Essas palavras que não se usam mais [Por Lúcia Carla Gama*]

Estava na fila da padaria cumprindo o penúltimo compromisso daquele dia após trabalho, reuniões, decisões tomadas, ainda faltava chegar em casa para encontrar Lelê e jogar fora a boa conversa de sempre antes do sono de descanso, quando o bate-papo entre duas senhoras me chamou atenção.

“Fui lá embaixo ontem de manhã, aquele lugar tá impossível. Trânsito horroroso, um calor medonho, muita gente na rua, mesmo com a pandemia. Só fui lá porque o corte que eu queria só tem na loja da Lobo D´Álmada”. A última frase me prendeu de vez a atenção no disse-me-disse alheio.

Porque ouvir num mesmo diálogo palavras como “lá em baixo” significando centro da cidade e “corte” querendo dizer tecido é algo sensacional neste último dia de setembro de 2020. E viajei depois daquilo…

“Lá embaixo”  como centro da cidade é a cara do meu avô Petrônio que costumava dizer que papai trabalhava no Banco do Brasil “lá embaixo”, na estação dos ônibus em frente da Praça da Matriz. “Corte” feito tecido quem comprava eram minhas avós Orlanda e Maria. As duas muito boas em operar máquinas de costura e talentosas para fazer os pedaços de panos virarem modelos de vestidos, calças ou blusas.

Fiquei pensando nas palavras que já não se usam mais mas que ouvi tanto ainda na infância e que minha filha nem sabe o que significam. Vô Petrônio todos os meses, depois de receber o “ordenado”  colocava os netos e a filha mais nova, Naína, em fila e repartia conosco parte do pequeno ganho da aposentadoria. Não era nada demais – mais valia o gesto da partilha, o simbolismo da divisão, que o valor em si, mas nós crianças ficávamos felizes da vida.

Minha avó Orlanda mantinha em uma “penteadeira” seus perfumes, desodorantes e loções para os cabelos. Lembro bem do frasco da loção Camélia do Brasil que mantinha a cor natural dos cabelos. Também parece que a estou vendo falar quando ela pedia para pegar as louças mais bacanas da casa, usadas somente em dias de festa, e que ficavam guardadas no “bufê” da sala de jantar.

 

Àquela altura, as moças e rapazes não se apaixonavam, eles ficavam “enrabichados” uns pelos outros. Eu, criança, ouvia aquilo e ficava imaginando alguém arrastando um rabo enorme por outro alguém. Devia ser muito amor para seguir de um lado para o outro com um peso extra no corpo.

E o “urinol”? Uma forma elegante de chamar o velho e famoso “penico” usado para salvar a turma que não tinha sanitário dentro de casa e precisava fazer xixi na madrugada. Eu sempre “me abri” desse nome. “Urinol” é muito engraçado e, comprovei, Letícia nunca tinha ouvido falar.

Como eu nunca tinha ouvido e desde que ouvi não esqueci mais de “estearina” como sinônimo de vela. Foi na época em que havia racionamento de energia elétrica em Manaus. As luzes se apagaram e alguém na casa do pai de uma amiga querida, gente que veio do interior do Estado, foi taxativo: “pega a estearina dentro da gaveta da cômoda”. E eu esperando para saber o que era aquilo.

Palavras e expressões, como tudo na vida, vêm e vão, entram e saem de moda mas não desparecem. Ficam nos dicionários registradas para o sempre que durar a existência humana. Que bom! Este é um campo em que quanto mais melhor. Nem dá para imaginar o que virá ainda depois dos tempos de agora em que já não se começa mais nada, se “starta”; não se apaga, se “deleta”; não se apaixona, fica “in love”. Que venham todas as novidades – são sempre bem-vindas que o passado já sabemos de cor.

*A autora é jornalista.

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