Palavra de Sena

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Mas meus olhos de fome daquele dia foram surpreendidos por um gesto inusitado. Antes do anúncio para reunir a tropa, Mãe aproximou-se, sentou-se ao meu lado, abraçou-me com ternura e disse quase sussurrando no meu ouvido que na segunda-feira iria acontecer uma coisa muito boa em minha vida: com a ajuda de um padrinho que eu pouco conhecia, ela tinha conseguido uma vaga numa escola onde eu ficaria internado de segunda a sexta-feira. Lá eu estudaria, conviveria com outras crianças e seria muito bem tratado. Mas que eu não me preocupasse. Passaria os sábados e os domingos em casa. Mais interessado em resolver o problema imediato da fome do que outra coisa, fiz pouco caso daquela novidade. Devolvi mecanicamente o abraço que me fora dado por Mãe e voltei meus olhinhos pidões para a panela no jirau, como querendo apressar a chegada do prato à minha frente. Naquela segunda-feira tudo foi diferente. Mãe me fez saltar em silêncio da rede armada no corredor antes dos outros e do horário habitual. Colocou em minhas mãos o caneco de alumínio e a escova já com a pasta. Sonolento e ainda sem entender muito aquela mudança de hábito, desci os cinco degraus que davam para o quintal, aproximei-me do camburão, abasteci o caneco e escovei os dentes. Só então me dei conta de que o dia não tinha aparecido por inteiro. Apenas alguns fracos fiapos de sol tentavam se infiltrar, sem muito sucesso, entre as folhas do abacateiro, da mangueira e do biribazeiro, que eram sacudidas por uma leve brisa.

De O Internato, de Odenildo Sena.

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