A absurdez da realidade para muito além dos humanos [Por Wilson Nogueira]

 

Diz-se que a maldade não tem limites.

Faz-se maldade de tudo e com tudo: com pessoas, com bichos, com as árvores, com a terra, com o ar, com o cosmos.

Veja só: algumas pessoas foram à lua e por lá deixaram suas pegadas e suas cacas.

Agora não consigo mais contemplar o luar e imaginar que o que vejo não é a imagem de São Jorge em seu cavalo espetando o dragão com a sua lança.

E eu que pensei que os astronautas haviam feito essas arriscadas viagens para salvar o dragão.

Mais difícil ainda é imaginar que multinacionais da mineração querem arrancar as minas de ouro do fundo do mar.

Mas tenham calma. Isso só vai acontecer daqui a pouco, quando todo o ouro da crosta, incluído o da Amazônia, estiver sacado a ferro e fogo.

Em nome do ouro, o símbolo mor capitalismo, a floresta e seus povos também podem se esfumear.

A maldada é um bichinho, tipo um coronavírus, que se locomove nas entranhas dos humanos, animais curiosos e engenhosos.

Sem limites!

Assim, podemos ver suas patas impressas na lua e mãos que agora se esticam para o fundo dos oceanos.

Mas essa espécie é exatamente aquela que se arroga consciente da sua maldade, mas que, paradoxalmente, não consegue deixar de praticá-la  ad aeternum.

Mais impressionante é que, quando se flagra o malfeitor, há sempre o esforço para escondê-lo em figuras de linguagem pomposas.

Ah! Isso não! Isso é coisa de gado!

Isso é coisa de burro!

Meu Deus, isso só pode ser coisa de monstro!

Não. Esse sujeito é um cavalo!

E, por falar em cavalo, lembrei-me de uma viagem ao Xibuí, lá onde tudo começou.

O sol já colocava os pés nas águas do rio Amazonas, quando surgiu, na restinga mais alta das terras do moço Dohl, um cavalo pangaré encardido.

Ele vinha na direção do gado que estava sendo tocado para o curral.

– É daqui esse cavalo?

– Não. Vem lá das terras do Valha-me Deus, da fazenda do Inglês.

– Cuidado, ele vai brigar com os cavalos daqui.

– Que nada. Esse cavalo só tem cara de mau, mas é do bem. Só quer pegar as éguas.

E o cavalo foi se aproximando, se aproximando…

Quando ele ficou pertinho de nós, deu pra ver que era branquinho, branquinho. Só estava encharcado do lodo onde havia pastado.

O equino, que com algum esforço lembrava o cavalo de São Jorge, parou a uns dez metros de nós.

Empinou o pescoço, arreganhou os dentes, e cheirou com afinco o ar que vinha do curral.

– Tá cheirando o mijo das éguas que estão no cio.

–Tô achando que esse animal veio criar confusão por aqui.

– Que nada! Isso é só pavulagem dele, só tá se empavulando as éguas. Quer ver uma coisa: chame pelo nome dele, bem alto.

– E qual o nome dele!

– O nome dele, lá no Valha-me Deus, eu não sei qual é. Mas por aqui, a gente chama ele de Varnstrabe.

– Mas porque esse nome estranho?

– Sei não. Mas acho que é porque o nome do dono dele é Inglês, Sar Inglês.

E o cavalo continuava lá, parado, mas de dentes arreganhados sugando ar que soprava do curral.

– Grite o nome dele e o senhor vai ver o que vai acontecer. Mas grite alto!

– Vanstrabeeeeeee!

Não digo mais nada do que aconteceu… Só que o bicho dobrou o pescoço para o rabo, relinchou pavorosamente, açoitou o vento com as patas traseiras, peidou, peidou, e se desembestou no rumo do Valha-me Deus.

– É assim que a gente espanta ele. Esse cavalo não gosta de ser chamado pelo nome de gente.

E por falar em equino, lembrei-me de uma viagem a Aruba, ilha holandesa no Caribe. Eu e a família.

Só não me perguntem como é que a Holanda possui ilhas no Caribe nem porque a França se diz dona de um país na Amazônia.

Corríamos através da ilha na van de um cidadão local que falava espanhol e entendia muito bem o portunhol.

Ele passou a elogiar a economia brasileira, o governo Lula e a alegria dos brasileiros. Víamos, também, que ele se alegrou com a contratação desse arubatur.

– Vocês têm um governo que se preocupa com todo mundo: com os pobres e com os ricos. Os ônibus que circulam aqui são fabricados no Brasil, assim como os aviões do serviço regional. Os turistas brasileiros estão por toda parte por aqui.

Elogio vai, elogio vem, lhe foi perguntado sobre o governo da ilha.

– Aqui é assim: o governo que decide está na Holanda e, aqui, estão os seus representantes.

– E quem são esses representantes?

O guia parou a van bruscamente. Pediu, gentilmente, que descêssemos. Descemos, mas ali não havia nada que pudesse ser apreciado como ícone turístico. Aí ele apontou para um lavrado coberto de gramíneas onde pastava meia dúzia de burros.

– Olhem, senhores, esses são os representantes desta ilha. Não fazem nada além de pastar e zurrar.

Naquele momento, como se estivessem treinados, os burricos danaram-se a zurrar estrondosamente.

– Não falei!? Eles reagem sempre quando são comparados com gente. Gostaram?

Não deu para reagir de outro jeito, senão incontinente:

– Égua! Que diabo é isso!?

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