Voltar ao que era ou o novo normal? [Lígia Maria Duque Johnson de Assis*]

Em março de 2020 tivemos contato com uma nova realidade – vírus desconhecido e letal, que até aquele momento existia só do outro lado do mundo, chegou. Quarentena, isolamento social – não ao aperto de mão, não ao abraço, não ao beijo, não ao contato físico de qualquer natureza.

Não ouse tossir, muito menos espirrar… será considerado um pária. “Isolem os idosos, cuidado com as crianças. Os jovens e os adultos podem se tranquilizar…” “Não, jovens e adultos também podem se contaminar… E crianças também!”

A realidade foi se tornando mais dura e ameaçadora. Fique em casa, pois a pessoa que passar por você na rua, na feira, no supermercado ou farmácia pode ser seu vilão, contaminar e até matar você.

Lave as mãos com sabão por no mínimo 30 segundos, use álcool em gel sempre ao entrar e sair de casa, de um estabelecimento comercial, do transporte e lembre-se de passar álcool em tudo. Seu maior crime? Sair de casa sem máscara.

E ao retornar à casa higienizar os sapatos, correr para o banho, lavar cabelos e roupa imediatamente. Comprou algo? Deixar em quarentena uma semana, ou lavar com água e sabão.

E assim as pessoas foram trancadas ou se trancaram em casa, em seus quartos, cultivando o medo, a insegurança, a impotência diante de algo desconhecido, invisível e ameaçador – alguns tiveram contato com pessoas doentes e não se contaminaram, outros se contaminaram e não apresenta(ra)m sintomas, outros apresenta(ra)m sintomas, outros ficaram em estado grave e outros faleceram, ficamos com a impotência.

E qual a consequência em nós? Condição neurotizante e até psicotizante. Começa-se a construir uma visão negativa do mundo, dos outros e de nós mesmos, a realidade e o futuro passam a ser percebidos de maneira pessimista. Ideias catastróficas começam a, “do nada”, frequentar a mente.

Ocorrem sentimentos de abandono, de incapacidade, surgem sintomas como batimento cardíaco acelerado, transpiração, tensão muscular, alterações de humor ou seja, estamos diante de um quadro que pode sinalizar a construção de um problema.

Os problemas psicológicos são percebidos como tendo sua origem em processos corriqueiros, tais como aprendizagem defeituosa, realização de inferências incorretas, tendo como base informações inadequadas e incorretas, e distinção inadequada entre a imaginação e a realidade (Kovacs & Beck, 1979).

Será possível voltar ao que éramos? Já estamos trilhando o novo normal ou a impotência ainda ocupa um espaço maior?

É o momento de observar-se e refletir, entender que estratégias foram desenvolvidas para lidar com tais situações, em que elas auxiliaram, o que levou a adotá-las, o que mudou a partir daí. São reflexões oportunas e necessárias para evitar um sofrimento de longo prazo, se tais experiências não forem ressignificadas.

Acolher-se, olhar sem julgamento, dialogar com quem confie e buscar ajuda profissional, se necessário. O mais importante em tudo isto é que o “novo normal ou a volta ao que era” não se traduza em sofrimento, mas que seja registrado como uma grande aprendizagem.


*A autora é professora da Fametro e presidente do Conselho Regional de Psicologia 20.º Região

 

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