Da escrita de Beatriz Mascarenhas surge um arco-íris de minicontos

Por Wilson Nogueira

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Por que você decidiu caminhar por essa trilha literária?

Quando pequena, comecei escrevendo contos ficcionais, ainda por volta dos sete anos. Contudo, logo em seguida, mergulhei na poesia e dela não saí mais, com exceção de algumas vezes que voltei a escrever contos ficcionais. As crônicas sempre me acompanharam também.

Com a finalização de escrita do meu livro-poema Bicho (a ser publicado em francês como Bête), e a organização da minha antologia poética Por Dedos Tortos, organizada pela minha parceira e amiga Aline Lopes, foi como se fechasse um ciclo primeiro de escrita.

Então eu comecei a estudar roteiro, no que trabalho ativamente no momento e, claro, voltei para os contos.

O que me encanta nesse gênero é sua estrutura isolada: tanto pode se sentir de afeto ou afetar em poucas linhas! Ao ler, imagino o que houve antes e depois daquele recorte. Posso passar horas imaginando os contos dos meus ídolos.

O gênero dos contos tem a densidade de um romance, a construção de cada personagem com poucas informações, e a explosão ainda que suave da finalização do enredo. Como destaque, sou apaixonada pelos contos de Guimarães Rosa e, atualmente, Conceição Evaristo.

Meu desafio cresceu quando optei por minicontos, ou seja, contos ainda mais reduzidos para uma leitura rápida nas redes sociais. Um desafio que criei pra mim mesma e o abracei com disposição e carinho.

Já ouvi dizer que o miniconto, quando comparado ao judô, é um nocaute no leitor. O que você disso? 

Eu concordo plenamente. Gostei da definição! Consigo reconhecer a sensação de nocaute quando leio muitos dos meus contos favoritos. É como se no fim, levássemos um abraço tão apertado que sufoca ou como se estivéssemos no chão de um ringue, nocauteados. Mas sempre vale muito a pena.

Seus contos também estão engajados à causa LGBT+. Fale-nos um pouco sobre essa atitude.

Eu sou parte da sigla LGBTI+, como mulher lésbica, casada com uma mulher. Por isso foi um processo de olhar para mim mesma, minha realidade, mas também abrir o olhar para outras pessoas que fazem parte dessa sigla e o que passam todos os dias no nosso país.Somos o país que mais mata LGBTIs no mundo.

Por exemplo, a expectativa de vida de uma travesti no Brasil é de 29 anos, a maioria dos lugares não as deixa trabalhar por não aceitarem sua identidade.

A maioria, então, só consegue sobrevivência financeira na prostituição e morrem muito cedo devido às condições de vida ou à violência.

Isso é um exemplo do que uma letra da sigla LGBTI+ ainda passa no nosso país, imagine toda a comunidade.

Falar dessa sigla nesse dia é um dever artístico para mim, pois todo artista brasileiro tem função política inegável.

Por isso, mostrarei nessa série pessoas que vivem suas vidas no Brasil sendo uma pessoa LGBTI+, cada uma com seus privilégios e realidade distintos.

Também me interesso por mostrar pessoas LGBTI’s em tramas que não explicam sua sexualidade ou gênero: elas podem, por exemplo, estar em uma história com a sua mãe, seu pai, seu filho, sobre algo que não mostra de que forma ela é LGBTI+.

Esse recurso de escrita permite que quem leia, fazendo ou não fazendo parte da comunidade, aproxime-se daquele ser e entenda que nós existimos, estamos em todos os lugares, e podemos ser qualquer pessoa viva, sem esteriótipos. Pra mim, escrever sobre LGBTs é um ato de coragem e de amor.

Como você escolhe as suas personagens? 

Eu tento unir características de várias observações ao decorrer da vida, pois a escrita é, também, uma digestão do nosso alimento do dia-a-dia. Mas geralmente elas me vêm quase prontas.

Outras, parece que as conheci em dado momento, ainda que de vista, guardei e teci sua história. Bárbara, a protagonista do primeiro conto, me veio tão concebida que me limitei a pensá-la em suas ações.

Pois quando a imaginei, veio no mesmo instante seu rosto, seus cabelos, sua farda do trabalho – que apesar de não constar no conto, com certeza são detalhes que o alimentou.

 Seus temas serão sempre urbanos?

Geralmente sim, pois a cidade é meu cenário. Mas sempre que posso, uso observações de lugares menos urbanos, pois é importante e exercitar essa visão de além do que consigo ver com olhos da rotina.

As redes sociais digitais facilitam a difusão desse gênero? Há alguma relação com o ser rápido da comunicação computacional?

Sim, com certeza. Com o uso das redes sociais, vi em textos rápidos uma oportunidade de inserir a literatura no dia-a-dia das pessoas de forma rápida e fluida.

Ao observar o que estava sendo consumido de literatura nas redes sociais, deparei-me com textos curtos em quadros pequenos. Além de textos em legendas, que faço há alguns anos.

Mas pensei que poderia criar uma estética para que os reconhecessem e uma trama para que as pessoas lessem no seu dia-a-dia, no início da manhã ou à noite.

Uma frase da minha mãe sobre o primeiro miniconto que postei, antes da série, mostrou o que eu queria. Ela escreveu: “Estou na fila do pão, chorando com esse miniconto.”

É pra isso que eu escrevo, para tocar as pessoas seja na fila da padaria, rapidamente, seja em livros longos lidos na rede o dia todo.

Seus estudos acadêmicos estão relacionados ao miniconto?

Ironicamente, não. Mas todos meus estudos têm a ver com arte e literatura.

Fale-nos um pouco sobre o que estudas.

Sou formada em Letras – Língua e Literatura Portuguesa pela Universidade Federal do Amazonas, em Gestão Cultural pela Universidade Aix-Marseille na França, sou mestranda em Estudos Literários pela UFAM, onde pesquiso poesia brasileira (deveria ter defendido há meses, infelizmente, a pandemia atrasou os planos), e acabo de ser aprovada em três mestrados na França referentes à criação literária e roteiro, como preparação para doutorado.

A literatura me cerca e acredito nela como uma linguagem que deve ser cada vez mais democrática, tento contribuir pra isso.

Quais são as suas referências de minicontos no Brasil? E no exterior?

Os minicontos que tenho como referência, como os de Mário Quintana, são bem pequenos. É um gênero também chamado de nanoconto. Para os meus, que são bem maiores, mas que não chegam perto ao tamanho dos contos tradicionais, tento achar o meio termo do que posso mostrar e como posso desenvolver.

Qual a recepção das suas postagens? Quem são os seus leitores?

Eu tenho cada vez mais retorno que vem de vários lugares, contextos e idades diferentes. Minha família e rede de amigos contribuíram pra isso, visto que a cada vez que uma pessoa lê e fala sobre [os contos] aos seus amigos e conhecidos – que são diferentes dos meus – acabam lendo. Isso só enriquece a produção.

Às vezes, quando escrevo, penso: “será que minha vó conseguiria ler até o fim?”, tento atingir o maior número de pessoas possível. Mas quando se faz necessário, trabalhar com um tipo de público também pode ser muito interessante.

A elaboração de um miniconto é mais complexa que a do conto? Compartilhe um pouco com os leitores o seu jeito de tecer as palavras. 

Acredito que todo gênero literário tem parecida complexidade, dependendo do escritor e sua direção.

No meu caso, acontece que meus melhores minicontos são aqueles que tem ações singelas, quase em tempo real ao que se lê.

Por vezes caio na armadilha de criar uma sinopse extensa, o que traz problemas na hora de encher o pequeno espaço de informações.

Mas sigo encontrando essa medida, seja a história longa (ainda que eu linhas curtas) ou seja em uma única ação: como a mulher Agripina que chora cortando cebolas, e o miniconto se passa somente na sua cabeça.

Esses contos podem se transformar em HQ ou em livro físico?

Podem sim. Eu me empolgo muito com a arte-mutante, que alimenta diversos gêneros, mesmo que fora da literatura, como o audiovisual.

Acho que nenhuma produção é fechada na linguagem que surge.

Assim como um livro físico pode ter um plano de lançamento online, sem problemas. Temos que deixar as palavras criarem vida.


Eles não conhecem Bárbara

O atraso não estava previsto no jornal. Como tudo na vida de Bárbara, ela também tinha que se adaptar aos horários inconstantes do ônibus. E ao casal da novela. E ao sorriso do motorista. Mas, sobretudo, aos horários do ônibus. Em casa, tentava não fazer barulho. Mas o ônibus era seu barco para algum lugar mais seguro. Não o destino, não. A feira na beira do rio perdia de paz o que tinha de vista bonita. Tentava ouvir música e passar despercebida. Os olhos escapavam do chão em busca de alguém. Não sabia quem ou onde achar. E nenhum amigo poderia avisá-la: eles não conhecem Bárbara.

Depois de dez anos, não procurava alguém, mas alguma coisa. Também não deixava os cabelos crescerem mais que dois dedos, era a única superfície do seu corpo onde podia escolher. Depois de quinze anos, tinha desistido de encontrar a coisa. Tinha desistido de ver novela. Bárbara, a estranha em território inimigo, ainda esperava o ônibus na mesma esquina. O atraso não estava previsto no aplicativo. Nesse dia, o motorista não pôde cumprimentá-la. Estava distraído resmungando sobre ter “sapatão na novela”. Sentiu sua face arder como ferradas de mil formigas atrasadas para o trabalho. Só outra mulher no ônibus tinha a mesma expressão no rosto. Sua agonia acalmou a tortura de Bárbara. Seus olhos caíram ao chão vidrados em garrafa sem fim. Por que não falaram antes? Já era perto do fim, mas a hora era essa. Ninguém poderia ter dito antes: eles não conhecem Bárbara(BM)


 

Sobre a série

A ideia surgiu quando, em uma legenda de foto, escrevi um miniconto. Com a repercussão, decidi criar uma série de minicontos com temática LGBTI+ que foi iniciada no último domingo, dia 28 de junho, dia do meu aniversário de 25 aos e coincidentemente Dia Mundial do Orgulho LGBT+, tanto por ser eu mesma uma mulher homossexual, como por ter muitos amigos, parceiros profissionais e família que também estão na sigla LGBTI+.

Tenho sorte de fazer parte de uma família que lida com amor e tranquilidade com minha orientação sexual, mas essa está longe de ser a realidade de todos os brasileiros da comunidade.

Os minicontos serão publicados todo domingo no meu Instagram (@mascarenhasbia).

Já fui contactada por pessoas de longe que chegam em publicações literárias através da rede que se cria na internet.

Percebi com isso que a série de minicontos poderia ser uma forma de lançar um conteúdo exclusivo para minhas redes sociais, além do conteúdo que produzo para o papel, livros ou para locais específicos.

Ter a literatura de forma acessível é muito importante para que se reintegre essa possibilidade cada vez mais: toda a arte deve ser cada ofertado de forma mais democrática como direito fundamental que é. E, para mim, as redes sociais hoje podem permitir isso para um núcleo de pessoas.

Como criador da identidade visual fixa dos minicontos tenho meu pai, o artista Romahs Mascarenhas, que criou a capa deles para que as pessoas vejam e identifiquem que não se trata de um post qualquer, mas de um novo miniconto.

A imagem mostra eu escrevendo e, dos meus papéis, sai um arco-íris, o símbolo da bandeira LGBTI+. Como parceiro profissional também tenho meu pai, o artista e roteirista Romahs Mascarenhas, com quem atualmente desenvolvo projetos de HQs, livros e exposições.

Tenho um amor e admiração incondicionais pelo meu pai, além de confiar totalmente nele como profissional. Isso fez com que ele integrasse muitos dos meus projetos e eu, os dele. Senão como agentes colaboradores, como rede de apoio. Nós temos focos-base diferentes, eu sou essencialmente escritora e ele, artista visual.

No entanto, tenho um apreço gigantesco pelas artes plásticas e meu pai é, também, escritor e roteirista. Desse modo, nossos caminhos se abraçam todos os dias (BM).

Perfil

Meu nome é Beatriz Mascarenhas, sou formada em Letras – Língua e Literatura Portuguesa pela UFAM, Mestranda em Estudos Literários pela mesma universidade.

Estou na França, em Marseille, para terminar os estudos na Aix-Marseille Université, com focos de estudos em criação literária e roteiro.

Sou fundadora do Coletivo Mona, um grupo de artistas de Manaus que trabalham com a democratização da arte em suas próprias produções, o grupo conta também com minha esposa como integrante, a Larissa Rufino e os artistas Leonardo Scantbelruy e Tainá Lima, que juntos fundaram o grupo comigo em 2016.

Escrevo dramaturgia e trabalho com teatro no Coletivo Mona há quatro anos, além de fazer produção e realizar festivais, como foi o caso do I Fest Rap, o primeiro festival de teatro do Rip Rap da Redenção, em parceria com a ONG Grupo TransformAÇÃO.

Eu sempre me interesso em tornar a arte mais acessível e em conectar artes cênicas com literatura, e agora roteiro.

Escrevo desde que posso me lembrar, tendo passado minha curta vida me dedicando a me aprimorar na escrita e desenvolvimento de projetos relacionados à literatura. Já participei de grupos, integrei livros de antologia tanto na poesia, como nas crônicas.

Acabo de terminar a escrita do livro “Bicho”, um observatório político e poético sobre a realidade brasileira em comparação com a vivência e privilégios europeus vindos desde a colonização.

O livro foi escrito metade em Manaus, metade em Marselha, e será publicado em breve. Agora, me dedico na escrita de roteiros e contos, por conta de projetos futuros em ambas as área (BM).

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