Paes Loureiro lança Andurá, romance instigante com foco no imaginário amazônico

Por Wilson Nogueira

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Andurá: onde tudo é e não é (Valer) é o romance de João de Jesus Paes Loureiro, o Paes Loureiro, que vai buscar no perau do imaginário amazônico enredos, personagens, cenários e cenas para, depois de lapidados pelo melhor dos artesãos das palavras, entregá-los aos mais exigentes dos leitores.

O livro desvela, com extrema delicadeza e sensibilidade, uma história concatenada com micronarrativas das culturas ribeirinhas e indígenas, em diálogo com o imaginário europeu e europeizado.

Por meio do romance, Paes Loureiro se larga à tarefa de elevar o imaginário amazônico ao entendimento de um pensamento poético e filosófico, a exemplo do que ocorre com as cosmologias e cosmogonias greco-romanas popularizadas no mundo.

Não é à toa que em Andura encontram-se pegadas profundas das ideias que o pesquisador/romancista desenvolve em Cultura Amazônica: uma poética do imaginário (Valer), resultado da tese do seu doutoramento na Universidade Paris V (Sorbonne), França.

Paes Loureiro defende que os povos da Amazônia profunda têm suas vidas impregnadas pela poesia das florestas, dos rios e dos seres imaginários, com os quais compartilham vivências e convivências.

A tradução desse compartilhar poético, para ele, aparece nas manifestações culturais ribeirinhas, por meio de lendas, do teatro popular [pássaros, bois-bumbás e danças), da crença nos encantados, engerados e visagens, da prática da medicina popular e das mandingas.

O enredo da obra esgarça essa poética desde o começo, com a instalação do Circo Garcia na cidadezinha de Andurá, onde, enquanto se encena a peça O pássaro e o caçador, se apresentam, ao mesmo tempo, as principais personagens do romance.

O circo, ou a arte, é o teto sob o qual todos se abrigam em Andurá, cada qual com sua idiossincrasia: o matador de aluguel, a puta, o padre, as beatas e fofoqueiras, os meninos e meninas jorrando sexo, a pajé, os artistas, os políticos e comerciantes.

Existe um espetáculo que corre no palco e outros que se alastram na plateia, uns trágicos, cômicos e outros tragicômicos. Uns são personagens de carne e osso, outros são sombras que se desencarnam dos seus corpos para vagar no espaço do imaginário coletivo.

Assim,  imaginário é real e irreal ao mesmo tempo.

O artista que atira facas na moça que gira atada em uma engenhoca sob sua mira é, também, um matador de aluguel; a prostituta Laura, execrada por cidadãos e cidadãs de bem, é a mesma desejada pela macharada e invejada pelas mulheres recalcadas em suas libidinagens sexuais.

Os anduarenses de bem e de família – religiosos, políticos, empresários etc. – são os mesmos que se fartam em gozo entre as pernas de Laura e fazem vistas grossas à injustiça social, quando não contratam os serviços do ingênuo, nas aparências, atirador de facas.

Andurá é e não é o próprio falso moralismo, porque essa é uma questão de ponto de vista ou de vista de ponto, um conflito permanente entre consciente e inconsciente, do qual a arte se alimenta e se torna um ser poético.

É nesse contexto que o escritor aparece com as suas Vozes veladas, uma espécie de complemento de leitura que, no jogo artístico e paradoxal do é e não é, são trechos essenciais para a compreensão da narrativa, porque essas vozes/sombras expressam os fundamentos poéticos e filosóficos almejados pelo autor.

É de se destacar que Paes Loureiro prospectou palavras, metáforas e neologismos regionais que revelam a sua preocupação em resgatá-las das entranhas da oralidade pela qual se comunicam os seres vivos e não vivos das culturas amazônicas.

“[…] Enquanto afundavam pelas águas, iam encontrando palavras antigas naufragadas, que se teriam perdido pelo desuso. Palavras que, vezenquando, são pescadas por algum poeta em busca de completar um verso, pois na poesia as palavras nunca morrem. Viram sementes de novos significados. Outras palavras”.

O narrador faz essa observação enquanto deslinda o encantamento do jovem Anastácio pela Uiara, cujo rosto enfeitiçador é manifestado em uma bela flor aquática. A Uiara é, também, a bela mulher que habita o fundo do rio, para o qual Anastácio foi atraído e por lá viverá em luxuoso castelo com a sua amada.

Aliás. Andurá, assim como ocorre com outras cidades ribeirinhas amazônicas, também possui a sua replica encantada, a sua sombra, movimentada por acontecimentos e personagens que se comunicam com as gentes da sua versão verdadeira. Ou será que a verdadeira é a cidade encantada?

Não. Não haverá estraga prazer, leitor. Mas que dá vontade revelar o desfecho da vida de Laura, ah! dá.

Entre tantos viventes e suas sombras a permear o livro – “essa felicidade encadernada” – não é justo escolher uma personagem principal, até porque elas se confundem com suas sombras que, vezenquando, “são a verdadeira razão” da existência de algo.

Mas Laura,  a Bola de Sebo de Maupassant ou sombra dela, a Geni de Chico Buarque, tem as suas virtudes que estão para aquém e para além das adjetivações maledicentes, tais como: capirota, desbatizada, sem cidadania, sem-vergonha, desencaminhadora dos homens, esconjurada, nojenta, maligna rabuda, degenerada, perdida, coisa ruim, essa-uma…

Talvez seja ela a sombra do escritor a vagar na massa fluida do devaneio, por meio de suas inquietações impressas nas cartas que escreve, de modo incessante, para si mesma, nas leituras instigantes e reflexivas,  e nas boas conversas com artistas durante as férias da dura realidade da razão.

Não. Não haverá estraga prazer.

Melhor mesmo é ler este Andurá, para que as suas sombras se libertem e voem através  imensidão amazônica ou surfem nas ondas arrebatadoras da pororoca.

Vozes veladas

As sobras que gradativamente iam-se desgrudando das pessoas passaram a se dirigir à uma ilha em frente à cidade, do lado esquerdo de quem da ponte olhasse o rio, organizando-se para habitá-la e dirigi-la.

As sombras encontravam e não se encontravam felizes, pois não mais se sentem na dependência de ninguém, passando a ser elas mesmas, com autonomia, realizando os seus desígnios.

Aparentemente não há conflitos entre elas, pois cada uma está vivendo o que deseja viver com sua “luz própria”.

Sem máscaras sociais. Mostrando-se como são. Aparentemente.

Todas respeitam o que cada uma é. Ninguém está querendo enganar a ninguém.

São diferentes e assim querem conviver.

Não desejam ser a sombra de quem os reprimia.

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