Parintins e sua magia [Por Dassuem Nogueira*]

Há dias as redes sociais se embalaram na saudade do movimento pré-festival folclórico de Parintins, na qual todos se perguntam: E tu vai? De barco? Tem lugar na tua casa pra mim? E pra mais um?

Nós, torcedores, fizemos memes e achamos graça, como sempre. Mas há tristeza: esse ano não tem festival. É o que deve ser feito e só nos resta aceitar – assim como todas as outras graças da vida que nos foi proibida agora – outra maçã que não podemos comer.

Não sei dizer quantas vezes cheguei na fila do bumbódromo sozinha e fiz amizade com desconhecidos torcedores do Garantido, que no outro dia já estavam me esperando, quase sempre com laranjas descascadas, garrafas pet com água congelada, vasilhas com farofas, almofadas, café.

Ou quando estive muito atrasada, mas os encontrava nas arquibancadas e se apertavam para que eu me juntasse a eles; guardavam para mim adereços, nossas armas de flor.

Amizades na fila do bumbódromo de Parintins são sinceras como aquelas que fazemos quando crianças, só para brincar no Garantido, na sanha de vencer a batalha de quem tem mais amor pra dar. Quem vai pras galeras, não vai pra ver os espetáculos, vai para ser espetáculo.

Ontem, a Live Parintins 2020 deu a nós, torcedores, sentimentos sem nomes. As arquibancadas vazias partiram corações e estrelas.

Expresso minha profunda admiração por todos os artistas que se apresentaram. Lembro de mim, jovenzinha, a entrar na arena com coreografia ensaiada, a olhar pra galera e me perder completamente na minha emoção.

Ontem vi os brincantes treinados para lidar com essa emoção entrarem na arena com as arquibancadas completamente vazias e represarem suas águas nos olhos, na garganta, em caretas.

Os fogos de artifício que retumbavam em nossos peitos, retumbaram no concreto e fizeram ecos que nós sentimos em nossas casas como um grande vazio.

Chorei, por tudo. Chorei apartada de minha paixão humana por um brinquedo de pano.

Israel Paulain, apresentador do boi-bumbá Garantido

 

Mas Israel Paulain fez algo grandioso essa noite. Fez como o controverso Lars Von Trier em Dogville (com a grande vantagem de não ser o Lars Von Trier).

É um filme que não tem cenário, apenas com as marcações no chão, só atrizes e atores encenando.

Israel nos chamou pra brincar, e nos lembrou o que sempre foi sobre brincar de boi. Brincar! Se entregar à imaginação.

No começo da apresentação, pareceu insano e até cruel o seu decreto: “Vocês estão aqui!”

– Não! Não estamos –, pensei, como uma criança que não quer brincar.

Mas Israel fez todas as pausas nas toadas em que nós cantaríamos, todos os “Quem é Garantido levanta o braço”, apresentou aos jurados todos os itens, vibrou e se entregou à galera.

No meio da apresentação, estávamos todos entregues outra vez, e até a transmissão brincou, mostrando, sob sua “deixa”, a galera vazia, como fariam se nós lá estivéssemos. E não sei como, lá me senti. Israel foi inigualável.

Eu não esperava que a live de Parintins pudesse ser tão catártica. Achei que os itens se apresentariam e só. Mas, há algo que aprendi sobre os parintinenses quando lá morei.

E, agora, parecerá contraditório o que vou dizer: parintinense não sabe brincar.

Uma vez, meu amigo Deilson, professor de História do Ifam de Parintins, pediu um exercício por meio do qual os estudantes recontassem a história da invasão portuguesa na Amazônia como se fosse o roteiro de uma noite do festival.

Resultado: o Ifam quase parou uma semana.

Os estudantes fizeram fantasias, trouxeram instrumentos, fizeram alegorias, ensaiaram coreografias e nós, professores, viramos jurados em um auditório lotado e extasiado.

Deilson só pediu um roteiro.

E eu só esperava uma live.

Assim é Parintins e sua magia.


*A autora é doutoranda em Antropologia pela UFSC

 

1 comentário
  1. Adriane Diz

    Em tempo de pandemia, a gente vai perdendo um pouco a sensibilidade, diante de tantas perdas. E uma narrativa como esta, com escritos tão profundos sobre o nosso povo e o nosso “brincar”, resgata a nossa esperança e fé em dias melhores! Obrigada por esse presentão!

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