Sobre o meu aniversário em tempos pandêmicos [Por Wilson Nogueira]

Não herdei a tradição de comemorar o meu aniversário. Nem os meus irmãos.

Quando crianças e adolescentes – éramos oito, feitos ao jeito escadinha –, não tínhamos como nem porque comemorar a passagem desse ciclo de nossas vidas, estávamos sempre em situação de perrengues.

O papai, o velho Adolfo (falecido), certa vez, comprou umas garrafas de Guraná Delícia, iguaria parintinense produzido por Nakaio Taketomi, para comemorar o aniversário de um de nós, e foi parado a caminho de casa por um vizinho, que se mostrou muito preocupado com aquela cena inusitada.

– Sêo Adolfo! Quem está doente em sua casa?

Papai fez-se de ouvidos moucos e seguiu furioso.

É que as famílias pobres, principalmente as de maré-maré, costumam usar refrigerantes mais como remédio para expulsar os gases, e menos para comemorar aniversário.

Esse episódio passou para anedotário familiar.

Minha mãe, a dona Júlia (falecida), que mais agia que se lamentava, não se cansava de resmungar:

– Esse Adolfo me envergonha.

Quando já estava no mercado de trabalho, cansei de lembrar a data do meu aniversário em atividade.

Mas, lá no começo dessa jornada jornalística, possivelmente em 1980, lembro de uma comemoração surpreendente. Amado Batista, o cantor, saía da Rádio Baré (avenida Eduardo Ribeiro), depois de divulgar seu LP, e soube que era o dia do meu aniversário.

– Oi, meu caro, vamos ali.

Entramos no carro do locutor Hudson Lacerda, o Teleleu, e fomos parar em uma pizzaria chic do Beco do Macedo.

Com a família – eu, Rosário, Dassuem e Enã -, os aniversários passaram a ser mais frequentes.

Mas eu, quando aniversariante, estava sempre atrasado em razão de compromissos com o trabalho.

Só tomei a iniciativa de fazer o meu aniversário de 60 anos, depois de passar por uma revascularização do coração em 2005, com quatro safenas e uma mamária, e por um infarto do miocárdio em 2016.

Reuni, pela primeira vez, todos os irmãos e sobrinhos e nos fartamos de refrigerantes – desses feitos de guaraná –, peixe assado, recomendação da Rosário; bobó de camarão, do Enã; creme de camarão, da Silva (cunhada), salada crua, da Dassuem; e galinhada, da Dedé (irmã).

Meu sobrinho Gabriel se saiu com essa, só para confirmar a não tradição da comemoração de aniversários entre nós.

– Enfim, essa família se reuniu, pela primeira vez, fora dos velórios e dos enterros.

Neste ano atípico, não haveria mesmo como celebrar aniversários à moda antiga. Estou enquadrado em vários itens de risco de morte se  contrair Covid-19. Depois, estou com pessoas queridas internadas em razão dela. Outras se foram.

Triste mesmo!

Mas recebi homenagens que jamais serão esquecidas por mim e pela família.

Primeiro, do grupo de reunião online formado por mim, Ivânia Vieira, Arlete Taboada (SP), Ana Célia Ossame, Renata Lima, Terezinha Patrícia, Aparecida Gourovith (Paris) e Ana Cláudia Leocádio (Paris) e Eleonora Dias (DF).

Nos reunimos semanalmente, para atualizar as agendas dos diversos temas que correm neste período pandêmico, sempre de modo enviesado.

A reunião de ontem (08/9) se transformou na celebração do meu aniversário. Arlete fez uma trilha musical com trechos de minhas conversas nessas reuniões. “Uma brincadeira muito séria”, assim como ela mesma definiu. Arlete me fez falar bonito e divertido. Um milagre midiofônico!

Gostei, Arlete!

Pedrinho Ribeiro, o mais pávulo dos cantores parintinenses, demorou achar-se nas infovias, mas chegou a tempo de dar o seu recado com Maluco Beleza, de Raul Seixas,  e com Balada do Uaicurapá, do legendário Adolfo Lorido.

Amamos, Pedrinho!

Li, nas RSDs, textos que só aumentam a minha responsabilidade como marido, pai, amigo, aluno, professor, jornalista, sociólogo e escritor.

Não é mesmo, Suzan Monteverde? Não é mesmo, Dilce Pio?

São todas pessoas que vamos cativando no decorrer da vida, umas próximas, conhecidas, e outras que nos admiram por meio dos livros e textos que escrevemos.

A todos e todas a minha gratidão, a gratidão da família.

Enfim, que essa pandemia passe logo, para voltarmos a comemorar nossos aniversários cara a cara, com o vigor presencial da força dos laços de amizade, da solidariedade e do companheirismo.

E não esqueçam do guaraná.


PS.: Tive que suspender a finalização desse texto, no dia 9/9, para me recolher a reflexões sobre a morte do meu cunhado Sérgio Reis, saxofonista, professor de música e performático contador de histórias; e da colega Ana Maria Peixoto, escritora que escreveu livros pensando na valorização e divulgação do imaginário amazônico.

1 comentário
  1. Ivânia Vieira Diz

    Bacana fazer esse registro, Wilson Nogueira! É em você um tempo novidadeiro onde o comemorar torna-se celebração em louvor a vida, a cada dia, a cada passo, a cada amanhecer. Uma razão em meio a tantas tramas para encolher e negar a celebração. Celebre cada virada nessa aventura pela Terra e que possamos ser parte da galera.
    Um cheiro
    Ivânia

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