Como a Cabanagem e a Guerra do Paraguai confinaram as línguas indígenas na Amazônia

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[…] Procuramos demonstrar aqui, com a ajuda de documentação histórica, que a população da Amazônia entrou no século 21 falando majoritariamente a língua geral, de forma diferenciada nas cidades, nas vilas e povoações, e nos próprios aldeamentos indígenas.

No baixo Amazonas, o uso da LGA era alternado com o português, e, no alto Amazonas, com línguas vernáculas, numa situação de bilinguismo que variava em função da localização geográfica e das dimensões históricas e demográficas dos núcleos onde essas línguas eram faladas.

No entanto, na passagem para o século 20, a língua portuguesa já era hegemônica, ficando a LGA confinada à região do rio Negro.

Isso se explica a partir de 1823 – depois da adesão do Pará ao Brasil, já independente – pelo início de um processo que, por um lado, diminuiu o número de falantes da LGA – ou seja, na categoria de monolíngues – e, por outro, aumentou o número de falantes monolíngues de português.

Esse fato obedeceu a um ritmo e a uma cronologia que não foram os mesmos para todo o território.

Inicialmente, foi lento e gradual, acelerando-se posteriormente em decorrência de vários fatores assinalados aqui: a Cabanagem, a Guerra do Paraguai – cujas consequências demográficas para a região foram catastróficas –, a educação, a mudança do sistema de transporte e comércio e a inserção da Amazônia na divisão internacional do trabalho como produtora de borracha – o que provocou a entrada de grandes contingentes de nordestinos […]

José Ribamar Bessa Freire, em Rio Babel: a história das línguas na Amazônia (Eduaerj/Atlântica, 2004)

 

 

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