Com os chineses, os santos ficaram mais bonitos

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Não era intenção minha voltar ao tema das relações internacionais, mas os fatos e as circunstâncias me obrigaram. Até mesmo as Pitonisas que fazem previsões de baixo alcance devem sentir-se responsáveis por elas e não podem furtar-se a explicações. O mesmo deve ser exigido dos jornalistas. A pedra estava cantada, mas continuaram brincando com pólvora, por perversidade ou desconhecimento de que tanto o explosivo quanto o IFA vêm da China.

A semana que finda foi muito puxada. Além de outros fatos tenebrosos, nas idas e vindas da “diplomacia das vacinas”, muitas instituições e personalidades entraram no cenário, até mesmo sem pedir licença, ganhando visibilidade inesperada. Soubemos que um dos cotados para substituir o Chanceler era neto de Oswaldo Aranha, o diplomata que, com o seu prestígio, garantiu-nos a honra (ou desonra, dependendo de quem fala como Chefe de Estado) de abrir a seção inaugural de cada ano das Nações Unidas. Que o Itamaraty abrigava mais de um “terraplanista” e, portanto, o demitido poderia fazer um sucessor “com a mesma estatura”, coisa que fez estremecer os magnatas do agronegócio. Mas a questão foi ressignificada, como diz a moda, não era “agro”, era “tech” e se referia ao 5G, só para nos ligar novamente à pólvora, ao IFA e às novas tecnologias da informação.

Já Collor de Mello, aquele que foi o responsável pelo surgimento dos “cara-pintadas”, foi a grande novidade, lembrado por algumas horas, por sua expertise na “Guerra contra os Marajás”, mas alguém logo lembrou que isso poderia ofender à Índia, que tem nos socorrido, mesmo cortando na carne, com as doses de vacina de seu povo. Ficou, assim, proibido, falar-se em Marajás e  Mandarins.

Como certos embates políticos ideológicos nossos parecem extemporâneos, tive que recorrer aos Orientalistas (especialistas que estudam as civilizações orientais e as confrontam com as ocidentais) e não é que encontrei essa pérola na obra de Charles C. Mann, 1493: como o intercâmbio entre o novo e o velho mundo moldou os dias de hoje, Campinas, Editora Versos, obra editada em 2012.

Na página 204 da obra citada, o autor descreve sério embate diplomático envolvendo a China, a Espanha e o Papado de Roma, por volta de 1580. Os espanhóis ocupavam Manilha, mas permitiam os enclaves de comerciantes chineses, que vendiam tudo que era produzido no interior da China continental, no chamado Parián (área de livre comércio). Por sua vez, o Vaticano detinha e cobrava, rigorosamente, aos produtores, os direitos de reprodução das imagens dos Santos Católicos.

Os Chineses, não convertidos ao Cristianismo, mas donos de maiores dotes artísticos, copiavam, reproduziam e vendiam, sem pagar direitos à Roma, as imagens de Santos, “muito mais bonitos do que os feitos na Espanha, e às vezes tão baratos que tenho vergonha de mencionar”, declarou o Bispo de Filipinas, Dom Domingos de Salazar. E não ficava só nisso! Cansados de vender a seda e outros produtos a granel, os chineses resolveram copiar e produzir, com maior perfeição possível, as roupas Cardinalícias e as vestes dos nobres Europeus, com o mais alto estilo, que eram contrabandeadas para a Europa, pelos espanhóis e congêneres.

Resta dizer: em nome da expansão do Cristianismo no Oriente, da qualidade e preço dos produtos, as coisas terminaram se acalmando. O Papa mudou o bispo, a Espanha permitiu a volta dos chineses ao Parián e a China contribuiu para melhorar a imagem pessoal dos nossos Santos.

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