Liberdade

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De repente nós nos beijamos! Um ato final depois de adoráveis conversas sobre obras literárias e de sorrisos gostosos. Dali pra frente a nossa vida foi uma combinação de pecados, santidades, sonhos, felicidades, realizações, ousadias, fraternidades e inquietudes.

Uma mulher amorosa, inteligente, bonita, doce, religiosa e muito solidária. Nasceu numa família muito humilde, mas com muita perseverança formou-se em Letras e mais tarde em Direito.

A sua mãe era o exemplo que ela seguia, uma senhora simples que levava a vida sorrindo mesmo nas dificuldades e, acima de tudo, carregava Deus no coração e nas atitudes.

Fiquei encantado pela capacidade de ser decidida, pela forma carinhosa como olhava e fazia carícias em mim, por acreditar sempre nas pessoas e desejar vida melhor para todos. Com ela, aprendi o significado de amar com responsabilidade e ser um homem afável.

Moramos juntos. Escolhemos a nossa casa. Pintamos o nosso lar com cores alegres. Plantamos o pinheiro mais lindo da região.

Não faltou o pé de coco, além de gramas e de flores vermelhas na decoração do jardim. Ficávamos felizes toda vez que uma nova flor brotava e o pinheiro crescia.

Esteve comigo quando eu adoeci. Deu-me amor. Só não entrei numa depressão porque ela estava lá, mesmo remando contra a maré da vida e as incertezas de um futuro ao meu lado.

Entre nós os clichês amorosos se transformavam em promessas de um amor eterno. Nossos beijos e olhares sempre selavam uma carta aberta à vida amante. Seu amor tinha ares de incondicional. Perto dela eu era livre. Viver ao seu lado, minha felicidade.

Tempo, tempo, tempo, tempo, tu és um ditador. Corróis as certezas, desgastas o Olimpo das boas emoções, fragmentas as relações amorosas. Vazio, angústia, meu ser pedia liberdade. Mas que liberdade? Solidão. Queria algo mais. Nem sei pra quê.

A liberdade está sempre presente na vida de qualquer pessoa, expressando significados diversos no tempo, no espaço, no coração e no conhecimento humano.

Uma passagem bíblica diz que a verdade é a “chave” para alcançar a liberdade e que Deus é a verdade, pois ele é criador de tudo: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

Por outro lado, a filosofia sartriana evoca o fim de Deus, enquanto crenças divinas, para que o ser humano conquiste a liberdade: “não existem valores ou regras eternas, a partir das quais podemos no guiar. E isto torna mais importantes nossas decisões, nossas escolhas”.

Nem sei se existe de fato liberdade no mundo social ou na vida natural do ser humano. Viver coletivamente é obedecer a regras morais e leis; a vida isolada, mesmo numa ilha, requer obediência aos ditames da natureza. Tudo isso é um eterno dilema e move os conflitos humanos.

Pois bem, ficamos algum tempo distante, seguindo cada qual seu caminho. Agora, ela acaba de completar 52 anos de idade e tudo isso veio à minha mente. Acho que fui um homem de sorte por tudo que aprendi com ela.

Hoje, já com fios de cabelos brancos e rugas no rosto, continuo tentando entender o espírito de liberdade que ainda existe dentro de mim, mas já consigo administrar. Aprendi que o melhor caminho é a conciliação entre a liberdade nas suas mais diversas conceituações e o amor, isto sim, é ser livre.

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