Cosme e Damião importam! (Por Enã Nogueira)

Vivi a minha infância nos hoje longínquos anos de 1990 e, incrivelmente, tudo era muito diferente.

Nesta época do ano, por exemplo, nos preparávamos para a festa de São Cosme e Damião   os santos protetores das crianças.

Era comum, no bairro do japiim, na região do Morrinho, as famílias pagarem promessas distribuindo doces e pipocas.

Entre o meu grupo de amigos organizávamos uma operação para ir até as casas já escolhidas previamente.

Andávamos o bairro todo disputando as comidas e as vezes brinquedos.

Minha saudosa avó materna, a Benedita, devota filha de santo, me levava para o terreiro onde eu era mimado pelos idosos com muitos presentes.

Assim, nunca considerei o dia 12 de outubro o Dia das Crianças e, sim, o 27 de setembro.

Já na adolescência, neste período do ano, recebi muitos jornais e panfletos dizendo para as crianças não acolherem os bombons de Cosme e Damião, pois eram “coisas do demônio” .

Na época, eu não sabia, porém, estava presenciando uma campanha difamatória racista.

Esta difamação corre e é reforçada nas bocas de muitos ainda hoje, de modo que vi diminuir drasticamente a cultura de dar doces nas portas das casas e, em certo círculos, nem se pode tocar no assunto sem perceber um preconceito velado.

A campanha sórdida continua e o desrespeito às religiões de matrizes africanas se dissemina. As versões religiosas cristãs ocidentais, geralmente, associam os infortúnios das pessoas com a aproximação da fé dos negros.

Isso é deplorável e nega a própria história de formação e os fundamentos do cristianismo.

È inegável a influência afro-brasileira nessas práticas devocionais, o que é motivo de orgulho dessa identidade negra e mestiça que herdamos. E mais: o Brasil é um país laico, e essa condição é determinada pela Constituição Federal, que deve ser reconhecida e cumprida.

Hoje assumo funções mais profundas na religião afro-ameríndia-caribenha e não sou mais a criança que corre pelas ruas e, sim, o adulto que renova as suas promessas por um mundo melhor nessa época de fascismo.

Rezar e cultuar ao  modo dos negros é, também, ser resistente diante de tanto preconceito racial.

Vidas negras importam e os nossos Cosme e Damião abrasileirados continuam resistentes com seus rostos e gestos mestiços e latino-americanos.

Manter a tradição é resistir social e espiritualmente.


*O autor é graduando/finalista do curso de Enfermagem na Faculdade Estácio de Sá.

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