Bosta n’água [Por Fátima Guedes*]

“[...] A ditadura e o oprimido/ O prometido e não cumprido E o programa do Partido/ Tudo vira bosta. (Rita Lee)

 Feiras e mercados são espaços por excelência de expressividades culturais: da livre comunicação à variação de produtos. A inspiração sobre o objeto figurativo destes rascunhos fluíra justo na Feira do Produtor, em Parintins/AM.

Papo vai, papo vem, Dona Filó, septuagenária, calejada pelas ininterruptas contaminações politiqueiras do Município, com irreverência evacua verbalmente o indesejável produto, há anos, preso na garganta: Essa nojeira toda fez Parintins discunforme pixé* – Essa corja toda que fala em defender nós é um bando de bosta n’água. Tanto faz votar no a, b, c… A bosta continua igual. Chega! Lá em casa nós não vota mais em ninguém.

A altiva espontaneidade da anciã caracteriza-se em legítima liberdade de expressão: sem regras, sem padrões, sem preconceitos e mais, a livre comunicação fora entendida por todos os que circulavam na feira. Certamente, o brado de D. Filó ecoara em muitos ambientes, mesmo em forma de humor.

Não é novidade: transgressões ao hipocritamente correto incomodam, porém são estratégias necessárias para combater dormências características de categorias manipuladas por meios diversos… Em se tratando de comunicação – simplicidade, clareza e objetividade – contribuem efetivamente para um despertar interventivo e até humanizante.

Assim, o exercício pleno da liberdade, componente essencial da ética universal humana*, é um ato transgressor cujo exercício, quando bem-dito, é facilitador de diálogos e até provocador de transformações.

Em reforço, a liberdade de expressão constitui-se uma das maiores conquistas humanas: manifesta-se em variados e controversos formatos cuja conquista se faz exigência ímpar, se o objeto mirado vislumbra interatividade coletiva e/ou transformações estruturais.

No caso de D. Filó, haja vista imposições sistêmicas de sua jornada, o ideário é alcançado aos setenta anos. Justo aos setenta, a cidadã parintinense desperta da sonolência estruturante, quebra freios moralistas e se faz memória problematizadora.

O teçume em desenvolvimento também dialoga com requisitos da arte, na perspectiva de instrumento reflexivo-crítico e interventor. Inclui-se aqui a escrita fundamentada em estratégias libertárias: sensibilidade criativa, percepção aguda da realidade politico ideológica e dialogicidade psicossocial… São nuances facilitadores ao entendimento coletivo; são jeitos livres, contrários à linguística convencional expressos em dizeres e fazeres…

Enfim, são choques ao determinismo moralista. Simples exemplo: cocô, bosta e fezes têm a mesma materialidade; o mesmo sentido; só muda a grafia. E o termo bosta n’água é código de domínio público. Ah!… Obra também pertence ao mesmo grupo semântico… E haja obra espalhada sobre a Mátria Brasileira atropelando um ético ir e vir! A Ilha Tupinambarana* comprova o realístico cartão bostal em que fora transformada.

O despertar para uma abrangente criticidade social clama por terapias de choque a exemplo do discurso de D. Filó. Discursos mornos, hipócritas, virtuosistas são cantilenas para adormecer ainda mais a massa abobalhada e, o mais grave, acelerar o analfabetismo político em benefício de nulidades representativas.

Portanto, bosta n’água desperta curiosidades, facilita o entendimento, além de quebrar preconceitos linguísticos. Dr. Odenildo Sena*, reforça nosso dizer: A maneira como nós empregamos as palavras e o modo como as apreendemos quando proferidas por outras pessoas vão modelar, em grande medida, as nossas crenças, preconceitos, ideias e aspirações, constituindo, enfim, o ambiente semântico que vai povoar e determinar a nossa visão de mundo.

Ressalto: a intenção ao uso do termo – bosta n’água – extrapola os frequentes referenciais à presidência da república brasileira; em princípio, soma-se à virulência eleitoreira em total descontrole. É visivel: uma grande maioria de candidatos/as às eleições municipais, sem noções básicas e fundamentais da autorresponsabilidade social, atira-se nas águas turvas de um sistema político em processo acelerado de putrefação, sem eira nem beira e, de bubuia*, é arrastada correnteza abaixo vislumbrando cargos, salários, privilégios, poder… Outros ainda, ditos ‘rabos presos’, semelhantes a bactérias, contaminam organismos públicos, instituições, territórios vulnerabilizados transformando-os em pasta viscosa sobre a correnteza viciada. Pouquíssimos escapam!

Bubuia abaixo

O modelo bosta n’água é presente em tudo o que não leva a nada e se impõe como padrão alienante sobre os rumos da sociedade já contaminada em sua totalidade: cagões e cagados se aculhiam*, misturam-se inescrupulosamente na corrida pelo domínio da coisa pública… O ilusionismo engendrado pelas mídias venais (cardápio cotidiano fortalecedor do democracídio estatal) é empurrado goela abaixo sem respeito a tolerâncias. Tal consumo irrefletido impacta a sadia qualidade de vida pretendida a um equitativo e saudável desenvolvimento.

A ingestão indiscriminada de tais ingredientes produz massa fecal em abundância que se arrasta pela correnteza determinista cujo destino é uma pútrida fossa: no geral, vence as eleições quem contaminou melhor o cardápio eleitoreiro; quem se aproveitou melhor das brechas constitucionalistas; quem açambarcou poderes, nutriu-se de dinheiro público e apostou na proteção de instâncias harmoniosas entre si.

O direito à liberdade de expressão nos instiga questionar: quanta bosta vem sendo produzida diariamente nos cartéis da politicalha brasileira sob a tutelagem de chefs astutos em envenenar comensais famintos, viciados, desnutridos de leitura social? Quanta bosta contaminando gabinetes, chefias e servidores?… Estes últimos, sem a mínima compreensão do caráter servil do termo, camuflam-se com titularidades, com posturas vazias de sentido prático e/ou interventor, a não ser produzir mais bosta institucional.

O voto livre, ao mesmo tempo, obrigatório (Artigo 14, da CF) é mais um desarranjo legalista, opressor da liberdade de expressão sobre o organismo social brasileiro. A manipulação do voto analfabeto, imaturo, desinformado nasce dessa tirana obrigatoriedade – negação ao direito de ir e vir.

Radicalização à democracia

Dos referenciais trazidos até aqui, acolho o brado crítico-reflexivo de D. Filó: Parintins está discunforme pixé! No entanto, a crença em possibilidades humanizantes forja radicalizações em favor de outro modelo (justo, decente, equitativo…) de se escolher representantes políticos comprometidos com a Justiça Social, capazes de intervir potencialmente contra a fossa determinista do citado Estado Democrático. Transformações pretendidas nascem de radicalizações em massa… É o que nos instiga o Educador Paulo Freire*:

A História como tempo de possibilidade pressupõe a capacidade do ser humano de observar, de conhecer, de comparar, de avaliar, de decidir, de romper, de ser responsável. De ser ético e de transgredir a própria ética. Não é possível educar para a democracia, para a liberdade, para a responsabilidade ética na perspectiva de uma concepção determinista da história. E conclui: O futuro é dos Povos e não dos Impérios.

Que, esse ano, a farsa da liberdade do voto em Parintins nos poupe do discurso oficioso: O pleito foi tranquilo… Tudo correu dentro da legalidade e dos limites da democracia…

 

Perfil 

A autora é  educadora popular e pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia. Graduada em Letras pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), tem especialização em Estudos Latino-Americanos pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) em parceria com a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) em Guararema (SP). Foi fundadora da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã, da TEIA de Educação Ambiental e Interação em Agrofloresta e Militante da Marcha Mundial das Mulheres e da Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular em Saúde – ANEPS. Autora das obras literárias Ensaio de Rebeldia e Algemas Silenciadas.

Falares da casa

Aculhiam – No popular parintinense, o mesmo sentido de aliancismo.

Bubuia – Estado de flutuação sobre as águas.

Discunforme pixé – Do popular parintinense, estado fétido elevado

Ética Universal Humana – “[…] Do direito de ir e vir, do direito de comer, de vestir, de dizer a palavra, de amar, de escolher, de estudar, de trabalhar. Do direito de crer e de não crer, do direito à segurança e à paz”.  (Pedagogia da Indignação, página 130. Editora Unesp. S/P – 2000)

Ilha Tupinambarana – Sede do município de Parintins.

Palavra, Poder e Ensino da língua, p. 25. Editora Valer, Manaus/AM. 2001

Pedagogia da Indignação, p. 126. Editora Unesp. S/P – 2000

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