a

viajando pelos ares.


Os adultos chegavam lá pelas quatro da tarde e já traziam, com ou sem friagem, alguma embiara, peixe ou caça, para o jantar e almoço do dia seguinte.

Retornavam para casa com a pele engelhada em razão da exposição à chuva e ao frio. Sentavam-se ao redor do fogão de lenha para se esquentar, tomar café e conversar até a hora do jantar.

Geralmente, logo após o jantar, um par de adultos se embrenhava na escuridão enchuviscada para conferir se havia peixes nos espinhéis espalhados no final da tarde.

A verificação dessas armadilhas de azóis enfeixados e pendurados ao longo de uma linha de pesca deve ser constante, porque as piranhas e os jacarés não poupam os peixes fisgados.

Os adultos que seguiam para os jutais ao amanhecer costumavam fazer um seguro de peixes cozidos ou frito, um desjejum reforçado.

O almoço, seguia arrumado em vasilhames descartados, como os de leite em pó. Assim, a comida não molhava, e eles eram poupados de fazer fogo na chuva e dentro d` água.

E assim os dias se passavam até o barraco se encher de juta enfardada, o que pra nós, crianças, era também uma festa. Nada mais prazeroso do que brincar sobre os fardos sequinhos, principalmente nos dias de chuva.

Nesse período, já pro meio de junho, a mamãe Júlia não tirava o olho da criançada. Uma faísca de fósforo seria o suficiente para queimar a safra toda em alguns segundos.

Nas grandes enchentes não havia outro jeito senão o de se mudar para cidade – ou para a terra firme, no Zé Açu, para depois retornar ao Xibuí, na vazante.

Sempre retorno ao Xibuí, a terra onde tudo começou, como afirma sempre o primo Jerry, que nasceu em Manaus, mas um assumido xibuiense do clã dos Paca.

No meu autoisolamento é para o Xibuí que mais viajo.

A chuva também representa o meu estado de espírito amazônicos, quando criança que fui, enquanto criança que ainda sou.

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