Dona Manuela

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Não era um dos melhores dias para o Zeca Normando. Suas mãos já tinham passado daquele estágio inicial, quando o primeiro bolo de palmatória provoca um ardume passageiro e deixa como lastro na palma da mão apenas manchas vermelhas que em pouco tempo somem. Sim. O castigo da primeira rodada da sabatina era sempre aplicado com zelo e naturalidade pela mão gorda e pesada de dona Manuela.

O ritual sempre inundava meus olhinhos infantis de receio e pavor. Primeiro, ela chamava atenção com duas palmas fortes que reverberavam em nossos ouvidos. Depois, anunciava o assunto da sabatina do dia. Hoje vai ser tabuada! Prontamente, levantávamos dos dois longos bancos sem encostos e fazíamos um semicírculo diante de sua mesa.

Em geral, as perguntas eram feitas da esquerda para a direita. Aquilo costumava causar confusão entre nós. Ninguém queria ser o primeiro a enfrentar aquele processo de inquisição. A algazarra só era resolvida quando ela batia forte com a palmatória sobre a mesa e estabelecia a ordem.

Mas não era incomum dona Manuela fazer escolhas aleatórias para dirigir suas perguntas e iniciar a sabatina. Ficávamos cheios de apreensão. Diante da resposta imprecisa ou errada, vinha o zelo e a naturalidade do castigo a que me referi.

Dentre outras lembranças daqueles tempos, essa fincou pé na minha apreensão infantil. Seus detalhes até hoje resistem armazenados em minha já cansada memória de adulto. Dona Manuela se aboletava em seu território inexpugnável. Por trás de si, um imenso quadro negro. À sua frente, uma mesa rústica de macacaúba bem envernizada, proporcionalmente pequena para o seu corpo grande e obeso. Erguia a cabeça e encarava o autor do erro. Engolia a saliva lentamente, como quem degusta sabor com a desgraça alheia. Franzia a testa, que acumulava mais rugas do que o natural. Com o braço pesado e gordo, sua mão direita, resgatava a palmatória no canto direito da mesa.

A vítima se aproximava, esticava o braço e se concentrava para as consequências. Ela, então, pegava gentilmente em suas pontas dos dedos e vergava-os um pouco para baixo, para expor a palma da mão. Depois, erguia a palmatória, desviava seu olhar para a plateia e fazia chegar aos nossos ouvidos o estalo seco e medonho provocado pelo encontro entre a mão inerte e o movimento brusco daquele pedaço de madeira feito arma.  Era dor imediata para quem recebia o castigo e dor futura para nós.

Deu-se que eu estava com dificuldades para acompanhar as aulas das primeiras séries no Grupo Escolar Olavo Bilac. Minhas notas de Português e Matemática andavam estacionando no vermelho. Para falar a verdade, eu achava um desperdício passar as manhãs inteiras com mais de quarenta frangotes do meu tope ouvindo as entediantes aulas de dona Eunice. Afinal, havia um mundo lá fora que precisava ser vivido!

O intenso movimento dos barcos que trafegavam no igarapé de São Raimundo e embalavam meus sonhos de aventura! Eu tinha um verdadeiro fascínio por aqueles barcos enormes, que a gente chamava de chatas, por terem o casco plano. Eram a vapor e movidos por uma enorme roda gigante em sua popa. Ao passarem pelo meio do igarapé, deixavam um rastro de águas brancas e revoltas que se transformavam em ondas onde as canoas e os barcos menores bailavam num ritmo cadenciado.

Havia as catraias em seu vai-e-vem incessante a transportar passageiros de uma margem a outra! As pescarias e os banhos clandestinos, longe dos olhos de Mãe! Os quintais acachapados de fruteiras, prontos para serem explorados e matar nossa fome! As boiadas que eram conduzidas por vaqueiros, nossos heróis, até o matadouro no vizinho bairro da Glória, em época de vazante! As arapucas estrategicamente armadas para pegar passarinhos!

Nada tinha contra dona Eunice. Era fã de seu jeito de ser. Morena clara, levemente corcunda, talvez pela altura exagerada.  Meio esquelética, dessas que os ossos ganham vista pelo decote do vestido, mas com o rosto cheinho. Olhos miúdos de criança, atentos como azougue. Voz suave e terna. E um sorriso de bondade sempre à flor da pele. Era um doce! Ainda assim, minha paciência para as coisas de sala de aula eram limitadíssimas.

Vivia a inventar pretextos para perambular pelos corredores da escola e fugir daquelas rotinas e obrigações. Talvez fosse o campeão de pedidos para ir ao banheiro. Dona Eunice me olhava, fazia um gesto de reprovação com a boca e o franzir da testa, como quem vai negar o pedido, mas em seguida piscava o olho esquerdo e aquiescia ao meu pedido com um movimento de cabeça. Eu gostava dela. E sentia que ela gostava de mim, apesar de não ser o aluno dos seus sonhos.

Para mim, a alegria maior era quando os toques do insistente sino de dona Segunda reverberavam na cobertura de zinco e se espalhavam pelas salas de aula do velho grupo escolar. Era o anúncio do recreio no meio da manhã. Eu interrompia o que estivesse fazendo e saia com meus pareceiros aos gritos, em desabalada carreira, rumo aos fundos do prédio. Em meio à algazarra e ao barulho ensurdecedor de tantos pirralhos, eu disputava com os concorrentes de outras salas para ser o primeiro a pegar a caneca de alumínio no balcão e entrar na fila do leite da Aliança para o progresso, que vinha dos Estados Unidos.

À frente da fila única, por trás de uma mureta revestida de azulejo branco, lá estava dona Segunda. Era a merendeira do Olavo Bilac. O anjo que nos salvava da fome de todos os dias no meio da manhã. Branca, alta e bem acima do peso, com um avental branco em volta do corpo e os cabelos sempre protegidos por um lenço vermelho, ficava ladeada por duas enormes panelas de alumínio, de onde subia a fumaça do leite encorpado e ainda em estado de fervura.

Quando chegava minha vez, usava de uma velha técnica para sair mais abastecido do que os meus concorrentes. Cada aluno tinha direito a apenas uma concha de leite, o que ocupava a metade da caneca, que não era pequena. Mas eu mantinha minha mão estendida. Fitava os olhos de dona Segunda com um olhar de fome e piedade e, em geral, conseguia sensibilizá-la a dobrar a minha cota de leite. Nunca me esquecia de lhe expressar gratidão com um sorriso carinhoso e exclusivo.

Pois aconteceu no meio de uma tarde de eu estar empoleirado na goiabeira que tínhamos no quintal. O galho mais alto, em forma de forquilha, era o meu preferido. Gostava do balanço suave provocado pelo vento. Sentia-me confortável como se estivesse em minha rede. Gostava de sentir a brisa acariciando meu rosto naquelas alturas. Me dava uma sensação de liberdade. Gostava de ter uma visão privilegiada dos quintais vizinhos e até das ruas próximas. Me dava uma sensação de poder.

Naquele dia, dono do meu território, saboreava uma goiaba vermelhinha que há dias eu vinha abicorando, quando ouvi de longe o grito de Mãe. Respondi de imediato ao chamado. Ainda a mastigar o derradeiro pedaço da goiaba, desci apressado. Tratei de limpar as teias de aranha grudadas em meus braços e pernas e corri em direção à cozinha de nossa casa.

Mãe disse o que eu já sabia. Mesmo com sua ajuda, no escasso tempo que lhe sobrava do trabalho e dos afazeres domésticos, minha vida no grupo escolar Olavo Bilac não ia bem. E eu precisava estudar. Pobre não tem outro jeito de melhorar de vida! Não queria que eu acabasse como o pai. Antes de ficar meses acamado e morrer, ficava grudado às vezes dia e noite em uma mesa de carteado ou dominó. Também não queria que eu acabasse levando a vida do vizinho, que vivia de pequenos bicos. Nem do meu avô, consertando sapatos. Mesmo com o dinheiro curto do salário- mínimo, que recebia como servente da Santa Casa de Misericórdia, decidira que eu iria para uma aula particular.

Lavei as mãos no camburão perto do jirau. Vesti um calção limpo e a blusa da semana. Mãe já estava pronta. Apenas passou um pente para acalmar os cabelos rebeldes e guardou discretamente duas ou três notas de dinheiro no sutiã. E lá fomos nós, minha mão direita grudada à sua mão esquerda, como era nosso costume sempre que saíamos à rua.

Na verdade, aquele hábito tinha sido reforçado mais por iniciativa minha, desde a nossa separação no primeiro dia do internato, coisa que ainda navegava no barco daquelas recordações que eu não gostava de lembrar. Apertar firme na mão de Mãe me dava segurança. A certeza de que aquela cena não mais iria se repetir. É claro que havia um exagero de minha parte. Afinal, a escola particular ficava na mesma rua de casa.

Dona Manuela era professora conhecida no bairro. Com seu particular rigor pedagógico, tinha fama de consertar meninas e meninos malandros que não davam conta do recado na escola. Não era o meu caso, pensava eu em minha defesa. Em minha lógica libertadora, apenas achava, como já disse, que o mundo lá fora merecia mais minha atenção do que o grupo escolar Olavo Bilac.

Além disso, aquele senhor magro e de cara séria, com uma trunfa a lhe ornamentar a testa grande e reluzente, um bigode com pontas salientes curvadas para cima e equilibrando aqueles óculos minúsculos sobre o nariz não me passava nenhuma motivação para estudar. Mas lá estava ele, habitando um enorme quadro com moldura envernizada no alto da porta que dava acesso às salas de aula, a nos olhar e intimidar todos os dias com sua carranca ranzinza. Não que lhe faltassem elogios de dona Eunice nas primeiras aulas. Referia-se a ele como o maior dos poetas parnasianos do Brasil.

Eu não entendia patavina desse negócio de ‘parnasiano”. Dava muito mais valor ao leite grosso e encorpado servido por dona Segunda. Para completar, eu achava também um despropósito e não me entrava na cabeça alguém se chamar Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac. Onde já se viu um nome desse!

A escola particular de Dona Manuela funcionava em sua própria casa. Mãe bateu na porta e fomos atendidos por uma senhora risonha e receptiva, de pouca altura e traços indígenas. Levou-nos por um longo corredor que atravessava toda a casa. Nos fundos, logo após a cozinha, numa extensão da cobertura da casa que dava livremente para o quintal, ficava a sala de aula comandada por dona Manuela. As paredes laterais de tijolos sem embuço eram cobertas por um musgo verde, efeito da humidade e das chuvas em abundância. Na parede que separava a sala de aula da cozinha, um quadro negro, já desgastado pelo uso, ocupava toda a extensão. A partir de sua mesa, logo à frente do quadro, dona Manuela comandava os trabalhos da sala com uma visão privilegiada.

Havia duas mesas longas e retangulares de madeira rústica, guarnecidas cada uma por dois bancos sem encosto, na mesma extensão. Além do espaço da sala de aula, já na fronteira com o quintal coalhado de árvores frutíferas, um traçado de cordas, de um lado a outro das paredes, onde se viam expostas diversas peças de roupas coloridas a secar, algumas das quais, pelo tamanho, deduzi pertencerem à minha nova professora.

Os olhos da plateia, que ocupava as duas mesas, se voltaram para mim. Fez-se um estranho silêncio. Senti que alguns daqueles olhares pareciam me encarar com ares solidários de boas-vindas; outros, acompanhados por um leve balançar de cabeça, pareciam lamentar minha chegada naquele território. Na dúvida, limitei-me a uma varredura sobre a mesa de dona Manuela. Entre livros, porta-lápis, alguns cadernos abertos com nítidas marcas de correção a tinta vermelha, caixa de giz, apagador e o que me pareceu ser uma fralda de criança usada como lenço, lá estava, repousada no canto direito da mesa, a me encarar tão de perto, a palmatória, a mais temerária das ferramentas pedagógicas de dona Manuela.

Mãe me apresentou a Dona Manuela, que deixou escapar um ralo sorriso em minha direção. Depois, começou a fazer um rápido histórico da minha vida pregressa de dificuldades no grupo escolar, mas sua voz acabou se misturando ao barulho de vozes da garotada que tomou conta do ambiente. Dona Manuela a interrompeu com um gesto de mão. Baixou levemente a cabeça. Franziu a testa. Por cima dos óculos aprumados na ponta do nariz, deu uma panorâmica de uma ponta a outra da sala. Como que por milagre, o vozerio fui sumindo gradualmente até se fazer completo silêncio na sala. Mãe terminou de discorrer sobre minha vida escolar pregressa. Dona Manuela registrou o nome do seu mais novo aluno em um caderno. Depois, Mãe tirou o dinheiro que havia guardado no sutiã e lhe entregou. Eu estava matriculado.

O episódio se deu no final da tarde de uma sexta-feira, três semanas depois da minha matrícula. Como de hábito, dona Manuela encerrava as atividades do dia com a sabatina, sempre uns trinta minutos antes do infalível apito que vinha da serraria, do outro lado do igarapé. Aquele som conhecido invadia os ouvidos do bairro, anunciava que eram cinco horas da tarde, marcava o fim do expediente e, por consequência, de nossa jornada de estudos. Já tínhamos passado da primeira rodada de perguntas e respostas. Nessa fase, como já disse, a palmatória em quem hesitava ou cometia erros era de uso exclusivo de dona Manuela. Dirigia uma pergunta a cada um de nós e aguardava alguns segundos para a resposta. Muitas vezes, quando conseguíamos driblar o medo e o nervosismo e responder, já era tarde. Tinha passado do tempo. O jeito era se aproximar, estender a mão e sentir o peso da palmatória e do pesado e pelancudo braço de Dona Manuela.

Mas aquele, como também já disse, não era o melhor dos dias para o Zeca Normando. De pele tão branca, que brilhava como cera, tinha os cabelos pretos cortados rentes ao couro cabeludo. Sobrancelhas grossas. Orelhas pequenas. Os olhos azuis, miúdos e inquietos, encaixados num rosto arredondado, davam a impressão de estar continuamente à procura de algum objeto perdido. Naquela primeira rodada da sabatina de tabuada, Zeca tinha sido o único a receber castigos. Todos sabiam que ele tinha dificuldades com os números, principalmente quando se tratava da divisão e da multiplicação. Comigo não era diferente. Mas eu havia escapado por pouco daquela vez.

Na segunda rodada da sabatina, o uso da palmatória era compulsoriamente terceirizado para nós. Primeiro, escolhíamos o colega a quem dirigir a pergunta. Caso ele errasse, recebia do autor da pergunta o castigo. Depois, a mesma pergunta era dirigida a outro colega escolhido. Se acertasse, também lhe era dado o direito de usar a palmatória naquele que havia cometido erro. Muitas vezes, conhecendo as dificuldades dos colegas, tentávamos fazer perguntas que exigissem respostas mais simples. A critério de dona Manuela, poderíamos ser punidos por essa facilidade. Outras vezes, quando era inevitável aplicarmos castigo em um colega com quem dividíamos mais amizade, tentávamos amenizar o peso da palmatória. Quando o olhar implacável de dona Manuela percebia essa manobra, a pena se voltava contra os dois. Cada um recebia um bolo pesado da professora por tentativa de drible das regras.

Aquelas cenas se repetiam todas as segundas, quartas e sextas-feiras, meus dias de aula, e me causavam uma enorme revolta interior. Meu coração de menino ficava profundamente abalado com aquele espetáculo de violência e sadismo. O som perverso da palmatória em nossas mãos passou a se traduzir para mim em sinônimo de tristeza, dor e medo. As noites que antecediam as aulas com dona Manuela se transformaram em momentos de incontrolável aflição. Acordava assustado, em meio ao escuro e ao silêncio da noite, e ficava remoendo no fundo da minha rede aquelas lembranças indesejáveis. Não sabia como, mas na minha limitada compreensão carregava com meus nove anos de vida a certeza de existirem outros caminhos para se aprender as matemáticas e as geografias do mundo.

Mãe já tinha se dado conta de que alguma coisa não andava bem comigo. Em diferentes ocasiões me flagrou absorto e retraído das coisas do dia a dia. Distante até das brincadeiras de que eu mais gostava. Minhas bolinhas de gude, guardadas em uma lata ao lado da escada da cozinha, já não eram incomodadas como antes. O pé de goiabeira, visita obrigatória no finalzinho das tardes para um lanche nas alturas, despertava pouco interesse. Durante o almoço, quando todos se reuniam em volta da grande mesa de madeira, tinha se tornado comum eu interromper o percurso da colher até a boca, ficar parado e com o olhar distante daquele momento que antes era sempre de alegria e prazer.

O coração de Mãe sabia, sim, que alguma coisa precisava ser feita. Numa dessas ocasiões, depois que meus irmãos debandaram do almoço, sentou-se ao meu lado, colocou a mão em meu ombro e fez um rosário quase interminável de perguntas. Eu disse tudo o que tinha de dizer. Tintim por tintim. Mãe ficou reflexiva durante alguns minutos. Olhei para o seu semblante de preocupação. Em filho meu ninguém bate! Eu posso até bater. Mas outro não! Esta será sua última semana. Vamos procurar outra aula particular.

As mãos brancas de Zeca Normando tinham mudado de cor. Os repetidos golpes de palmatória, desferidos a contragosto por alguns dos colegas, sob os olhares severos de dona Manuela, as tinham transformado em duas placas vermelhas levemente arroxeadas nas extremidades. De cabeça baixa, a esconder sua vergonha e sua dor, as lágrimas caíam-lhe em abundância e se encontravam na mancha úmida e visível que se formara em sua camisa de tecido amarelo. Ao seu lado esquerdo, percebi que Zeca prendia os lábios para controlar os soluços que o ameaçavam fazer desabar de vez. Seu sofrimento se transferiu por inteiro para mim. Me vi atravessado pela impotência e por uma angústia profunda.

No fim de tarde daquela sexta-feira, meu olhar de indignação e revolta percorria os olhares consternados dos colegas num apelo coletivo para darmos fim àquele horroroso clima de terror e sofrimento. Indiferente à nossa aflição, dona Manuela consultou o minúsculo relógio afogado em seu pulso e ordenou com naturalidade que iniciássemos a última rodada da sabatina, que agora seria iniciada pelo colega da ponta esquerda do semicírculo.

Em meio a um turbilhão de dúvidas, amarguras e sensações que embaralhavam minha cabeça de menino, pousei meu olhar exatamente no olhar do Túlio, a quem caberia iniciar aquela rodada de perguntas. Franzino e um tanto esquelético como eu, Túlio era de pouca conversa e de poucos amigos. E costumava se sair bem nas sabatinas. Por alguns segundos, nossos olhares igualmente transtornados ficaram hipnotizados um pelo outro, numa conversa entre mudos.

Fomos despertados pelo barulho de uma batida na mesa seguida da voz rouca e autoritária de dona Manuela, que passou a palmatória às mãos do Túlio e ordenou que ele escolhesse o colega e fizesse a sua pergunta. Naquele momento, instalou-se um clima de tensão e expectativa. E o desfecho daquele episódio de triste lembrança ficaria cravado em minha memória e serviria de norte para forjar em minha vida as escolhas políticas que até hoje carrego comigo.

Aquele gesto inusitado nos pegou a todos de surpresa e nos fez ficar com olhos arregalados de espanto. Franzino, frágil e reservado e de quem só ouvíamos a voz quando interpelado, Túlio armou um semblante firme e destemido que traduziu a completa indignação que havia tomado conta de mim e, certamente, de outros colegas. Com extrema coragem e sem alterar um tico de sua expressão, encarou dona Manuela, entregou com formalidade a palmatória para o colega ao seu lado e, no mais absoluto silêncio, em passos lentos e simétricos, caminhou até o seu lugar na sala.

Ficamos por instantes sem saber o que dizer ou o que fazer. Era para nós, meninos entre nove e dez anos, absolutamente inimaginável aquela silenciosa mas retumbante quebra de hierarquia. Apenas movíamos nossos olhares entre nós, tomados pelo espanto. Olhávamos para dona Manuela, com as maçãs do rosto tão vermelhas, que lembravam as mãos do Zeca Normando. E olhávamos para o Túlio, agora com o semblante emoldurado pela serenidade e paz de quem fez o que deveria ter feito.

A extraordinária coragem do Túlio nos contagiou a quase todos. O ritual foi religiosamente seguido, mesmo que ao som dos quase gritos e ameaças de dona Manuela. Mas o momento de maior vibração, ainda que no mais completo silêncio de nossa parte, foi quando chegou a vez do Zeca Normando. Dos treze colegas que formavam inicialmente o semicírculo inicial para a sabatina, apenas quatro haviam se recusado a cumprir o ritual iniciado pelo Túlio. Nessas alturas, os gritos de dona Manuela já haviam atraído a atenção da empregada da casa, de seu marido, um senhor esguio de aparência pacata, e de uma filha sua, uma senhora entre os vinte e cinco e trinta anos. Os três, sem nada entender, formaram uma espécie de plateia na entrada sala.

Zeca Normando já estava um tanto refeito, mas a blusa, ainda com marcas de umidade, denunciava as lágrimas de sua dor e vergonha. Seu rosto, entretanto, deixava escapar a vontade de quem desejava esboçar um sorriso, ainda que leve. Os quatro colegas que não tiveram coragem para cumprir o ritual permaneciam em pé, de cabeça baixa, ao seu lado. Zeca comprimia o cabo da palmatória em sua mão esquerda, em movimentos trêmulos, como quem tem o algoz sob seu controle. Seu olhar percorreu todos os rostos dos colegas que lhe tinham sido solidários e se alongou com gratidão no olhar corajoso do Túlio.

Em seguida, num gesto espontâneo cuja força simbólica, certamente como eu, ele só viria a descobrir bem mais tarde, Zeca ergueu a mão esquerda com a palmatória, como quem comemora a vitória, liberou o sorriso até então contido, deu três passos à frente, depositou a palmatória sobre a mesa de dona Manuela e se dirigiu ao seu lugar ao lado dos colegas.

Aquele foi meu último dia de aula com dona Manuela.

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