Pesquisas da Ufam abordam a temática negros no Amazonas

Fronteiras étnicas, relações étnico-raciais e Educação, religiões de matrizes africanas, diálogos inter-religiosos e identidade étnico-religiosa no Amazonas.

São esses alguns dos temas abordados por um conjunto de pesquisas desenvolvidas pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), por meio do Programa de Pós Graduação Sociedade e Cultura na Amazônia (PPGSCA), e orientadas pela docente Renilda Aparecida Costa, coordenadora do Núcleo de Estudos Afro Indígena (NEAI).

São estudos com aprofundamento teórico-metodológico, que contribuem para as áreas de Historiografia Nacional e Regional, Sociologia, Antropologia, e, estão ancorados na identidade nacional brasileira.

De acordo com a coordenadora do NEAI, professora Renilda Aparecida Costa, o estado do Amazonas é um espaço onde diferentes grupos sociais, com nacionalidades distintas, convivem constituindo fronteiras não só territoriais, mas também étnicas com interações e tensões sociais.

“A construção do conhecimento sobre história, memória e identidade étnico-racial dos negros no Amazonas é relevante pois envolve a trajetória destes povos que deram uma significativa contribuição na formação deste estado e, que pelo revés da história, muitas vezes foram invisibilizados e silenciados. As temáticas de estudo são abordadas a partir concepções interdisciplinares, provocadas pelos diferentes enfoques sobre a trajetória dos negros e negras no processo de formação sociocultural do estado do Amazonas, na relação com outros grupos étnicos- raciais”, enfatizou.

A professora falou, ainda, que são estudos que envolvem comunidades, indígenas e quilombolas, situadas no campo e nas cidades amazônicas, destacando-se a interação dos conhecimentos tradicionais afro indígenas com os acadêmicos, que são desenvolvidos sem a   pretensão de dar conta de toda a complexidade da realidade amazônica.

“A articulação interinstitucional entre pesquisadores e estudantes que se dedicam a temática das relações étnico-raciais no Brasil e no Amazonas são imprescindíveis para a consolidação de estudos interdisciplinares que evidenciem as desigualdades e exclusões sociais vivenciadas pelos negros. Enfim, estamos no processo, que se vislumbra uma outra história que procura reconhecer a dignidade humana de todos os povos que compõem a nação brasileira”, destacou.

Estudos

A doutoranda Jéssica Dayse Matos Gomes, licenciada plena em História pela Universidade Estadual do Amazonas (UEA) e mestra em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Ufam, defendeu a dissertação “Mocambos na Amazônia: história e memória do Arari – Parintins-Amazonas”, em 2017, e fez a análise das memórias da presença negra no Amazonas por meio de relatos orais transmitidas de geração em geração.

A metodologia da História Oral permitiu evidenciar nas manifestações culturais, fragmentos de reminiscências negras na cidade de Parintins, dando ênfase as inter-relações entre os diferentes grupos étnico-raciais presentes na região dos Parintins e no Amazonas.

Segundo a discente, o interesse pela temática surgiu em virtude da sua origem, nascida em Parintins, e com ascendência indígena e negra.

Desde criança, eu ouvia minha avó contar sobre o seu pai português e sua mãe indígena e eu sempre questionei as minhas origens. Somou-se a isso, a minha curiosidade pela constituição étnica da cidade em que nasci, Parintins, e a formação em História.

A minha pesquisa traz os rastros e indícios da cultura negra na região e aborda as diversas formas de como o negro foi silenciado nesses espaços, a partir de um processo civilizatório que acabou subalternizando a cultura negra no Amazonas.

Não há de forma significativa, em livros sobre Parintins, uma abordagem centrada na cultura africana e negra no território. Há evidências da cultura indígena, europeia, católica, mas não de negros e, ao perceber essa lacuna, me interessei pelo tema. Vamos apresentando uma Amazônia pouco conhecida, fala-se de uma Amazônia indígena, mas pouco se ouve de uma Amazônia negra.

Há, aqui, um universo muito diverso e falar negros no Amazonas ainda causa estranhamento. Até pouco tempo não se falava de quilombos, fugas, resistências, movimento abolicionista, identidade negra, quilombo urbano e religiões de matrizes africanas. Isso mostra uma Amazônia plural, diversa que não está posta na história oficial

Jéssica Dayse Matos Gomes

A egressa Ana Caroline da Silva defendeu a dissertação intitulada “A Umbanda no município de Parintins /AM: A Influência religiosa da pajelança indígena e do Catolicismo”, em 2018, apresentando uma discussão sobre a influência religiosa da pajelança indígena, e do catolicismo na Umbanda no município de Parintins/AM.

A delimitação da pesquisa surgiu de inquietações em compreender as influências religiosas na Umbanda e conhecer quais saberes e práticas de cura da pajelança indígena estão presentes nas celebrações, principalmente na sua relação com os santos católicos e em que momento das celebrações é possível perceber a hibridização religiosa.

Outras pesquisas em andamento são a da discente Maria do Carmo Ferreira de Andrade, de doutorado, em que olha para o protagonismo da liderança de uma Yalorixá do Tambor de Mina, no campo religioso, social e, de resistência dos povos e comunidades tradicionais de terreiro em Manaus/AM.

O enfoque da pesquisa de campo será no perceber como se constitui a identidade étnico religiosa de mulheres que, no cotidiano de seu sacerdócio e na intimidade de suas casas religiosas, dispõem-se e vão ao encontro das necessidades espirituais, materiais e sociais dos adeptos de seus terreiros.

Já o Lucas Lopes da Silva Aflitos realiza pesquisa de mestrado sobre a ressignificação dos corpos negros, através da arte de rua como ferramenta de diálogo na superação do racismo estrutural, reafirmação identitária e emancipação social dos povos negros na sociedade brasileira.

Por fim, o aluno Júlio César Coelho Gama conduz uma pesquisa de mestrado voltada para o estudo da reconfiguração das expressões culturais e religiosas negras na cidade de Manaus.

A professora Renilda Aparecida Costa finalizou lembrando que não se pode pensar identidade amazonense sem pensar a contribuição dos negros.

“No período de 11 anos que vivo no Amazonas pude vivenciar mais intensamente a realidade sócio histórica cultural deste estado, que possui dimensões de um país. Confesso que mesmo com uma trajetória de 20 anos trabalhando com a temática identidade nacional brasileira, relações étnico-raciais e educação e ter desenvolvido uma pesquisa que teve o escopo a constituição da identidade étnico-religiosa  nas religiões de Matrizes Africanas no Sul do Brasil, estudo que resultou no livro “Batuque: espaços e práticas de reconhecimento da identidade étnico-racial”, um novo Brasil se apresentou diante de meus olhos e, neste momento pode-se fazer a transposição do pensamento de Darcy Ribeiro ‘Há muitos Brasis dentro de um único Brasil’, disse.


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