Editora Valer reedita História do Amazonas, de Arthur Cézar Ferreira Reis

Por Wilson Nogueira

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A Editora Valer acaba de entregar aos leitores a reedição de História do Amazonas, de Arthur Cézar Ferreira Reis (1933-1993), publicada pela primeira vez em 1931, e considerada a obra fundadora da historiografia moderna amazonense.

Entre dezenas de cargos e funções públicas que Arthur Cézar exerceu está a de governador do Amazonas, nomeado pelo general Castelo Branco, o primeiro comandante da Ditadura Militar (1964-1985), de quem era amigo.

O ressurgimento da obra, esgotada havia várias décadas, por si só é um grande evento, está acompanhada de um pormenorizado estudo sobre o autor e seu legado intelectual realizado pelo advogado e historiador Robério dos Santos Braga, que se autodefine como um orientando informal de Artur Reis.

“Tive o privilégio, de passado anos dele haver deixado o governo, depois que fui eleito para o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (1973), tornar-me amigo e de certa forma, orientando informal do professor Arthur Cézar Ferreira Reis, posto que de maneira atenciosa e fraternalmente, era comum telefonar-me aos domingos, para sugerir pesquisas, textos e debates ou comentar o artigo que tivesse publicado”, revela Braga.

O estudo de Braga é importante para compreendermos os pensamentos e ações do historiador que se revela aos 23 anos de idade exatamente com História do Amazonas.

Depois de contextualizar as vivências de Arhur Reis, como é mais conhecido na intimidade dos leitores, Braga o apresenta em dez tópicos: Na Cátedra, O jornalista, O conferencista, No serviço público, O intelectual, Arthur e o Amazonas, Relação pessoal, Biblioteca e arquivo, Bibliografia, A morte.

Braga preenche uma lacuna de informações que se ressente o leitor diante de autores que constroem monumentos intelectuais e, por isso, incitam debates, polêmicas, controvérsias, novas pesquisas e, sobretudo, causam inquietude sobre o modo de suas épocas.

Quem é essa personagem? Qual a sua formação intelectual? Quais as suas condições objetivas de produção e ação? Qual seu horizonte intelectual no contexto histórico? São essas e outras perguntas que, certamente, Braga responde e, assim, deixa o leitor mais esclarecido sobre as vivências, convivências e ações de um intelectual que está a influenciar gerações e mais gerações.

Não seria forçoso dizer que, com esse estudo sobre a vida e obra de Arthur Cézar, História do Amazonas se enriquece em significado, principalmente para as atuais e novas gerações de leitores, historiadores e pesquisadores de outras disciplinas das Humanidades.

Braga entrega aos leitores chaves que abrem novas possibilidades de pesquisa, até porque era essa a vontade do seu orientador, como aparece nas primeiras linhas da apresentação da sua obra, em 1931:

A história do Amazonas não está escrita. O que aqui se vai ler não passa de um ensaio, de um quadro da evolução amazonense até os primeiros dias da República […] O panorama que apresentamos agora tem maior desenvolvimento. Explica, por isso, a audácia do título: História do Amazonas…

Arthur César Ferreira Reis.

Homem de ação

Para o apresentador desta edição, o sociólogo Renan Freitas Pinto, o papel de historiador de Artur Reis está “estreitamente relacionado com o seu perfil de homem de ação, o que faz com que parte significativa dos seus estudos historiográficos, possuam aspectos de sua própria participação como homem de ação”.

Renan se refere, principalmente, ao fato de Arthur ter sido professor de história do ensino médio desde cedo, indo até as ações institucionais que ocuparam parte importante de sua vida, como as que desenvolve para a fundação do Instituto de Pesquisa da Amazônia Inpa), da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (Spevea), da Universidade do Amazonas [hoje Universidade Federal do Amazonas -Ufam], governador nomeado do Amazonas, presidente do Conselho Federal de Cultura e representante do Brasil na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Renan destaca ainda que História do Amazonas representa o ponto de partida, o marco zero de seu pensamento historiográfico sobre a região amazônica, com a abordagem de temas fundamentais que aguçaram e ainda aguçam as gerações seguintes de ensaístas e pesquisadores.

“[…] Esses temas e problemas (ver quadro abaixo) precisam ser aprofundados e iluminados por novas pesquisas para as quais ele oferece várias sugestões, como a de valorização da documentação existente em acervos portugueses e particularmente – tratando-se do período colonial – do Arquivo Público do Pará, que encerra materiais ainda inéditos e pouco estudados, que se encontram a espera dos novos pesquisadores da história regional”, assina o sociólogo,

 

Temas de investigações iniciadas por Arthur Reis segundo Renan Fritas Pinto
Descobrimento e a Conquista Período colonial e a economia das drogas do sertão Formação da sociedade colonial Os aldeamentos missionários e a formação das cidades coloniais Contribuição portuguesa para a ocupação e o povoamento regional
Conquista espiritual e material portuguesa do vale amazônico Deslocamento da fronteira Instalação da Província Integração ao Império Sob o signo da República
A Cabanagem O ciclo da borracha Projetos  econômicos  da  Amazônia: Spevea e Sudam A Amazônia e a cobiça internacional A Zona Franca de Manaus
As rodovias de integração nacional

 

Há dois temas que, segundo o sociólogo, Arthur Reis não alcança em razão de o autor estar filiado ao pensamento conservador da sua época: a presença dos negros negros no Amazonas, “subestimada” por ele, e a ausência dos povos indígenas na construção da história da região. Mas, adverte, que isso não lhe tira o reconhecimento do sentido de originalidade e fundador do seu perfil de historiador da Amazônia.

O editor


O jornalista e editor da Valer, Isaac Maciel, disse que a reedição da obra de Arthur Reis atende à uma demanda de leitores, principalmente, daqueles que buscam aprofundamento na historiografia regional.
Ele explica que a edição fica, ainda melhor, contextualizada no processo de desenvolvimento do pensamento sociocultural da região com as apresentações de Robério Braga e Renan Freitas Pinto. “O livro de Arthur Reis é fonte obrigatória de historiadores e pensadores sociais, por isso, bastante instigada em seu conteúdo, em seu ponto de vista que, a meu ver, compõe um horizonte intelectual localizado em determinado tempo e espaço”, comenta Isaac.

Braga e Renan Freitas Pinto trazem luz para uma melhor compreensão da obra segundo Isaac.

A coordenadora editorial da Valer, filósofa Neiza Teixeira assinada que “[…] a obra é essencial para os estudiosos, professores e interessados em conhecer as origens do Estado do Amazonas por meio de uma inteligência privilegiada e uma compromisso inquebrantável com o conhecimento e com o povo amazônica”.

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