Freyzer, o artista ribeirinho que conquistou oceanos

Por Gerlean Brasil

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O artista Freyzer Oliveira Andrade, 33 anos, nascido na Boca da Valéria, zona rural de Parintins (AM), conquistou, nos últimos sete anos, apreciadores de artes da Europa (principalmente de Mônaco, Grécia e Noruega) e dos Estados Unidos.

Mas ele faz sucesso desde criança. Surpreendia os turistas que desembarcavam de navios de cruzeiro para observar artefatos das culturas indígenas amazônicas coletados e colocados em exposição pelos moradores. Até há pouco tempo esses objetos também eram vendidos.

Os cruzeiros param em frente à comunidade da Valéria, no rio Amazonas, há ao menos 30 anos.

Os desenhos de Freyzer, em papel cartolina – ou papel de caderno escolar -, eram deixados ao alcance dos olhos dos turistas. Não era raro receber trocado de alguém impressionado com algum deles.

Aos nove anos, a sua família – formada pelos avós maternos, os agricultores Manoel Reis Oliveira e Izaura Xavier Oliveira, pela sua mãe, Iza Oliveira Lopes, e seu padastro, o artista plástico João Félix Lopes, e pelo seu irmão Freider – foi morar na cidade de Parintins. O seu pai, o carpinteiro Flávio Ferreira Andrade (já falecido), separou-se da sua sua mãe quando ele ainda era criança.

Na cidade, Freyzer passou a frequentar a Escola de Artes do Caprichoso Irmão Miguel Pascalle. Depois de aperfeiçoar os seus desenhos, aos 19 anos, ele retornou à Valéria, para expor aos turistas, porque imaginou que a sua aldeia seria o pé da ponte para alcançar o mundo.

O tempo mostrou que ele agiu certo. Em 2014, uma companhia internacional de turismo o convidou para expor nos seus navios de cruzeiro.

Mas antes, havia passado pela Boca da Valéria, em várias ocasiões, a pesquisadora e escritora canadense Tommie Sue Montgomery, embarcada em cruzeiros como palestrante de culturas da América Latina.

Sue, de certo modo, acompanhava e se impressionava com os traços do garoto da Valéria. Em 2016, a bordo de um cruzeiro no Mediterrâneo, ela se deparou com uma exposição dos desenhos do do “curumim da Valéria”.

A partir de então ela passou a pesquisar a obra e a trajetória de vida do parintinense e o resultado desse trabalho será publicado em uma das três edições anuais da Harvard Review of Latin America.

O comunicado de Sue foi encaminhado a Freyzer em fevereiro deste ano. “Fiquei feliz pelo reconhecimento do meu trabalho, que é resultado de muita pesquisa e empenho por um aprimoramento artístico e pessoal permanente”, disse.

O mundo de Freyzer

Freyzer é hoje conhecido como o artista parintinense que viaja pelo mundo apresentando sua arte. É considerado um dos mais talentosos, principalmente por elaborar retratos contemporâneos por meio de desenhos em papel e pinturas em telas.

Para ele, a arte se define por uma relação simbiótica enraizada entre desenho e pintura. Nascido em 1987, Freyzer conheceu o mundo do desenho e da pintura por intermédio de revistas deixadas por turistas de cruzeiros em sua comunidade desde meado da década de 1980.

Hoje, cada uma das obras de Freyzer oferece um ponto de entrada para a variedade e riqueza que estão por baixo de cada rosto que se encontra na vida. A mistura de técnicas entre gêneros, todos com sobreposições visíveis, são uma marca do artista em várias mídias.

As pinturas começam com linhas abstratas e faixas de cores que estabelecem uma base para a imagem subsequentemente sobreposta de um rosto ou busto – na maioria dos casos representada por modelos.

A mulher, na sua concepção artística, simboliza uma identidade híbrida, no contexto que reflete a sua construção desintegradora no mundo cada vez mais globalizado.

O trabalho é carregado com precedentes históricos e estéticos; claramente focados no diálogo entre o abstrato, figurativo e o expressivo. Ele traduz, assim, a própria compreensão da identidade a partir de imagens em seus arredores diários.

Ou seja: o que está sob um rosto é infinitamente mais intrigante do que sua superfície impassível pode sugerir. Assim, o artista especula sobre os enigmas, observando que as identidades e as histórias são as marcas do cotidianas das pessoas por trás das fachadas, porque são moldados e posicionados por identidade através dos visuais contemplados em seus desenhos e pinturas.

Para o artista, observar de perto essa fluidez, desafiando estereótipos físicos simplistas, baseados em raça, representa uma sucessão de personagens, dinâmicas e multifacetadas. Observando a tensão entre abstração e representação, na qual há um senso de unidade transmitido pelos retratos de Freyzer, com a multiplicidade de representações parciais ou fragmentadas servindo para criar uma imagem holística nos olhos da mente.

“A psicologia nos diz que, frequentemente, aquilo que parece obscuro pode, de fato, servir para revelar, implicar e iluminar”, acentua o artista.

Freyzer explica que convida o observador a contemplar os segredos que desmentem esses rostos ostensivamente inescrutáveis.

As pessoas que ele desenha ou pinta possuem uma qualidade particular que apela à sua sensibilidade visual.

Apesar de manter toda a sua austeridade e estética pacífica, as figuras de Freyzer permanecem altamente carregadas com a energia emotiva e gestual de seu processo criativo.

Mesmo com ateliê instalado hoje Oviedo, Norte da Espanha, a elaboração artística de Freyzer permanece adaptável, inventiva e com com traços amazônicos.

Com isso, ele alcançou sucesso e pôde incluir as suas exposições nas companhias de cruzeiros mais luxuosas do mundo, como: Crystal Cruises, Silverseas, Holland America Line, Celebrity Cruises etc.

Acompanhando a sua arte já conheceu todos os continentes e 84 países, e hoje fala com fluência o inglês, espanhol e alemão.

Seu trabalho continua a inspirar e a cativar as mentes de novatos e especialistas em arte, em especial da Europa.

Nos últimos sete anos, o artista estabeleceu um número considerável de apreciadores dos seus traços em Mônaco, Grécia, Noruega e Estados Unidos.

Exposição em varal, em 2005, na comunidade Bocoa da Valéria. Foto: acervo do artista.

Retorno

Na Boca da Valéria, Frayzer investe em uma hospedaria destinada a apreciadores de arte de todos os cantos o mundo. Ela começou a ser construída em 2019 e deve ficar pronta no próximo ano.

Ele revelou que convidados ilustres, principalmente americanos, já estiveram na Valéria para acompanhar o processo criativo de soerguimento da construção, cuja proposta arquitetônica é oferecer aos seus hospedes uma convivência harmoniosa com  a natureza e com a arte.

O projeto é financiado com os recursos próprios, fruto das da conquista do artista em suas exposições pelo planeta.

Freyzer anunciou que vai expandir seu investimento para a área social, com a instalação de uma oficina de arte e idiomas para ao menos 200 crianças da comunidade da Valéria.

“É uma forma de recompensar tudo que a Valéria me deu de oportunidade para que eu seja quem sou. Eu divulgo a comunidade da Valéria pelo mundo. Isso é uma relação de muito afeto e amor com a minha terra. É uma maneira de mostrar que outras pessoas podem realizar seus sonhos e desejos, porque é possível, pois eu sou uma prova viva. Tem que ter talento, mas sem dedicação não se chega a lugar nenhum”, ensinou.

Hommie Sue Montgomery

Hommie Sue Montgomery mora na América Latina desde 1976. Pesquisou por 25 anos em El Salvador e é autora de três livros e inúmeros artigos sobre o país.

Pesquisas relacionadas incluíram exames de religião e política na América Central, política externa dos Estados Unidos da América (EUA) na região, refugiados da América Central e o processo de paz em El Salvador, inclusive o papel da Organização das Nações Unidas (ONU).

A pesquisadora residiu no México, Belize, Nicarágua e Argentina, onde recebeu três Fulbrights.

Em 2013, foi homenageada no Wesleyan College, na Geórgia, por Distinguished Achievement in a Profession.

Desde 2005, Sue faz palestras sobre a América Latina, Canadá e EUA, os vikings e a Islândia, em navios de cruzeiro de Vancouver a Cape Horn, na Amazônia, no Caribe e através do Atlântico.

Em 2014, publicou Navigating em Machu Picchu: um breve guia para planejar e tirar o máximo proveito da sua viagem (Amazon).

Uma segunda edição em 2016 e uma terceira edição em 2017, com as regras mais recentes para visitantes.

A revista que publicará o artigo dele com o estudo sobre a arte de Freyzer concentra-se em diferentes temas relacionados à América Latina, reúne diferentes vozes sobre cada tema, e destaca o trabalho do corpo docente de Harvard, estudantes, ex-alunos e Visiting Scholars.

Com a instituição-matriz, o David Rockefeller Center de Estudos Latino-Americanos de Harvard, promove a cooperação e o entendimento entre o povo das Américas.

A publicação de artigos acadêmicos, em suas páginas, busca contribuir para a democracia, o progresso social e o desenvolvimento sustentável e estimular o diálogo sobre essas questões.

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