Roda Viva [Por Lúcia Carla Gama*]

A música faz parte da minha vida desde sempre. Sobretudo a Música Popular Brasileira. E ainda que, como toda boa adolescente, tenha curtido os cantores e grupos surgidos “na minha época”, década de 80, sempre dei especial atenção a uma turma já consagrada de nossa MPB.

Então, pelos corredores do Colégio Auxiliadora, ou a caminho do Icbeu, misturava hits do Metrô – “coração ligado, beat acelerado”, ou do Menudo, porque, não vou negar, gostei deles também – “if you’re not here by my side”, de Léo Jaime – “ela não gosta de mim, mas é porque eu sou pobre” e Ultraje a Rigor – “eu tinha uma galinha que se chamava Marylou”, com músicas de Paulinho da Viola – “canto, pra dizer que no meu coração já não mais se agitam as ondas de uma paixão”, de Vinícius de Moraes – “quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu”, de Cartola – “ouça-me, bem, amor, preste atenção, o mundo é um moinho”.

E tinha de tudo, mesmo, até Balão Mágico, Xuxa, Queen, Madona, Stevie Wonder, Iron Maiden, Michel Jackson, sambas enredo e tantos outros numa diversidade sonora de enlouquecer qualquer crítico mais severo.

Ouvia a salada musical no antigo walk-man ou num rádio gravador velhinho, que nem tinha mais à frente do porta-fitas, no Beco da Indústria, embalando na rede.

Para assegurar meu acervo musical, passei muitas tardes de sábado envolvida na gravação de fitas cassetes, com duração de uma hora ouuma hora e meia – metade do tempo de cada lado.

Para fazer as gravações cumpria um ritual delicioso com o maior cuidado para que as músicas coubessem sem desperdício do espaço na fita.

Pela duração das faixas calculava quantas dariam para ser gravadas e decidia a ordem que seguiriam. O procedimento era play, rec e pause pressionados no gravador, o LP limpíssimo para evitar que a música pulasse, a agulha colocada exatamente sobre a faixa escolhida para ser gravada.

 

Antes de soltar definitivamente o pause ouvia a música a ser reproduzida para garantir que estava tudo certo.  Porque, quem já passou por isso sabe: a pior coisa do mundo era ouvir uma fita e um pedaço da música “pular”. Affff…

Então, eu levava um tempão para compor uma fita cassete inteira, que

incluía, ainda, escrever os nomes das músicas nas caixinhas que as guardavam.

Um dia, estava eu no ritual, e a faxineira estava perto fazendo seu trabalho. Pedi que ela ouvisse a música que estava sendo gravada, mil recomendações quanto a falhas, enquanto eu ia ao banheiro.

No som, Chico Buarque cantava Roda Viva. De volta à sala, ela me disse que havia pressionado o pause porque a música tinha acabado.

Antes de iniciar a próxima gravação, decidi conferir. E pra minha surpresa, ela havia cortado um pedaço de Roda Viva, exatamente a repetição final, mais rápida e cadenciada. “Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda pião, o tempo rodou num instante nas voltas do meu coração”.

Questionei a atitude e ela: “ora, maninha, o disco tava furado e ficou repetindo mil vezes a mesma coisa! Daí parei”.  Eu ri e refiz o “trabalho”.

Não tenho ideia de por onde anda aquela moça, mas hoje quando a Roda Viva da vida gira rápida e sem cadência às vezes dá vontade de dar pausa e passar logo para a faixa seguinte. Mas aí paro um pouco, olho o todo e penso que viver é, também, saber seguir o ritmo da música. Então, vou dançando como dá…

*A autora é graduada em Jornalismo e pós graduada em Gestão de Pessoas.

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