Escrevendo histórias para crianças [Leyla Martins Leong*]

E se as histórias para crianças passassem a ser leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender o que tanto tentam ensinar? José Saramago

Toda vez que tenho que identificar-me como autora, me incomoda dizer que faço literatura infantil. Atualmente tenho preferido dizer que escrevo para crianças.

No entanto, percebo que existe um certo preconceito que paira sobre o trabalho feito pelos escritores que escrevem livros para crianças, gênero literário considerado menor em relação a outros como os romances, novelas e ensaios, dirigidos aos leitores adultos.

Se considerarmos a quantidade de linhas, palavras, páginas e pesquisa, até pode-se acreditar que realmente a literatura adulta representa uma quantidade de tempo maior de uso do cérebro.

Mas isso não desvaloriza o trabalho daqueles que escrevem para crianças. É muito difícil conseguir sintetizar em poucas palavras ideias inteligentes e atraentes ao mesmo tempo, para a conquista definitiva dos leitores que mais tarde consumirão obras mais densas e volumosas.

Para seduzir esse leitor iniciante, quem escreve para crianças deve desenvolver uma capacidade especial de síntese e simplicidade; saber identificar qual a área de interesse do seu público e aquilo que representa a atualidade para as crianças. Serão ainda as fadas, os duendes e os reis em seus castelos, ou serão os assuntos reais do agora?

Quem escreve para crianças tem que fazê-lo “vendo” o texto representado em imagens, pois as ilustrações são fundamentais para estabelecer a aproximação com os pequeninos.

Ainda não me atrevi a fazê-lo, mas tenho pensado muito em escrever um texto sobre um navio pirata que há alguns anos sequestrou crianças africanas e depois as abandonou à deriva no mar.

Seria essa história mais cruel do que a de Rapunzel, prisioneira de uma bruxa na torre de um castelo? Ou a de João e Maria, abandonados pelo pai no meio de uma floresta, à mercê das feras e do medo? Talvez seja mais aterrorizante se pensarmos que o fato é real e está acontecendo, com variações em vários lugares do mundo, hoje.

O autor de histórias para crianças tem de pensar também que a iniciação delas nos prazeres da leitura não se dá espontaneamente: gostar ou não de ler vai depender dos pais e dos professores. Portanto, eis aí mais uma pedreira que o autor tem de atravessar.

Recentemente encomendei um anel a um joalheiro famoso. Pedi que criasse uma peça simples, em prata, com a inscrição “tudo passa”, para que não me esqueça da impermanência das coisas desta vida. Um anel filosófico, portanto.

Disse-lhe que era escritora e que escrevia para crianças.

Prontamente ele respondeu o meu e-mail, informando o preço e a forma de pagamento, dizendo-se muito entusiasmado em produzir uma joia para uma escritora. Lá no final do texto do e-mail ele pede, como se fosse um elogio, que eu mande meus livros para ele ler para o filho. Só esqueceu de perguntar o preço.

Tenho certeza que o tempo e o talento que ele vai utilizar, para criar e produzir o meu anel, não será menor do que a minha dedicação e esforço para escrever os meus livros.


*A autora é jornalista, escritora e ilustradora. É autora dos livros Essa tal de natureza, Cida: a macaca travessa, Sua majestade o Gavião Real e Duas histórias da noite (Editora Valer)

 

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