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Cinema educativo e internet: novas formas de ensinar e aprender [Por Diana Vidal*]

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A pandemia da covid-19 tem feito com que busquemos novas maneiras de contato social e de manutenção das atividades escolares. A internet não é algo novo, por certo.

Mas a incidência com que tem invadido os lares é sem precedentes. De shows ao vivo, lives, a aulas de canto, o mundo on-line tem criado uma realidade paralela e estimulado novas formas de ensino e de extravasamento do espaço circunscrito da sala de aula.

Esse movimento, entretanto, não chega a ser novidade. Na década de 1920, a introdução do cinema educativo nas escolas tinha objetivos similares. Canuto Mendes de Almeida, escrevendo em 1931, proclamava:

[O cinema] domina o tempo e o espaço, o movimento e a extensão. Sabe concentrar 12 horas num minuto com a mesma perícia que um século num dia. Na mesma área da tela, projeta micro-organismos e cadeias de montanhas. Acelera, retrai e até imobiliza o movimento. E essas imagens mágicas, coordena-as à vontade, sem restrições de espécie alguma. Porque o cinema está sucessivamente em qualquer parte, possui o dom da ubiquidade, acha-se, ao mesmo tempo, em lugares diferentes, tudo pode gravar, ligar, separar, ajuntar, intercalar, encadear, no sentido mais útil ao ensino (Almeida, 1931, p. 187).

A virtualidade das imagens abria um novo campo perceptivo para ser explorado em sala de aula. Coloria o discurso do professor e enriquecia o ensino, pelo “contato com o real”. Na prática de sala de aula, o filme era visto como um aliado. Sylvio Froes Abreu (1929, p VII), na tese que defendeu, concorrendo à cadeira de Geografia Geral, especialmente do Brasil, da Escola Normal do Rio de Janeiro, assim se expressava: “O cinema deve ser um constante auxiliar do professor. Os filmes reproduzem aspectos típicos de regiões e de povos do mundo inteiro. Entre nós já se vai aplicando o cinema à instrução; temos no Museu, na Quinta da Boa Vista, uma sala onde se fazem frequentemente projeções de grande valor educacional”.

Mas tal qual a internet, se, por um lado, as imensas possibilidades da cinematografia acenavam para os professores, indicando-lhes novos caminhos a percorrer, por outro, o cinema se afirmava como a arte do perverso, do maligno, do anti-social. “E uma invenção formidável, de formidabilisformidabile, terrível, temeroso, temerando, que se deve temer…”, Jonathas Serrano evidenciava o conflito.

A população dirigia-se aos cinemas em busca da ficção, da fuga do cotidiano. As salas de projeção cresciam em número, espalhando-se por toda a cidade.

Em 1930, existiam, no Brasil, 1.800 salas de projeção, das quais 74 estavam localizadas na cidade do Rio de Janeiro e 50 na de São Paulo. Somente em 1928 foram exibidos 1.603 filmes, 38 de produção nacional. As sessões iniciavam-se às 14 horas e seguiam por toda a tarde, estendendo-se até meia-noite.

Toda a sorte de pessoas frequentava os cinemas e, nas palavras de Serrano, expunha-se à recepção de informações várias, impressão de sentimentos díspares, muitas vezes perniciosos, deformadores da moral e do caráter, principalmente adolescente.

Citando um depoimento de um menino francês, publicado em Comoedia, de Paris, o autor de Cinema para crianças ilustrava a perversidade do drama: “O cinema me dá medo, me atormenta, me faz sismar. Choro e fico doente, o cinema me dá ideias, mas veem-me ali coisas, mas os dramas modificam o caráter, pode a gente se tornar ladrão, assassino degenerado”.

O discurso moralizador endereçado ao cinema dramático – como era chamada na época a arte cinematográfica que lidava com as paixões humanas – denotava uma crítica à magia da imagem. No entanto, os mesmos educadores que denunciavam a tensão entre arte e real, quando instados a falar sobre o cinema educativo, assumiam a imagem como signo de verdade.

O cinema educativo, porque pautado em princípios científicos, orientado por técnicos em educação e dirigido à reprodução de fenômenos da natureza ou do homem (caso dos noticiários), não passava pelo crivo da crítica. O filme era percebido como simples recurso de visibilidade, uma ampliação da capacidade humana de ver o mundo a sua volta. O cinema educativo era apontado como um instrumento.

A perversidade, atribuída ao dramático, amplamente discutida na década de 20, alertava para o fato de que o desenvolvimento do cinema falado e, portanto, o crescimento da indústria cinematográfica, trazia à tona a necessidade de disciplinamento dessa arte, fixando-lhe limites e formas consideradas adequadas de criação, divulgação e socialização.

Os educadores brasileiros, em parte reproduzindo uma discussão de âmbito internacional, procuravam se apropriar da prática discursiva fílmica, fixando-lhe o campo dentro do qual seria validada pelo discurso educativo. Ou seja, havia a tentativa de enquadramento do cinema ao que concebiam como princípios de uma educação sadia e nacionalizante.

Exemplar foi a fala de Afranio Peixoto:

Escolher um bom professor, melhor uma bela jovem, interessante, interessada professora, dotada do dom de ensinar. Fazê-la, por um método pedagógico experimentado, dar instrutivas e agradáveis lições, diante do registro que será vidente e falante […] para impregnação na alma de milhares de adultos e crianças, que veriam, por todos os recantos do Brasil, passarem e repassarem estas fitas-lições, instrutoras e educadoras de um povo. […] Ou muito me engano ou isto será a realização do símbolo evangélico, a multiplicação dos pães, do pão espiritual.

Nesse sentido, por iniciativa da Diretoria de Instrução Pública do Distrito Federal, realizou-se na Escola José de Alencar a Primeira Exposição de Cinematografia Educativa, em agosto de 1929. Projetada com o intuito de ser guia para os professores e instrumento de divulgação dos benefícios do cinema para a prática educativa, suas instalações compunham-se da mostra do maior número possível de aparelhos existentes de projeção de imagens fixas ou em movimento.

Para tanto, seus organizadores, Jonathas Serrano (um aficionado pela cinematografia e que já havia sublinhado a importância do cinema para a educação em 1913) e Venâncio Filho, amigos que em 1931 publicaram Cinema e educação, entraram em contato com diversas empresas dedicadas à cinematografia e projeção de imagens, solicitando participação no evento.

Como o objetivo era educar alunos, professores e pais para o aproveitamento saudável da arte de contemplação e projeção de imagens, nomearam uma comissão de técnicos no assunto para análise e emissão de pareceres sobre os aparelhos expostos, classificando-os de acordo com suas possibilidades em sala de aula. Também foram exibidos filmes educativos e deu-se início à formação de uma filmoteca educativa, base para o trabalho docente.

À exposição carioca seguiu-se, dois anos mais tarde, a Exposição Preparatória do Cinema Educativo, realizada entre 22 e 28 de junho de 1931, por iniciativa da Diretoria Geral de Ensino de São Paulo.

O cinema, ainda, era percebido como um instrumento de propaganda. Além de ampliar as possibilidades do ensino em sala de aula, poderia servir de veículo de informação à toda comunidade. Fernando de Azevedo, ao discorrer sobre formas de cooptação dos pais para a obra da educação carioca, através das atividades dos Círculos de Pais e Professores, indicava exibições para ilustrar conferências, ou mesmo servir de chamamento para a frequência às reuniões.

Aliás, na cruzada higiênica, o cinema era elemento de primeira ordem, utilizado, inclusive, no combate a epidemias. Sua ação era reforçada por entidades internacionais, principalmente a Cruz Vermelha, que se ocupava da produção e distribuição de filmes “[…] a todos os recantos da terra, por empréstimo a prazo fixo, conforme as distâncias, especialmente para escolas, a fim de percorrer o mundo todo”.

Durante a campanha profilática de 1929, projetou-se, em 35 escolas, no Instituto Orsina da Fonseca e no Liceu de Artes e Ofícios, uma fita de combate à febre amarela, de autoria do Dr. Francois Norbert, adquirida pela administração pública carioca.

Como as atividades de propaganda oferecidas pelo cinema ao trabalho educacional não se restringiam à população escolar, estendida às famílias, mas visavam a toda a sociedade, não era suficiente a importação de filmes. Era necessária a sua produção.

Um exemplo foi a realização, em 1929, da película Educação e trabalho, preparada sob a orientação de técnicos da Diretoria de Instrução do Rio de Janeiro, por Botelho Film, com o objetivo de difundir o ensino profissionalizante, e exibida, no mesmo ano, para um auditório de 2 mil pessoas, no cinema Odeon.

A utilização do cinema como auxiliar na formação moral e intelectual do homem não se circunscrevia, apenas, ao âmbito da educação oficial. Outras instituições sociais também estavam-se apropriando da imagem fílmica para difundir seus preceitos. Clarice Nunes relata que, pela primeira vez, em outubro de 1926, a Igreja francesa, sob a coordenação do cardeal Dubois, exibiu um filme, em um dos maiores teatros de Paris, divulgando as congregações religiosas: seus trabalhos, esforços e feitos. Aliás, o interesse da Igreja pelo cinema foi tão grande que, em 29 de junho de 1936, Pio XI consagrou ao tema a encíclica Vigilanti cura. Ali afirmava: “O cinema é escola, que pode concorrer para o bem ou para o mal, conforme sua aplicação”.

Pelo cinema conhecia-se o mundo, via-se o que o olho humano não podia captar naturalmente, ou visitavam-se lugares que talvez nunca pudessem ser vistos de perto. Para a educação, trazia a possibilidade de vivenciar fatos até então narrativas do ensino verbalista. Mais ainda, permitia a propaganda de hábitos, normas e ideias, pois o filme disseminava informações mais rápido e prazerosamente que jornais e palestras.

Os dilemas vividos com a incorporação do cinema às praticas escolares não são muito diferentes do que hoje presenciamos com a internet. A insegurança que atualmente temos com respeito às informações que chegam sem controle aos sujeitos e os riscos oferecidos pelas fake news, por certo, potencializam as preocupações dos educadores de outrora.

Mas, assim como eles aprenderam a lidar com o cinema, e, depois, com a televisão, saberemos lidar com a internet, principalmente agora que, forçados a mergulhar no universo da rede e a reconstruir as práticas educativas com o uso de novas ferramentas, estamos nos familiarizando mais com os recursos, desmistificando a web e percebendo o quanto estes novos modos de ensinar e aprender podem auxiliar na difusão do conhecimento, como aliados na nova configuração de uma educação pública de qualidade.

* A autora é professora titular de História da Educação da FE/USP e diretora do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB/USP)


Fonte: via Jornal da USP. (Texto extraído de um dos podcasts publicados no IEB às 14h, disponível no site www.ieb.usp.br, que traz todos os dias, à exceção dos feriados e fins de semana, uma nova emissão. Associado ao Anchor, e com um canal específico no Spotify, o programa registra ouvintes, além do Brasil, na França, Reino Unido, Itália, México, Portugal, Índia, Argentina, Alemanha. Os áudios estão disponíveis ainda nas plataformas Breaker, RadioPublic e Google Podcasts.)

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