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Telas iluminadas prejudicam o sono, diz bióloga do sono, na reunião da SBPC

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A pandemia do novo coronavírus agravou a privação de sono entre crianças e jovens que já vinham pressionados pela cultura da produtividade total 24 horas por 7 dias da semana, afirmou a professora Monica Levy Andersen, livre-docente e chefe da disciplina Biologia do Sono e vice-chefe do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Segundo ela, além de mais de 80 distúrbios já mapeados em estudos internacionais, a privação voluntária de sono acarreta custos sociais como jovens dormindo em sala de aula, acidentes de trânsito e laborais.


Assista ao debate na íntegra no canal da SBPC no YouTube.


Andersen foi um dos especialistas convidados pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) para a mesa-redonda “Sono e saúde da geração jovem: O impacto das novas tecnologias na qualidade do sono e da vida”. Coordenada pela diretora da SBPC Lucile Maria Floeter-Winter, o debate contou ainda com Gabriel Nathan de Sousa Pires, professor assistente de Fisiologia na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP), e Priscila Kalil Morelhão, pós-doutoranda no Departamento de Psicobiologia na Escola Paulista de Medicina (Unifesp).

Monica Andersen explicou que o sono é importante para processos cognitivos, regulação metabólica, cardiovascular e do sistema imune, o que se torna ainda mais relevante no enfrentamento ao coronavírus. “É o sono que dá nosso equilíbrio interno”, disse.

A necessidade diária de sono, contudo, evolui ao longo da vida, sendo maior quando bebês (até 12 horas), diminuindo até chegar a cerca de 4 a 5 horas em idosos.

Segundo Andersen, a pandemia e a necessidade de isolamento provocaram profundas alterações no comportamento das pessoas em relação ao sono.

“O distanciamento (social) mudou a saúde mental dos jovens e essa rotina mental significa que muitos têm que usar os dispositivos eletrônicos porque é a única forma de mantermos contato”, analisou.

O biomédico Gabriel de Souza Pires abordou os impactos da tecnologia, especialmente o celular que, segundo ele, cria uma dependência

comportamental tão forte quanto a do cigarro e das drogas, embora sem o potencial aditivo destas.

Em sua apresentação Pires falou dos efeitos negativos do celular, principalmente a hiperexcitabilidade cortical e a alta exposição à luminosidade, que provocam o aumento da latência de sono e a inibição da secreção de melatonina, o hormônio do sono. Quanto mais interativo o dispositivo, maior o tempo que uma pessoa leva para se sentir capaz de dormir.

Os efeitos de privação do sono são mais nocivos em crianças que, na opinião de Pires, deveriam ser afastadas destes equipamentos até os dois anos de idade.

Reconhecendo que o smartphone, o tablet e as TVs são uma realidade da vida moderna e que as pessoas não vão deixá-los, Gabriel Pires indica a necessidade de conscientização sobre os prejuízos ao sono decorrentes do uso excessivo destes equipamentos.

“Temos também que nos engajar em atividades de redução de danos”, como diminuir o uso dos dispositivos próximo ao horário de dormir, mantê-los no silencioso e distantes durante a noite e usar um filtro de luz azul.

Analisando os aplicativos que prometem melhorar o sono, disponíveis nas principais plataformas (Androide e Apple), Pires alertou que a maioria não funciona. Em especial os do tipo ASMR, sigla para Autonomus Sensory Meridian Response que, na opinião do biomédico, “é a Terra plana da medição do sono”. Segundo ele, os aplicativos que mais funcionam são os classificados como terapia comportamental cognitiva (CBTi na sigla em inglês) – um tipo de psicoterapia especifica para insônia, os voltados à higiene do sono e os “smart clocks”, que indicam os melhores horários para dormir e para acordar.

“Há muitas opções de aplicativos internacionais, mas poucos chegaram ao Brasil”, comentou Pires.

Priscila Kalil Morelhão, do Instituto do Sono, falou sobre a relação entre o sono e a saúde mental nos jovens.

Embalados muitas vezes por noites mal dormidas propositalmente, seja estudando, se preparando para provas, ou se divertindo em festas nas quais o consumo de bebidas se mistura ao de substâncias lícitas ou ilícitas energizantes, os jovens correm sérios riscos, alertou Morelhão.

“A duração de sono reduzida mostra alteração de humor nos adolescentes, imagine as pessoas que ficam privadas de sono a noite inteira (em uma rave, por exemplo)”.

Segundo ela, uma pessoa que já apresenta algum tipo de transtorno mental (ansiedade, depressão, transtorno bipolar) e passa por uma noite de privação de sono pode chegar a ter maior “idealização suicida e também um surto”.

Como prevenção, ela recomendou que os jovens busquem relacionamentos satisfatórios, cuidados com a saúde mental, evitar substâncias que podem prejudicar a saúde e procurar dormir bem sempre.


Jornal da Ciência

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