Contos do Conde Aquino reverberam o imaginário dos povos do alto rio Negro

Por Leyla Leong

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Um pouco mais largo e mais comprido do que um pocket-book, Sob as Estrelas – nas florestas do alto rio Negro, livro de estreia do chef de cozinha Conde Aquino, tem um formato adequado para uma leitura rápida em qualquer lugar.

Mato-grossense de 57 anos, estabelecido em São Gabriel da Cachoeira (AM), onde faz experiências com releitura da culinária indígena no seu restaurante La Cave du Roi, Aquino é uma das belas surpresas literárias de 2019.

Levado a São Gabriel da Cachoeira por “um mix de necessidade e oportunidade”, o autor revela-se em seus contos breves, um observador de tudo daquilo que o rodeia. É quase um geógrafo na descrição elaborada e precisa dos cenários onde se passam as suas histórias: rios, pedras, folhas, floresta, névoas e neblinas, murmúrios.

A minúcia com que descreve os acidentes geográficos conduzem o leitor ao local onde tudo vai acontecer em seguida. É só esperar…

Aquino domina bem a linguagem, sabe dosar o desenrolar do que conta, surpreendendo com finais inesperados.

O texto evidencia a intimidade do autor com os mitos indígenas e com os seus contadores, pois o narrador das histórias usa uma linguagem autêntica da região que tem o privilégio de ter a maior população indígena do Brasil.

São quarenta e nove contos fantásticos, ilustrados pelo líder indígena do povo Dessana e artista plástico Feliciano Lana, falecido em maio de 2020, vítima de Covid-19, aos 83 anos, que também desenhou a capa do livro, a contracapa, os rodapés, as marcações das páginas…

A primeira edição de Sob as Estrelas… foi feita em parceria com o editor e designer Felipe Lobo (Flameseed Productions) com uma tiragem de mil exemplares, cuja carreira comercial foi interrompida pela pandemia.

“As vendas têm sido ínfimas, observa. Esse mercado é muito seleto, principalmente para um autor desconhecido. Na verdade, estou perdido nesse universo… mas vou em frente”, conclui.

Sem deixar-se abalar pelas circunstâncias, Aquino, “seu Conde”, como é chamado pelo povo de São Gabriel da Cachoeira, já pensa em fazer outro livro, dessa vez sobre as suas criações gastronômicas às quais incorpora ingredientes da culinária tradicional indígena como o tucupi preto, a formiga saúva, e o cubiu, entre outros.

Aquino revela que pretende continuar a escrever poemas e contos inspirados no universo milenar dos povos tradicionais.

Vamos aguardar.

Trecho

Eu vi o Arú… Ele é branco. Mas antes de mim, o meu bisavô viu e disse para o meu avô, que disse para o meu pai, que disse para mim e agora eu vi: é uma gente homem, branco, quase transparente, eu nunca tinha visto ninguém assim. Mesmo antes do meu bisavô, quando o mundo era recém-nascido, os nossos ancestrais conheceram o Arú, o dono do frio.

Ele costuma vagar pela floresta e gosta de ficar próximo as cabeceiras de rios, pelos igarapés e córregos que escorrem pedra abaixo. Fica dias, meses sem se manifestar, sem aparecer. Leve e silencioso ele vaga calmamente por todos esses lugares observando gente bicho e gente homem e quase nunca interfere no que eles fazem, só se manifesta diante de casos muito graves de quebra de regras estabelecidas por alguma divindade.

O dono do Frio, página 59

 

Ficha técnica 

Sob as Estrelas – nas florestas do alto rio Negro

Conde Aquino

145 páginas

Edição do autor (2019)

Ilustrações Feliciano Lana

Serviço

Onde comprar:

.Casarão das Ideias (3633 4008)

. Banca do Largo (98255 3433)

Preço R$ 35,00

(pelo correio R$ 45,00)

Vendas pelo Whatsapp 97 9916085 ou pelo celular 97 984119981

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