A noite mais longa

Ivânia Vieira extrai palavras do seu coração para afetar com amor, compaixão e solidariedade outros corações que sofrem com os horrores da pandemia, e para denunciar a desumanidade, a hipocrisia e a irresponsabilidade daqueles que enchem as covas e atiçam o crepitar dos crematórios com corpos humanos.

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As horas da noite emendaram e o dia se perde em minutos eternos sem respostas

Nuvens cinzentas, pesadas, engoliram o Sol.

O som do vento é abafado,

Sirenes cantam mais alto, há semanas.

Um canto de agonia

Corta a cidade, atravessa a rua e se põe dentro de casa.

Olhos esbugalhados clamam por ar,

As mãos tentam gritar um pedido de socorro e afugentar a morte.

A boca já não pode mais falar.

Sirenes cantam mais alto

Anunciam o transporte dos corpos,

o desfile dos enterros em série.

Falta oxigênio lá. Falta oxigênio aqui

Sufocada

Tateio em busca da brecha, de um pingo de ar

de humanização da humanidade daqui.

Tateio em busca de um pingo de probidade e determinação governamental

para salvar do vírus a vida de humanos.

Uma festa clandestina é organizada. Aplausos!

A rede espalha o endereço na lista de convidados VIPs. Que honra!

O choro sobre os cadáveres não pode molhar

o egoísmo e o individualismo que pandemicamente matam.

A noite de terror emenda-se ao dia.

Manaus, 22 de janeiro de 2021


*A autora é jornalista, escritora e professora da FIC/Ufam. 

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