“A guerra religiosa e o Supremo”

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Não tenho as credenciais de um amigo meu, Professor de Filosofia da Ufam e Teólogo sem Cátedra, para tratar em profundidade do assunto, mas, como professor provisionado de História e demais brasileiros que enfrentaram desde o ensino fundamental o tema da Reforma Protestante e hoje o noticiário da TV, perguntamos: que interesses profundos ou profanos motivaram o embate “jurídico” entre “Terrivelmente Religiosos” e “Hereges” na Suprema Corte Brasileira?

Ouve-se e vê de tudo nos quatro cantos da mídia convencional e nas redes sociais sobre o assunto. Dentre várias, selecionei esta mensagem, que achei interessante comentar: “Eu avisei: começam fechando bares e restaurantes para evitar a alienação; depois, fecham Igrejas e fábricas. Não é a pandemia, é coisa de pecadores comunistas, brigam por ideologia e põem a culpa nos cristãos e homens de bem!”. Poderia até dizer que isso tem nome e endereço, mas não aceito provocação! Era o anúncio da judicialização a caminho, pensei com meus botões.

Apesar dos lances de comicidade no trato do assunto, de aparência historicamente anacrônica, o caso nos obriga a pensar com outras categorias, além da religiosidade. Martinho Lutero (1483-1546), na obra intitulada “Autoridade temporal: em que medida deve ser obedecida”, declara que a autoridade civil não pode promulgar leis para a alma, o que foi visto como o fundamento da separação entre Igreja e Estado.

João Calvino (1509-1564) nos brindou com os princípios da Predestinação e da Onisciência Divina, que juntos, significa dizer: Deus escolhe os que serão salvos, pois sabe do passado, do presente e do futuro de cada um e isso se manifesta naqueles cujo sucesso pessoal torna-se evidente.

Ao valorizar, assim, a superioridade dos escolhidos estabelece o dogma da prosperidade no seu “Novo Cristianismo”. O Protestantismo viria a ser, então, pouco mais tarde, a chave nos estudos de Max Weber sobre o “espírito do capitalismo”.

O Humanismo Cristão, endossado em parte pelo Protestantismo, nos transporta da Idade Média para a Modernidade, animado, também, por outros pensadores como Erasmo de Roterdão (Elogio à Loucura) e Thomas Morus (Utopia) e influiu nos destinos do Novo Mundo.

Isso ajuda a entender porque, nos Estados Unidos da América, até hoje, o juramento das autoridades públicas se dá com a mão direita sobre a Bíblia, e não sobre a Constituição da República. Gesto não só simbólico, mas dogmático e ritualístico, remetendo os que juram aos fundamentos religiosos da Nação e do Povo Fundador, mesmo aceitando o Estado Laico.

No Brasil, levantou-se polêmica sobre o Crucifixo na parede principal do Plenário do Supremo Tribunal Federal. Por essa e por outras razões, a questão da proibição da abertura de Templos de todas as Religiões, por Prefeitos e Governadores, para cultos religiosos durante o recrudescimento da pandemia lá desaguaria; e com direito a todos os tipos de argumentos, desde a profissão de fé dos impetrantes, passando pelo ardor radical de um dos Amigos da Corte (amicii curiae), que evocou o Evangelista Lucas, versículos 23 e 24, (e foi reprendido pelo Presidente do STF), com a célebre expressão de Cristo na Cruz: “Pai, perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem”; até as manifestações descabidas dos que deveriam, por dever de ofício, espremendo até a última gota jurídica da Constituição, fazer a defesa do bem maior, que é a vida.

O julgamento da ação, que ocorreu ainda na “Oitava Pascal”, é revelador dos momentos cruciais que vivemos, demonstrando as idas e vindas do processo civilizatório, o poder das religiões e as armadilhas políticas como velhacouto das intenções escusas. Para mim a pergunta estava quase respondida. Antes do ponto final a ser posto nesta crônica, porém, não resisti, cliquei no YouTube e mandei rodar a Canção de Amália Rodrigues, “Nem às paredes confesso”. Depois de ouvi-la, dei um like e cochilei no sofá à espera do último voto no tribunal.

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