Entendimento de cultura amazônica nos estudos de Paes Loureiro

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[…] Entende-se aqui como cultura amazônica aquela que tem a sua origem ou está influenciada, em primeira instância, pela cultura do caboclo. É evidente que este é também o produto de uma acumulação cultural que que absorveu e se amalgamou com a cultura dos nordestinos que, em épocas diversas, mais precisamente no período da borracha migraram para a Amazônia.

Com eles aprenderam a cultivar a terra – de forma rústica – razão pela qual se autodefinem nas zonas interioranas como “colonos”; ao lado disso, os nordestinos – tradicionalmente agricultores – assimilaram um certo conhecimento sobre a floresta e dedicaram-se também ao extrativismo.

[…]

O conceito de cultura cabocla, portanto, pode ser estendido para além das limitações que a questão étnica poderia impor. Vão longe Francoise e Pierre Grenand: “…identidade cabocla que não pode então ser configurada a um lugar preciso, uma vez que todo ponto humanizado no espaço amazônico é seu”.

Desenvolvem atividades que não estão diretamente voltadas para o mercado, mas que garantem parte considerável da sutossubsistência: roça, pesca, extrativismo vegetal etc. O resto do tempo é ocupado com atividade que geralmente estão pouco articuladas com o mercado: limpeza de algum igarapé, preparação de festas de santos etc., garantindo parte da autossuficiência em termos modestos. Daí alguns estereótipos que comumente lhes atribuem: preguiça, inadaptação para o trabalho, falta de aspiração pessoal.

No que concerne as manifestações artísticas da cultura cabocla – ritmos, danças etc. – é preciso ressaltar que elas não se confundem propriamente com o folclore, embora com ele coexistam – posto que são rituais, renovam-se permanentemente e não estão confinadas a grupos estranhos que se dedicam à preservação de tradições remotas.

João de Jesus Paes Loureiro, em Cultura amazônica: uma poética do imaginário (Valer, 2015)

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