A mídia e a privatização da água [Por Wellington Pereira*]

“A propriedade privada é um roubo”. A frase de Proudhon se torna cada vez mais necessária para se entender o avanço do capitalismo de mercado no controle dos bens-comuns naturais.

No mundo contemporâneo, o embate entre o público e o privado é visto como uma polarização arcaica desde que os estados Socialistas e de Bem-estar Social tiveram suas falências decretadas pelos totalitarismo de esquerda e neoliberalismo, cujo proposta maior é criar estados mínimos revogando ideias clássicas da política como a obrigação da manutenção da pólis (cidades-estados).

O planeta Terra, por dentro e por fora, se tornou um grande negócio sem os entraves da metafísica, sem os tentáculos contratualistas do Estado moderno. Tudo se transforma em mercadoria-midiática.

Os rios, as florestas, as reservas animais, os acidentes geográficos não pertencem mais à natureza, mas a poderosos conglomerados econômicos que buscam alternativas para explorar estes bens naturais através da indústria manufatureira de subjetividades.

A subjetividade, em si, é uma mercadoria capaz de ter seus valores de uso ou de troca embalados pelas mais desenvolvidas tecnologias de marketing.

A cultura midiática explora a subjetividade criando um imaginário social baseado nas produções ficcionais e telejornalísticas – muitas vezes sem nenhuma verossimilhança.

Toda a produção midiático-mercadológica segue os padrões dos grandes mercados consumidores; tendo como principal objetivo controlar os movimentos do social (desejos, festas, manifestações políticas) para manter a sociedade (instituições político-financeiras). O controle se dá de forma sutil.

O grande problema é que proibidos de pensar fora do controle midiático-mercadológico os indivíduos perdem a capacidade de diferençar o que é bem-comum e o  que são bens-duráveis de consumo, por isso não reage quando percebe parte da Mata Atlântica  devastada para a construção de condomínios de luxo.

Os bens-comuns estão sendo roubados para enriquecer as Democracia Privadas.

Entre os bens-comuns, aqueles que pertencem a todos os povos do planeta Terra, está a água, o mais cobiçado pelas Democracias Privadas e por regimes totalitários.

No belo livro, Bem-estar comum, Michael Hardt e Antonio Negri mostram como os movimentos sociais têm reagido às formas de usurpação dos bens-comuns por governantes inescrupulosos e organizações financeiras criminosas.

As lutas desses movimentos sociais são possíveis de acordo com a percepção de que é preciso estar além da dicotomia público-privado e introduzir no seio das comunidades a noção de altermodernidade, uma forma de exercer a política absorvendo a autonomia e a conexão de diferentes reivindicações e subjetividades, como explicam Hardt e Neri.

No livro Bem-estar comum, um exemplo das lutas sociais a partir do ciclo altermodernidade:

“Dois pontos altos desse ciclo de lutas foram a disputa em 2000 pelo controle dos recursos de água em Cochabamba e no vale que a circunda; e a batalha de 2003 pelo direito de controlar os recursos de gás natural em El Alto e nos altiplanos”.

Toda essa reação, sobretudo contra o controle da água na Bolívia, vai de encontro às regras políticas da modernidade, dos preceitos de uma economia de mercado que tem como objetivo tornar os povos despossuídos de riquezas naturais. Como relatam Hardt e Negri:

No interior da Bolívia o Banco Mundial recomendou ao governo nacional que eliminasse os subsídios necessários para o serviço público de abastecimento de água, vendendo o sistema de abastecimento a investidores estrangeiros eu estabeleceriam um sistema adequado de cobrança.

Vendido o serviço de abastecimento de água, o custo das taxas locais se elevou em 35%, o que deu início a uma série de protestos, em 2003, conhecidos como a guerra do gás e da água, o que obrigou o governo a repensar o projeto.

No Brasil, a luta contra a privatização do abastecimento de água, da estrutura de esgoto sanitário, bem que podia seguir este exemplo do povo boliviano, independente de governo, força midiática ou conglomerados financeiros, pois existe uma nova saída: fugir à verticalização política e encetar esperanças; procurado preservar o que resta de bem-comum em alguns países.


*O autor é professor Titular da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Doutor em Sociologia pela Sorbonne – Paris V.

 

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.