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“Temos que ser mais valorizados”, diz a educadora manauara Nota 10 do Brasil

Por Wilson Nogueira

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A professora Lúcia Cristina Cortêz de Barros Santos, Educadora Nota 10 do Brasil, prêmio comparável ao Oscar hollywoodiano em reconhecimento profissional da educação brasileira, disse, em entrevista a este amazONamazonia, que os professores precisam ser mais valorizados [pelo mercado de trabalho], porque, no momento, têm uma sobrecarga muito grande de trabalho.

Lúcia Santos é gestora da Escola Municipal Professor Waldir Garcia, uma unidade de educação integral e transformadora, localizada na rua Pico das Águas, bairro São Geraldo.

A professora, que é graduada em Letras Língua/Portuguesa e pós-graduada em gestão escolar, pela Ufam, atribui o êxito da sua administração ao apoio institucional, às parcerias e ao entrelaçamento da escola à comunidade escolar (professores, servidores, alunos, pais de alunos) e aos moradores do bairro.

Confira a entrevista:

Professora, qual é o recado que esse prêmio emite para o poder público e para a sociedade manauara?

O prêmio comprova que apesar das dificuldades e da necessidade de um olhar mais minucioso para a Educação, com investimentos e políticas públicas adequadas, há muitos profissionais que não desistem de lutar e de fazer a diferença na vida das crianças e jovens manauaras. Precisamos de mais mobilização da sociedade para apoiar e lutar por melhores condições e valorização dos profissionais da educação.

E para a senhora?

É uma grande realização pessoal e profissional. São 26 anos trabalhando na rede pública de ensino de Manaus. O Prêmio Educador Nota 10 é o Oscar da Educação no Brasil. Fico orgulhosa e envaidecida pelo reconhecimento e visibilidade nacional que recebi por conta do trabalho desenvolvido na Escola Municipal Professor Waldir Garcia e na Educação manauara como um todo.

Por que, em pleno século 21, a escola ainda não é, genericamente, inclusiva?

É contraditória a afirmação de que a escola brasileira em pleno século 21 não é inclusiva, pois o Brasil tem leis avançadas sobre a inclusão. Infelizmente, é real este quadro com as estatísticas que ,na prática, não se concretizam e as leis ficam apenas no papel. A metodologia vivenciada na Escola Tradicional não propicia a inclusão. Ela é conteudista, competitiva, rígida e inflexível.

Fale-nos um pouco sobre o seu projeto vencedor do prêmio.

O projeto surge da necessidade de repensar nossa prática pedagógica tradicional, que acentuava as desigualdades sociais, dentro de um universo escolar com tantas diferenças. A ideia foi mudar para uma gestão democrática, com metodologias ativas, seguindo os princípios da Educação Integral: centralidade, singularidade e diversidade.

O projeto “Acolher para Todos Envolver e Aprender” busca estratégias para acabar com a competição e estimular a colaboração. Aprendemos uns com os outros, de forma colaborativa e compartilhada.

Trabalhamos com os quatro pilares: empatia, criatividade, protagonismo e o trabalho em equipe.  Assim, mudamos o mobiliário escolar e acabamos com as filas e as provas. Dissemos não à reprovação, criamos assembleias, tutorias e roteiros de estudos. Propiciamos, ainda, espaços de escuta e de diálogo na escola, onde as decisões são tomadas no coletivo.

Vivemos uma escola em processo que luta por uma educação libertadora e transformadora, com cidadãos críticos e reflexivos.

Então, como a senhora conseguiu se articular com a comunidade escolar para obter êxito nas suas ações?

Esta escola sempre foi articulada com os membros comunidade do entorno da instituição. Eles usam todos os espaços da escola (quadra, cozinha, salas de aula, entre outros).

Quando terminamos o expediente, eles entram e usufruem destes espaços com muito zelo, responsabilidade e pertencimento.

Em 2016, conhecemos o CEFA – Coletivo Escola e Família do Amazonas, os quais matricularam os filhos na Waldir Garcia e vieram para somar esforços, nos apoiando e estudando conosco práticas inovadoras existentes em outras escolas.

E com o poder público?

Fomos apresentados ao CEFA e seu respectivo projeto de Educação Integral pela SEMED.  A partir daí, foi criado o GT – Grupo de Trabalho, que é composto pela escola, pais e secretaria.

Estudamos e construímos, de forma colaborativa, a proposta de educação integral da Secretaria Municipal de Educação. Mantivemos um trabalho de parceria e de diálogo muito franco e aberto nesta atual gestão, o que favoreceu o sucesso do projeto e da escola.

Por que as políticas públicas para a educação não respondem às demandas da sociedade contemporânea?

Temos que mobilizar a sociedade para que as políticas públicas para educação correspondam às demandas contemporâneas.

É nosso dever transformar as escolas para que possam atender às competências do século XXI.

Temos que dar o primeiro passo e lutar para que estas transformações aconteçam. A escola é um espaço privilegiado de transformação.

 

Qual a sua opinião sobre relação novas tecnologias (internet) versus educação. A falta de aceso à internet afeta o desenvolvimento da educação?

Não podemos abrir mão de do uso das novas tecnologias como ferramenta no ensino. Precisamos utilizá-las para tornar a aprendizagem mais interessante e prazerosa. Na minha visão, aprender com o lúdico prende a atenção dos estudantes.

A falta de acesso à internet hoje afeta muito o desenvolvimento da educação. É primordial que todos os atores educacionais estejam conectados. Só assim é possível proporcionar uma educação qualificada e com a devida equidade.

Na comunidade que a senhora atua, como é que essa realidade se manifesta?

A nossa comunidade escolar vive um cenário desigual e de muitos desafios educacionais. Entre eles, está a falta de acesso à internet, televisão e aparelhos de telefone móveis. Como trabalhar a aula em casa por meio da televisão? Como trabalhar educação apesar da distância?

Para sanar este problema, iniciamos uma campanha virtual para arrecadar TVs e celular celulares. Conseguimos oito TVs, 27 celulares e dinheiro para a comprar de chips com internet. Assim, conseguimos conectar a todos.

Por que é que a senhora consegue agir e modificar uma determina realidade e outros professores não?

Parafraseando o grande mestre Paulo Freire: “Precisamos contribuir para criar uma escola que é aventura, que marcha, que não tem medo do risco, por isso, que recusa o imobilismo. A escola em que se cria, em que se fala, em que se atua, em que se ama, em que se adivinha, enfim, a escola apaixonadamente diz sim à vida”.

Não podemos perder a esperança nesta escola humana, flexível e inclusiva. E não sou apenas eu. Com força de vontade, todos educadores desse país podem fazer isso. No Prêmio, por exemplo, temos outros tantos professores – incluídos os 10 vencedores e os 50 finalistas – com propostas maravilhosas e fundamentais para a educação brasileira.

Quais os efeitos da pandemia do novo coronavírus no sentido de fazer a educação cumprir seus objetivos? O que ficou mais visível?

Ficou visível as desigualdades sociais e a falta de acesso aos principais meios de comunicação. Também destaco as dificuldades dos professores em trabalhar com as novas tecnologias. Tivemos que nos reinventar, estudar e quebrar paradigmas.

O que a senhora acha da formação (aperfeiçoamento continuado com apoio do poder público) dos professores?

Na SEMED, temos o DDPM – Divisão de Desenvolvimento Profissional do Magistério, que tem realizado um trabalho muito bonito de formação continuada junto aos professores e gestores. Temos um espaço de escuta e diálogo, que visa sempre uma formação construída no coletivo e de forma colaborativa, valorizando as experiências existentes na rede com práticas inovadoras.

A senhora concorda que há um descompasso entre a formação (pedagógica, didática, emocional etc.) dos professores em relação às emergências de uma nova sociedade?

Como mencionei anteriormente, a formação ainda é muito conteudista. Temos que valorizar e praticar a integralidade do sujeito, valorizando-o em todas as suas dimensões (social, cultural, física, emocional e intelectual).

E sobre os salários da categoria?

O professor tem uma sobrecarga muito grande de trabalho. A maioria trabalha os três horários, leva trabalho pedagógico para casa e, ainda, precisa dar conta dos trabalhos domésticos. Temos que ser mais valorizados. Além disso, precisamos de tempo exclusivo para pesquisas.

Quais seriam os principais desafios da educação hoje? A senhora pode enumerá-los.

  • Mais investimento na educação.
  • Educação de qualidade com equidade e inclusão.
  • Envolver as famílias no processo educacional.
  • Fortalecimento da escola pública com um processo de gestão participativo e democrático, sem indicações políticas.
  • Autonomia administrativa, pedagógica e financeira das escolas.
  • Desburocratização das relações na educação em todas as instâncias.

Perfil

Lúcia Cristina Cortêz de Barros Santos

Formada em Letras/Língua Portuguesa em 1995 e com pós em Gestão Escolar em 2020, ambas pela UFAM Universidade Federal do Amazonas.

É gestora há 26 anos. Atualmente dirige uma escola de Educação Integral e Transformadora, a Escola Municipal Professor Waldir Garcia/Manaus- AM, reconhecida em 2017 como Escola Transformadora pela ASHOKA. Assumiu a direção em 1995 pelo PROSED-Processo Seletivo de Diretores , recebeu prêmio Itaú em 2017, Prêmio Nestlé em 2020, top 10 do prêmio educador nota 10 no ano de 2020.

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