Os filhos da gente

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Noite dessas, naqueles minutos ou segundos de recolhimento, quando a casa já adormeceu e a gente se divide entre as lembranças do dia e a chegada do sono, invadiu-me uma sensação de dívida para com meus filhos. Acionei a memória na tentativa de justificar esse estranho sentimento, aliado a uma ameaça de culpa, daquelas que, se não resolvidas, deixam na alma estragos que invadem o passado e se estendem ao presente.

Viajo no tempo. Havia dado poucas chances de partilhar com eles momentos tão significativos em sua vida. Nos primeiros anos, pela estrita necessidade de sobrevivência. Os dias duravam sempre pouco para o muito que o trabalho me exigia. Sair de casa às 6h, quando eles ainda ressonavam, e voltar às 11h da noite, quando já dormiam, era pura rotina.

Debruçar-me, nos fins de semana, sobre trabalhos e provas, idem. Dava de mim mais tempo aos meus alunos, em sala de aula, do que aos meus filhos, em casa.

Era uma espécie de hóspede em meu próprio lar. Anos mais tarde e por circunstâncias outras, a distância reduziu a chance de eu lhes dar o porto seguro de meu ombro. Eram adolescentes. Penso nos tantos desafios por eles vencidos, apesar de minha ausência. Mas não deixo escapar da lembrança o reconhecimento da força e da determinação feminina que os guiou naquele período.

O sono teimava em fazer valer a sua vontade, mas já era voto vencido. Dou-me conta de que aquele sentimento de dívida resgatado do passado tem sua origem no presente. Explico-me. Já passei dos cinquenta e estou vivendo a fantástica experiência de quem encara o desafio de começar tudo de novo. A descoberta dessa ponte entre o ontem e o hoje atiça, mais uma vez, a memória. Memória recente. Passo, então, a reprisar lances que, vividos tão próximos do hoje, saltam da lembrança sem o menor esforço.

Antessala do berçário. O coração em ritmo acelerado. Sinto-me como se presenciasse a mais inédita das experiências humanas: o sublime momento em que a vida se reparte em outra e uma intraduzível e prolongada emoção passam a compor o quadro de nossa existência.

Lá está ele, frágil como toda criaturinha que recém salta para a vida. Tento, sem conseguir, recuperar o jeito e a habilidade vividos há 25 anos. Mãos trêmulas e inseguras, agasalho-o entre os braços e o meu peito, sob o olhar carinhoso de quem o acomodou durante nove meses.

Sem nenhuma cronologia, as lembranças dão um pequeno salto e me vejo diante de um mosaico de acontecimentos prazerosos. Sou acordado de manhã pelo chorinho manhoso e estratégico de quem reclama a minha presença. A palavra mágica articulada de maneira especial – “papai” – não se limita apenas a exigir a minha presença. Pelo contrário. Adquire toda uma profusão de sentidos que precisam imediatamente saltar para a ação.

Lá estamos nós, deitados na sala, rostos colados ao chão, simulando uma corrida de carrinhos, com direito ao som vibrante dos motores. Momento imediato, sou instado a me levantar. Eric arruma, de forma desajeitada, o boné na cabeça e me entrega outro. O sentido já vem embutido no gesto: devo entender como um apelo para usá-lo, sob pena de veementes protestos. Seleciona um trenzinho barulhento e um caminhão betoneira. Passa-me o cordão do primeiro e assume o segundo.

Faz questão de que eu vá à frente, percorrendo as imaginárias estradas da casa. Tento driblá-lo. Estaciono o trem na garagem. Eric não aceita. Após voltas e voltas, abandona o seu veículo e assume o seu velocípede com manobras de profissional. Afinal, sou seu espectador. Faço-lhe uma provocação. Pergunto se está dirigindo o “bibi”. Ele me corrige na bucha: “bibi, não, papai, bibite!” Tento criar um clima de conversa, fazendo-lhe perguntas sobre o seu mundo.

Nos limites de seus dois anos e meio de linguagem, responde como pode. “Equi dá cainho papai”. Encho-me de vaidade. Caramba! Ele já usa verbos de dupla regência! Penso nos professores de Língua Portuguesa, arvorando-se a ensinar o que as crianças já sabem. O pensamento dá um salto. É noite. Eric ao meu lado. Embalo seu cansaço com um ninar eclético de canções. Repriso algumas, adapto outras, invento muitas. Ele dorme.

O sono volta a atacar. Tento resistir. Penso, de novo, na dívida com os dois primeiros filhos, hoje adultos. Irmãos do Eric. Encontro, naquela minha ausência, explicação para o permanente desejo de estar hoje sempre perto deles. Conforta-me a certeza de que a recíproca é verdadeira. Sobretudo a certeza de que tenho dois grandes companheiros e um parceirinho amigo com quem posso conviver e reinventar minha vida. Deixo, finalmente, o sono cumprir seu dever.

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