Na pós-quarentena vamos não medicalizar nossos afetos, mas ouvi-los [Por Cleison G. Pimente*]

 

Estamos saindo gradualmente de uma quarentena, mas ainda estamos lidando com a pandemia da Covid-19 e esse cenário vem contribuindo para a explosão de casos de ansiedade e depressão, bem como o uso exacerbado de medicações psiquiátricas. Entretanto, esse boom dos diagnósticos não é algo novo.

O Brasil é um dos países que mais consome ritalina. Sempre vemos os meios jornalísticos com matérias ensinando como identificar a depressão e até mesmo as estatísticas indicam que transtornos do humor serão um dos problemas do século.

Com isso, vemos um contexto onde cada vez mais as pessoas usam termos psiquiátricos para abordar eventos da vida e problemas emocionais, principalmente com pós-quarentena.

De nenhum modo quero ser contrário aos medicamentos, a minha crítica vem sendo sobre o uso cada vez mais cotidiano e excessivo desses termos para dar voz aos nossos problemas.

Acredito que seja importante falar sobre depressão e ansiedade, mas sinto que o problema não é tratado considerando, por exemplo, questões sociais, como faz a psicanalista Maria Rita Kehl em seu livro O Tempo e o Cão (2009). Então, acabamos por abordar o problema pela metade.

Fico me questionando que parece cada vez mais evidente que nossos afetos só podem ser legitimados se eles estiverem batizados com um diagnóstico.

Esse processo atual é chamado de medicalização da vida, onde vemos problemas existenciais serem transformados em diagnósticos e a abordagem para tratar esses problemas são os medicamentos.

Mas, esses caminhos não produzem nenhuma abertura para que possamos refletir e escutar aquilo que está acontecendo em cada um de nós.

Acredito que em vários momentos da vida podemos nos sentir mais “incapacitados” para lidar com aquilo que nos vem ao encontro, mas o uso excessivo de diagnósticos em nosso contexto vem se tornando nossa identidade. Todo esse cenário vem produzindo uma vivência amortecida frente à vida, levando pessoas a não experimentarem algo de significativo e nossas experiências parecem ser cada vez mais filtradas por diagnósticos que criam entraves que impedem as pessoas de passarem pelo processo da dor.

O filósofo Martin Heidegger alerta sobre essa questão e, para isso, ele indica a necessidade de refletir sobre como experimentamos os nossos afetos.

Olhar para os afetos é um exercício para compreender como estamos lidando com nossa vida. Ouvir nossos afetos nos guia para uma maior intimidade com as nossas questões e a possibilidade de lidar com o nosso sofrimento.

Narrar os afetos e nosso sofrimento podem abrir novas possibilidades, porque nossos problemas possuem uma história que precisa ser contada para ser transformada.

 *O autor é 1psicólogo, mestre em psicologia e professor da Fametro

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