Retorno – o texto que se perdeu na floresta algorítmica. [Por Wilson Nogueira]

Esse texto escrevi no primeiro semestre de 2016, depois de sofrer infarto do miocárdio e passar treze dias internado, cinco na UTI. Minha ideia era publicá-lo, imediatamente, em agradecimento aos profissionais da saúde, desde os que limpam o chão até aos médicos, gente anônima que se empenha em salvar vidas. Mas ele sumiu. Perdeu-se na minha algorítmica. Achado agora, levo-o a público com o mesmo objetivo.

Treze dias depois, reencontrei o meu quarto como eu o havia deixado: o lençol, os travesseiros e os livros estavam desarrumados sobre a cama.

Esse cenário me faz relembrar que, naquela boca de noite, saí de casa às pressas, imaginado que nunca mais voltaria. Afinal, o meu peito e o meu braço esquerdo ardiam como se estivessem pegando fogo! Pensei, sim, na possibilidade de morrer.

Mas retornei.

Um retorno que agora só me instiga a conjecturar cada vez mais sobre essa imponderável relação da vida com a morte, as irmãs siamesas de todos os ventres.

Nascemos para morrer, mas a morte não se permite a experimentações antecipadas.  Morremos simplesmente. Ou vivemos para vislumbrar a morte, ainda que ela venha a se manifestar como vida em outra vida.

Há, todavia, momentos em que somos colocados diante dela. Aí podemos sentir o seu odor, ver a sua face, provar do seu veneno, ouvir os seus alaridos e pegar nas suas mãos.

Ela é, de qualquer forma, uma velha e eterna companhia que ninguém em sã consciência quer tê-la por perto.

Não há a experiência da morte vivida em si, entretanto, ela existe nos sentidos que animam a vida e suas sensações são inevitáveis. A vida é a sua negação, porém, se trata de uma negação incontrolável.

Por isso, somos impulsionados a enfrentá-la e a confrontá-la todos os dias, ainda que inconscientes; e nos momentos em que nos deparamos com ela face a face, nos restam as frestas que nos acenam com a luz da vida.

Isso mesmo: é aí que a sentença a “única certeza da vida é a morte” se torna bela e cruel ao mesmo tempo; bela porque nos adverte sobre a fragilidade e transitoriedade da existência, e cruel porque ela é um imperativo.

Então, o que o que fazer? Viver! Viver inclusive aqueles momentos pós-morte imaginados. Como morrerei? Como gostaria de morrer? Claro, em casa, nos braços dos meus! Sim, amanhã não estarei aqui. Como serão os dias seguintes dos meus entes queridos?

Bem, mas agora estou a caminho do hospital e os semáforos parecem conspirar contra a minha vida. O coração e o braço esquerdo ardem como se estivessem pegando fogo!

Enfim, vem o socorro dos heroicos trabalhadores da saúde – dos médicos ao pessoal da limpeza –, mas a essa altura o caminho para vida se revela uma incógnita.

Uma parada de quinze horas na sala de observação. Ali a morte me observa; a vida me conserva por um fio. Corações, mentes, técnicas e tecnologias agem para dissuadir a morte, mas ela avança.

Na UTI a morte me chama! A vida me clama! Cinco dias entre a vida e a morte. Corações mentes, técnicas e tecnologias expandiram a minha condição de Cyborg.

A parafernália de fios, medicamentos e carinho me mantêm atrelado à vida.

Luz intensa permanente. Luz de vida para morte se enfezar. É preciso ressignificar os sentidos, dar sentido ao que parece não ter sentido, animar o inanimado.

E, assim, a vida se assanha com a floresta mecânica cheia de bichos a cantarolar a vida: tucanos, nambus, mutuns, bem-te-vis, sapos, macacos pregos…

Enfezada, a morte range os dentes.

Ela arregala os olhos para o jovem médico que, desesperadamente, apela aos seus auxiliares: “Rápido, uma bomba de âmbar!”. Vuc, vuc, vuc, vuc…!

Que bom! Ele retornou. A morte chora. A vida comemora.

Mas nem sempre é assim: “Perdemos a dona (…), lamenta o médico com os olhos marejados! Tristeza entre os heróis da saúde. A morte comemora o choro deles, enquanto a netinha da dona (…) desabafa inconsolável: “Essa doença desgraçada levou a vovozinha!”.

Vida e morte estão também aqui, na UTI, entremeadas. Aliás, paradoxalmente, morte e vida só querem viver, porque a vida e morte são parte do mesmo ciclo trófico explicitado por Heráclito: “vivemos de morte, morremos de vida”.

Não é por acaso que milhares de bactérias, vírus, fungos, bacilos e outros microrganismos se arrastam nas paredes, nos pisos, nos lençóis, nas cortinas para se hospedar em corpos já debilitados, preferencialmente, desejosos de vida.

Entretanto, esses minúsculos seres morrem aos milhões nos rodos dos anjos da limpeza antes de se multiplicarem.

É do meio dessa bizarra dança que ouço, enfim, a notícia mais esperada: “Hoje o senhor desce para a enfermaria”.

A morte me faz cara feia, a vida se manifesta em um curumim da Baixa que não tem medo de careta.

Estou mais embaixo, mas ainda longe de pisar no chão onde a vida se move célere. Ver a luz atravessar a vidraça que está hermeticamente fechada e coberta com filtro solar me transmite a esperança de que logo, logo estarei em casa.

Entusiasmado, numa manhã acordei com a sensação de que já estava em casa.

Despertei para o pesadelo. Decepção horrível. Um rio invadiu o meu rosto.

Mas, para me afastar dessa sensação, me contentei em olhar a vida passar lá na rua por um discreto orifício que um paciente desconhecido fez na película que encobre a janela de vidro.

Sim. A vida passa lá fora, entre a massa de prédios, enquanto a morte, para viver, se esforça para não perdê-la de vista.

Essa é a rotina infindável da enfermaria: exames médicos, controle do corpo por medicamentos, aparelhos e dieta rigorosa.

E mais que isso: os afetos da esposa, dos filhos, dos acompanhantes, dos amigos e dos companheiros de enfermaria.

A enfermaria, para quem já veio da UTI, é como se fosse um alívio: uma aterrissagem de destino perfeita para quem tem medo de andar de avião e se jacta de destemido.

Para quem chega procedente de outras entradas e saídas, uma incógnita talvez; ou a certeza de que no limiar do nada há sempre uma grande esperança: a do retorno para casa.

Uns retornam outros não. É a vida! É a morte! Na saúde ou na doença elas estão sempre por perto. Mas, enquanto vivos, só pensamos em viver porque nos alimentamos de morte para nutrir outras vidas. Repito: esse é um processo constante e permanente.

Afinal, sabemos que vamos morrer, mas, felizmente, não sabemos quando. Mas sentimos que a vida corre no espaço e no tempo que construímos, e assim é possível compreendermos que o tempo deve ser preenchido com o viver.

Precisamos, então, viver o momento para não perder o tempo. E se vivemos é porque pensamos e se estamos pensando é porque estamos sempre mudando.

Logo, não foi difícil entender a minha atitude diante do quarto paralisado no tempo e no espaço: não me preocupei em rearrumá-lo; aproveitei, sim, para reformá-lo, assim como fiz com a vida, sem medo de enfrentar a minha sábia ignorância diante dos medos, diante da opressão da vigília e, principalmente, diante da morte.

Retornei para continuar vivendo intensamente.


PS. Estive internado no Hospital Rio Negro por conta do plano de saúde que eu a Rosário pagamos heroicamente.

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